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Venda de informações privilegiadas, extorsões e até homicídios: como agia a quadrilha de farda

Grupo de policiais de Porto Alegre era investigado há quase um ano e foi alvo de operação na última segunda-feira
BM / DivulgaçãoArmas foram apreendidas com um dos policiais militaresBM / Divulgação

“Palhaços, paspalhos”. Risos.

A forma debochada com que se referiam a colegas policiais militares (PMs) que insistiam em fazer o que é dever por lei, como coibir o crime, prender criminosos e apreender drogas e armas, é uma das marcas do grupo suspeito de ser braço de uma facção criminosa do Estado, com base no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre.

Presos ou alvos de buscas e apreensões na manhã da última segunda-feira (11), na Operação Cherrin, PMs que riam de colegas em conversas telefônicas foram investigados por quase um ano. Embalados por certa sensação de impunidade, esqueceram de disfarçar crimes e ostentações. Acabaram símbolo de uma das maiores ações contra a corrupção policial no Rio Grande do Sul. Dez PMs foram presos e, até o momento, são pelo menos 25 sob suspeita de prestarem serviços à facção Bala na Cara em detrimento dos interesses da sociedade.

A maior parte dos investigados é lotada ou passou pelo 11º Batalhão da Polícia Militar (BPM) e representa quase 10% do efetivo total da unidade situada na zona norte de Porto Alegre. Somente um dos presos não teve passagem pelo batalhão. Sete estavam atualmente na guarnição, um atuava em Guaíba e outros dois no 20º BPM, também na mesma região da Capital. Sete são soldados, dois são sargentos e um é tenente da reserva. Os salários deles variam entre R$ 5,1 mil e R$ 13 mil. Juntos, custam mais de R$ 1 milhão por ano ao Estado em remunerações.

Apropriação de armas e de drogas durante ocorrências, comércio de armamento, tráfico de entorpecentes, venda de informações privilegiadas e extorsões estão entre os delitos investigados. Até a possibilidade de envolvimento em homicídios por encomenda é verificada pelas autoridades. Aliás, foi por meio dos criminosos da facção que foram obtidos os principais indícios da atuação suspeita por parte dos policiais militares.

A partir de horas de gravações telefônicas com diálogos dos traficantes, autorizadas pela Justiça, foi possível decifrar o que os militares faziam.

Ao abordar criminosos – de um grupo diverso daquele que recebia proteção oficial – com armas e drogas, os PMs suspeitos se apropriavam de armas e drogas que poderiam ser revendidas à facção amiga ou até em outros negócios.

Proteção à facção da capital

Alguns policiais foram presos durante as buscas porque tinham em casa armas apreendidas em ocorrências policiais. Os militares eram beneficiados com os valores da revenda dos materiais.

O grupo de PMs suspeito se dividia no que a investigação passou a chamar de “células autônomas”. A atuação era compartimentada, cada um tinha tarefas diferentes e atuava por territórios.

O grande mote da atuação, conforme autoridades, era dar proteção aos negócios da facção e fornecer armas. Proteger significava ações omissivas em determinados momentos, como deixar de agir da maneira que deveria, ou até mesmo atuar de forma mais ostensiva em relação a adversários do grupo. Não é descartada a possibilidade de mortes por interesse da facção protegida. Outra situação flagrante era o repasse de informações privilegiadas sobre operações policiais planejadas contra o grupo criminoso ou investigações em andamento.

Em contrapartida pelos serviços prestados, os PMs passaram a ter acréscimo patrimonial, bens incompatíveis com a renda. Algumas vezes, ao receber dinheiro dos traficantes, contavam as notas dentro de viaturas, parados na rua, sem disfarçar.

Aquisições de carros luxuosos entraram na mira da Corregedoria

Informações relatando esse tipo de situação chegaram à Corregedoria. A investigação monitorou aquisições, principalmente, de carros luxuosos, já que negociações e comentários foram flagrados nas escutas. Alguns chegavam a exibir as conquistas, como boas viagens, nas redes sociais.

– A comunidade não distingue quais os PMs estiveram envolvidos. A imensa maioria dos brigadianos é correta. É honesta. Mas esse punhado de gente faz um estrago grande – lamenta um oficial, que atuou no 11ª BPM.

Após as prisões, a preocupação agora é a de recuperar a confiança dos moradores com o batalhão. No ano passado, o 11º BPM recebeu R$ 4 milhões entre veículos e armas por meio de doação de empresários.

“Não é prática disseminada”, diz MP

Trabalho conjunto da Corregedoria da Brigada Militar e do Ministério Público resultou na ação da última segunda-feira, que prendeu 10 PMs e oito pessoas relacionadas à facção e apreendeu R$ 240 mil, 126 celulares, 10 armas e 1,4 mil munições de diversos calibres.

O desnudamento do que ocorria nas vielas do bairro Bom Jesus, berço da facção, começou a ser feito ano passado, a partir de maio, depois de um caso de peculato. Durante abordagem, um PM teria pego R$ 4 mil que estavam em posse de uma pessoa ligada a jogos de azar.

Revoltada, a vítima denunciou o caso a autoridades. O policial foi preso e, a partir do conteúdo do celular dele, as ligações com criminosos passaram a ser rastreadas. Apesar de afastado do trabalho e respondendo a processo na Justiça Militar, o PM foi novamente preso na Cherrin. Ele é um dos cinco principais investigados.

Um detalhe importante da investigação: não se trata de mais uma apuração sobre os inúmeros crimes perpetrados pela facção. O trabalho nasceu na Justiça Militar e sempre teve como foco a atuação dos militares, a interação com a facção, a troca de favores, a venda de trabalhos, o fornecimento de armas e a proteção prestada pelos servidores públicos ao grupo criminoso que trafica drogas, rouba e mata, espalhando o terror na Capital, na Região Metropolitana e no Interior.

O grupo criminoso é ligado ao traficante Luís Fernando da Silva Soares Júnior, o Júnior Perneta ou Museo, que em maio foi capturado no Paraguai.

—Esses policiais são exceção. Não é prática disseminada dentro da Brigada Militar. O Ministério Público confia na instituição Brigada Militar – diz o promotor que coordenou a investigação, Nilson de Oliveira Rodrigues Filho, da 2ª Vara Criminal.

Contrapontos

Procurado pela reportagem, o comandante do 11º BPM, tenente-coronel Douglas da Rosa Soares, salientou que procurou a Corregedoria da Brigada Militar logo após ter conhecido do envolvimento de policiais com criminosos, há mais de um ano. A partir daí, o comando passou a apoiar as investigações, que culminaram nas prisões dos 10 PMs.

— Nosso objetivo foi ser transparente. Porque é inadmissível ter policial corrupto no serviço.

Os investigados

Soldados do 11° BPM que ingressaram na corporação em 10/8/2009
Vitor Ronaldo Pereira Hernandez
Tinha mandado de prisão por associação com organização criminosa
O que diz a defesa: o advogado Marcio Rosano Dias de Souza informou que só deve se manifestar sobre o caso após ter acesso aos autos do processo.

Romário Soares Corrêa
Tinha mandado de prisão por associação com organização criminosa (encontrado com armas e drogas)
O que diz a defesa: não foi localizada.

Italo Vitcoscki Bevilaqua
Tinha mandado de prisão por associação com organização criminosa e comércio de armas
O que diz a defesa: os advogados Carlos Eduardo Galant Lopes e Gabriela John dos Santos Lopes afirmaram que ainda não tiveram acesso à íntegra do processo.
— Estamos aguardando para tomar ciência de toda a situação e começar a estudar o que pode ser feito — afirmou Gabriela.

Alisson Fernando Frizon
Tinha mandado de busca e apreensão (foi encontrado com drogas)
O que diz a defesa: não foi localizada.

Tiago Aquino de Souza
Tinha mandado de busca (associação com organização criminosa e armas)

Gabriel Luis Corrêa da Costa
Tinha mandado de busca e apreensão e foi encontrado com drogas
O que diz a defesa de Tiago e Gabriel: o advogado Fabio Cesar Rodrigues Silveira observa que ainda não teve acesso aos autos, o que foi negado pela Justiça. Entretanto, deve pedir a liberdade do seu cliente.
— Vamos seguir tentando a liberdade dos nossos clientes, apesar da excepcionalidade de estarem negando o direito básico de saberem do que são acusados — observou o advogado.

3º sargento André Ricardo Simplício Soares
Tinha mandado de busca e apreensão e foi encontrado com drogas
Data de ingresso: 02/10/1993
O que diz a defesa: a advogada Andrea Ferrari salienta que o seu cliente nega “veementemente” envolvimento com o grupo criminoso. Ela observou que vai pedir a liberdade do sargento, mas está tendo dificuldades para obter acesso aos autos.

Soldado Roger Lopes da Silva, do 31° BPM
Não há informações sobre o tipo de mandado
Estava lotado: 31ºBPM. Foi do 11º BPM entre 2010 e 2015
Data de ingresso: 10/8/2009
O que diz a defesa:  O advogado David Leal da Silva observa que ainda não teve acesso aos autos e, por isso, desconhece o motivo de Roger estar preso. Ele ainda defende um dos cinco civis presos.
— Se analisarmos a legislação pertinente e a própria súmula vinculante número 14 do STF, é fácil de perceber que é totalmente inadequada toda situação em que nos encontramos. Meus clientes foram presos na segunda-feira, estão dispostos a contribuir com a justiça, tanto é que prestaram depoimento na delegacia, mas até agora não se sabe do que realmente se trata.
Ainda segundo o advogado, as armas encontradas com Roger estão “devidamente registradas” Roger também é defendido pela advogada Raiza Hoffmeister.

3º sargento Daniel dos Santos Fagundes
Não há informações sobre o tipo de mandado
Data de ingresso: 12/07/1994
Estava lotado: 20º BPM. Não pertenceu ao 11º BPM
O que diz a defesa: o advogado Fabio Cesar Rodrigues Silveira observa que ainda não teve acesso aos autos:
– Vamos seguir tentando a liberdade dos nossos clientes, apesar da excepcionalidade de estarem negando o direito básico de saberem do que são acusados.

1º tenente da reserva Rogério Oliveira Cardoso
Não há informações sobre o tipo de mandado
Data de ingresso: 12/06/1989
Estava lotado: 20º BPM. Atuou no 11º BPM até 1998
O que diz a defesa: não foi localizada.

Polícia Federal abre concurso com 500 vagas; maior salário é de R$ 22,6 mil

Inscrições poderão ser feitas a partir das 10h da próxima terça-feira (19) até as 18h de 2 de julho

A partir da próxima terça-feira, é possível se inscrever no concurso público da Polícia Federal (PF). São ofertadas 500 vagas para os cargos de delegado, perito criminal, agente, escrivão e papiloscopista. O edital foi publicado na quinta-feira (14).

As oportunidades são para candidatos com Ensino Superior, e a remuneração varia entre R$ 11.983,26 e R$ R$ 22.672,48. O período de inscrições começa às 10h de terça-feira (19) e vai até as 18h de 2 de julho. A taxa será de R$ 180 para agente, escrivão e papiloscopista, e R$ 250 para delegado e perito criminal.

Para o cargo de delegado, o concurso terá provas objetiva, discursiva, exame de aptidão física, prova oral, avaliação médica, psicológica e de títulos. Para perito criminal, serão realizadas provas objetivas, discursivas, exame de aptidão física, avaliação médica, psicológica e de títulos. Para concorrer a agente de PF e papiloscopista, os candidatos serão submetidos a provas objetivas, discursivas, exame de aptidão física, avaliação médica e psicológica. Já para escrivão, haverá provas objetivas, discursivas, exame de aptidão física, prova prática de digitação, avaliação médica e psicológica.

As provas objetivas e discursivas serão aplicadas em 19 de agosto, e os candidatos deverão acessar este site para verificar os locais. O exame de aptidão física ocorrerá em 13 e 14 de outubro, a prova oral será realizada em 11 de novembro, a prática de digitação, em 11 de novembro, a avaliação médica, em 17 e 18 de novembro e a avaliação psicológica, em 6 de janeiro.

Os aprovados na primeira etapa serão convocados para o envio dos documentos necessários à matrícula no Curso de Formação Profissional, por meio deste site no período provável de 31 de janeiro de 2019 a 6 de fevereiro de 2019. O curso será realizado pela Academia Nacional de Polícia, no Distrito Federal, em regime de internato, no período provável de 8 de abril de 2019 e 6 de setembro de 2019, para o cargo de delegado, de 15 de abril de 2019 a 6 de setembro de 2019, para perito criminal, e de 8 de abril de 2019 a 6 de setembro de 2019 para os cargos de agente, escrivão e papiloscopista.

Conforme o edital, a classificação com base na nota obtida no Curso de Formação Profissional será obedecida para a escolha de lotação. Serão disponibilizadas vagas, preferencialmente, nos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e em unidades de fronteira.

As vagas

Cargos e vagas: delegado de polícia federal (112 para ampla concorrência + 30 reservadas a candidatos negros + 8 reservadas a candidatos com deficiência), perito criminal federal – área 1 (7 para ampla concorrência + 2 reservadas a candidatos negros + 1 reservada a candidatos com deficiência), perito criminal federal – área 2 (3 para ampla concorrência + 1 reservada a candidatos negros + 1 reservada a candidatos com deficiência), perito criminal federal – área 3 (15 para ampla concorrência + 4 reservadas a candidatos negros + 1 reservada a candidatos com deficiência), perito criminal federal – área 4 (2 para ampla concorrência), perito criminal federal – área 5 (2 para ampla concorrência), perito criminal federal – área 6 (3 para ampla concorrência + 1 reservada a candidatos negros), perito criminal federal – área 7 (5 para ampla concorrência + 2 reservadas a candidatos negros + 1 reservada a candidatos com deficiência), perito criminal federal – área 9 (3 para ampla concorrência + 1 reservada a candidatos negros), perito criminal federal – área 12 (2 para ampla concorrência), perito criminal federal – área 14 (2 para ampla concorrência + 1 reservada a candidatos negros), agente de polícia federal (135 para ampla concorrência + 36 reservadas a candidatos negros + 9 reservadas a candidatos com deficiência), escrivão de polícia federal (60 para ampla concorrência + 16 reservadas a candidatos negros + 4 reservadas a candidatos com deficiência), papiloscopista policial federal (22 para ampla concorrência + 6 reservadas a candidatos negros + 2 reservadas a candidatos com deficiência)

Nível: superior

Salário: R$ 11.983,26 a R$ R$ 22.672,48

Prazo: de 10h de 19 de junho até 18h de 2 de julho

Taxa de inscrição: R$ 180 a R$ 250

Prova: objetiva e discursiva em 19 de agosto, exame de aptidão física em 13 e 14 de outubro, prova oral em 11 de novembro, prova prática de digitação em 11 de novembro, avaliação médica em 17 e 18 de novembro, avaliação psicológica em 6 de janeiro e avaliação de títulos.

Edital e inscrições: neste site.

‘Uso da força vai gerar resistência’, diz associação de caminhoneiros

O presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, classificou como tardio o pronunciamento do presidente Michel Temer para tentar solucionar a crise de abastecimento gerada pela paralisação dos motoristas. Para o líder da entidade que não concordou com o acordo firmado na quinta-feira, 24, o uso da força citado por Temer vai tornar ainda mais difícil o fim da paralisação.

“O uso da força vai tornar ainda mais difícil acabar com a mobilização porque essa estratégia vai gerar resistência”, disse o presidente da entidade ao Broadcast. serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado. Para Fonseca, se forças de segurança tentarem retirar caminhoneiros a força, “haverá gente presa, machucada e muita confusão”.

“Essa foi uma reação tardia e acontece cinco dias após o início do movimento. A situação não precisaria do uso da força para ser resolvida”, disse. Fonseca rejeita a afirmação de Temer que apenas uma “minoria radical” segue na estradas. “O número de manifestantes mostra que não somos minoria. Ao contrário, somos a maioria do movimento e que não está de satisfeito com o acordo feito ontem”, disse o dirigente.

Temer entra com ação no STF para desbloquear rodovias do país

Medida foi tomada após cinco dias de paralisação dos caminhoneiros que tem provocado o desabastecimento em diversas cidades
DIDA SAMPAIO / ESTADÃO CONTEÚDO
Governo pede que o Supremo viabilize “a adoção de todas as providências cabíveis e necessárias pelas autoridades públicas competentes” para liberar as viasDIDA SAMPAIO / ESTADÃO CONTEÚDO

O presidente Michel Temer entrou, nesta sexta-feira (25), com uma arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF), com pedido de liminar (decisão provisória), no Supremo Tribunal Federal (STF), com o objetivo de obter uma decisão única que permita o desbloqueio das rodovias do país, decorrente de protestos de caminhoneiros.

O relator sorteado para analisar a ADPF foi o ministro Alexandre de Moraes, que pode proferir uma decisão a qualquer momento.

A medida foi tomada após cinco dias de paralisação dos caminhoneiros, o que tem provocado o desabastecimento, principalmente de combustíveis, em diversas cidades do país. A categoria reivindica, entre outras coisas, a retirada de impostos sobre o diesel.

Na peça, assinada pelo próprio Temer e também pela advogada-geral da União, Grace Mendonça, o governo relata já ter entrado com dezenas de “ações pulverizadas” por todo o país, mas que decisões conflitantes têm sido proferidas sobre o tema, com alguns juízes concedendo liminares para liberar rodovias enquanto outros a negam.

Diante das contradições, é necessária “uma atuação uniforme e rápida por essa Suprema Corte a fim de garantir segurança jurídica”. O governo argumenta que os bloqueios promovidos pelos caminhoneiros ferem preceitos fundamentais da Constituição, entre os principais o direito de “livre locomoção no território nacional em tempos de paz”.

O governo pede que o Supremo viabilize “a adoção de todas as providências cabíveis e necessárias pelas autoridades públicas competentes” para liberar as vias. Pede ainda que sejam suspensos os efeitos de qualquer outra decisão judicial que impeça “a livre circulação de veículos automotores nas rodovias federais e estaduais ocupadas em todo o território nacional”, bem como as decisões que impedem “a reintegração de posse” das rodovias pela União.

Em caso de descumprimento, o governo pede que seja imposta uma multa de R$ 100 mil por hora às entidades responsáveis, “por atos que culminem na indevida ocupação das vias públicas, inclusive acostamentos”, e de R$ 10 mil por dia a qualquer manifestante “que se recuse a retirar o veículo que esteja obstruindo a via pública”.

Greve dos caminhoneiros: Temer autoriza uso das Forças Armadas e polícias para desobstruir estradas

Presidente afirmou que governadores foram orientados a mobilizar também a Polícia Militar
Antonio Cruz / Agência Brasil
Antonio Cruz / Agência Brasil

 O presidente Michel Temer comunicou, nesta sexta-feira (25), que acionou o uso de forças federais para a desobstrução de estradas no país. Em pronunciamento no Palácio do Planalto, disse que “uma minoria radical” desrespeitou o acordo estabelecido entre o governo e as entidades que representam os caminhoneiros. O presidente disse que os governadores foram orientados a mobilizar também a Polícia Militar na operação.

— Muitos caminhoneiros, aliás, estão fazendo sua parte, mas infelizmente uma minoria radical tem bloqueado estradas, impedido que muitos caminhoneiros levem adiante o seu desejo de atender a população e fazer o seu trabalho — disse Temer.

 

O presidente citou as medidas propostas pelo governo para a suspensão da greve por 15 dias, como a redução de 10% no preço do diesel durante 30 dias e a retirada da cobrança da Cide. Segundo Temer, houve comprometimento dos representantes dos caminhoneiros em encerrar o movimento.

— Atendemos 12 reivindicações prioritárias dos caminhoneiros, que se comprometeram a encerrar a paralisação imediatamente. Esse foi o compromisso conjunto. Esse deveria ter sido o resultado do diálogo — afirmou, em referência ao acordo proposto na noite de quinta (24).

A assessoria do Ministério da Segurança disse que um decreto presidencial será editado por volta de 16h desta sexta com os detalhes da operação das forças federais. Serão envolvidos militares das Forças Armadas, da Força Nacional, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e das polícias militares dos estados.

Ainda segundo a assessoria, o decreto permitirá o desbloqueio de estradas e dos acostamentos. O governo quer, inclusive, que os militares assumam a direção dos veículos em caso de resistência dos motoristas.

A operação deverá ter início por estradas que levam a seis aeroportos, de modo a garantir a chegada de caminhões com querosene de aeronaves. O mesmo ocorrerá nos acessos de duas termelétricas do país que correm risco de funcionamento por falta de combustível.

Por que o acordo proposto pelo governo não foi acatado pelos caminhoneiros

Um dia após anúncio de trégua, profissionais demonstram insatisfação com termos de documento assinado por representantes da categoria
Anderson Fetter / Agencia RBS
Mobilização de caminhoneiros na Avenida João Moreira Maciel, em Porto AlegreAnderson Fetter / Agencia RBS

A tentativa do governo federal de arrefecer a greve dos caminhoneiros com o acordo anunciado na noite de quinta-feira (24) surtiu efeito contrário. Insatisfeita com a maioria dos pontos do acerto entre líderes do governo e dos caminhoneiros, a categoria afirma que o movimento ganhou força com a falta de medidas que vão ao encontro das suas reivindicações.

Presidente da Associação de Caminhoneiros de Palmeiras das Missões e integrante da Comissão Nacional do Transportes a frente das negociações com o governo, Carlos Ribeiro afirma que as medidas anunciadas pelo governo não atendem as três principais demandas da categoria: o corte do PIS/Cofins sobre diesel, a aprovação do projeto de lei complementar (PLC) 121 que cria uma política de preços mínimos para o frete com tabela de valores por quilômetro rodado por eixo carregado, conforme a carga e, por último, a isenção de cobrança de pedágio sobre eixos erguidos quando os caminhões estão vazios por concessionárias de rodovias estaduais.

— Isso foi um suposto acordo, não vem nada ao encontro do que a gente pede. O nosso movimento não vai dar trégua. Após a divulgação desse acordo ele só engrossou, revoltou ainda mais a nossa classe e a sociedade. Se houver isenção do pedágio para eixo erguido, em um trecho de 500 quilômetros conseguimos economizar R$ 200. Não é justo cobrar por rodas que não estão usando a rodovia — afirma Ribeiro.

A categoria também reforça que não se sentiu representada da reunião com os líderes do Planalto:

— Não foi feito acordo com caminhoneiros, mas com empresários. Nossos representantes não foram recebidos. Só 30 dias de baixa de preços não resolve, queremos uma baixa permanente — defende o caminhoneiro autônomo Marcos Henrique Gelinger, que está mobilizado na RS-239 em Araricá.

— Só no mês de maio o óleo diesel subiu R$ 0,40. Sou autônomo, vivo do caminhão e estamos sendo castigados. Quase tudo o que eles colocaram no acordo, não serve para nós. Esse pessoal que entrou na reunião não nos representa — reforça o caminhoneiro autônomo Bruno Tagliari, mobilizado desde a madrugada de domingo na BR-285 em São Luiz Gonzaga.

Segundo o presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Carga de Ijuí, Carlos Alberto Litti Dahmer, que participou do encontro em Brasília, ele foi convidado a se retirar da reunião após não concordar com os termos do acordo. Dahmer diz representar cerca de 18 mil caminhoneiros, espalhados por 150 municípios do noroeste gaúcho.

O que enfraquece o acordo, segundo caminhoneiros

– Texto não cita a principal reivindicação da categoria, que é o corte do PIS/Cofins sobre diesel.
– Oferece redução de preços provisória, enquanto a categoria luta por políticas permanentes e que deem estabilidade ao preço do diesel.
– Utiliza termos vagos como “promover gestão junto aos Estados” e “manter com entidades reuniões periódicas para acompanhar os termos do acordo”.
– O acordo, segundo a categoria, foi fechado com empresários do setor de transporte e não com líderes que representam seus interesses.
– Trata de ações e negociações futuras que, na avaliação dos caminhoneiros, podem não se efetivar. No caso das promessas não serem cumpridas, seria difícil convocar nova mobilização com a mesma força da que ocorre agora.

Ponto a ponto, os itens do acordo que desagradam os caminhoneiros

Item do acordo: reduzir a zero a alíquota da Cide, em 2018, sobre o óleo diesel, bem como as necessárias providências decorrentes dessa medida.

Como a categoria avalia: considera irrisória a retirada da Cide do preço do diesel. A Cide é cobrada como um valor fixo, de R$ 0,05 por litro de diesel, com impacto de cerca de 2% sobre o preço. A retirada do PIS/Cofins teria efeito muito maior na redução do preço.

Item do acordo: manter a redução de 10% no valor do óleo diesel a preços na refinaria, já praticados pela Petrobras, nos próximos trinta dias.

Como a categoria avalia: para os caminhoneiros, a redução por 30 dias não resolve o problema. A categoria quer uma medida permanente ou que reduza o preço por pelo menos um ano.

Item do acordo: assegurar a periodicidade mínima de 30 dias para eventuais reajustes do preço do óleo diesel na refinaria.

Como a categoria avalia: quer pelo menos um ano de congelamento no preço. O temor é que se congele os valores por 30 dias e, após esse período, o preço volte a saltar R$ 0,50.

Item do acordo: reeditar, no dia 1º de junho de 2018, a Tabela de Referência do frete do serviço do transporte remunerado de cargas por conta de terceiro, bem como mantê-la atualizada trimestralmente, pela ANTT.

Como a categoria avalia: para a categoria, essa tabela existe só no papel e não é respeitada na prática. Para fixar uma política de preços mínimos para o frete, exigem a aprovação da PLC 121 no Senado.

Item do acordo: promover gestão junto aos Estados da federação, para implementação da isenção da isenção da tarifa de pedágio prevista no art. 17 da Lei nº 13.103, de 2015 (não cobrança sobre o eixo suspenso em caminhões vazios). Em não sendo bem sucedida a tratativa administrativa com os estados, a União adotará as medidas judiciais cabíveis.

Como a categoria avalia: considera que o item não prevê uma medida concreta e que o texto é vago. Para a categoria, ao dizer que vai “promover gestão junto aos estados”, o governo não dá garantia que será extinta a cobrança sobre eixo erguido nos pedágios das rodovias estaduais. Em pedágios das rodovias federais, a isenção da cobrança já existe.

Após anúncio de acordo, caminhoneiros mantêm protestos no RS

Representantes de parte da categoria consideram propostas do governo insuficientes para encerrar mobilização nacional
Ronaldo Bernardi / AgênciaRBS
Motoristas fazem fila em posto de combustíveis na expectativa de retomada do abastecimento em Porto AlegreRonaldo Bernardi / AgênciaRBS

Nem mesmo o anúncio de um acordo para colocar fim à greve dos caminhoneiros, feito na noite de quinta-feira (24) pelo Palácio do Planalto, promete por fim à paralisação. No dia em que as mobilizações completam cinco dias, o clima é de incerteza nos setores afetados pelos protestos. Aqui no Rio Grande do Sul, parte da categoria garante que não vai “arredar o pé”. Nesta sexta-feira (25), há pelo menos 15 pontos de concentração de caminhoneiros em rodovias do Estado.

AO VIVO: acompanhe os efeitos da greve dos caminhoneiros no RS

— Isso não resolve. Não vai dialogar com a categoria. Esse acordo não traz pontos essenciais, como o piso mínimo de frete e a redução de PIS/Cofins, onde governo e nem Congresso chegam em um acordo para zerar — argumentou o presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Carga de Ijuí, Carlos Alberto Litti Dahmer, que foi convidado a se retirar da reunião com o governo por não concordar com os termo do acordo proposto.

Dahmer, que representa cerca de 18 mil caminhoneiros de 150 municípios do noroeste gaúcho, não acredita na dissolução do movimento tanto no Estado quanto no país. A opinião é compartilhada pelo presidente da Associação dos Caminhoneiros de Soledade, Felipe Corneli. Para ele, na região, a categoria não deve aderir ao acordo sugerido pelo governo por não julgar a proposta suficiente.

— O governo quer desmobilizar o movimento. Vamos continuar do jeito que está. Firme, com os produtores e a sociedade do nosso lado. Essas propostas dele (governo) são bobagens. Em 15 dias, eles voltam tudo ao normal.

A Federação dos Caminhoneiros Autônomos (Fecam) no Rio Grande do Sul diz que não vai se posicionar, deixando a categoria livre para decidir se acata ou não a proposta do governo.

À frente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), Diumar Bueno afirma que a paralisação acabou:

— Não vejo necessidade (de continuar a greve), porque as conquistas firmadas de fato já dão condição de estabilidade para a categoria. A começar pela redução no óleo diesel. Uma redução de 10% e política de reajuste a cada 30 dias é um alívio, diante do trauma que a categoria estava vivendo — disse.

Mesmo após o acordo, pelo menos mais oito Estados, além do Rio Grande do Sul, e o Distrito Federal têm protestos. São eles: Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro,  Santa Catarina e São Paulo .

Como ficam os serviços: 

Diante das incertezas em relação à greve, alguns serviços foram reduzidos ou suspensos. Em Porto Alegre, os ônibus terão o mesmo esquema de horários reduzidos nesta sexta-feira (25): nas horas de pico (pela manhã das 4h30min às 8h30min e, à tarde, das 17h às 19h30min), os consórcios operarão normalmente. Das 8h30min e após as 19h30min, as linhas funcionarão apenas de hora em hora.

Instituições de ensino como UFRGS, UERGS, Feevale e Unicruz suspenderam as atividades na sexta e no sábado (26). O serviço de abastecimento de água também está em risco, caso a paralisação se mantenha. A Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) informou que pode ocorrer falta de água no sul e centro do Estado em decorrência da falta de químicos para tratamento da água.

O abastecimento de combustíveis nos postos e de alimentos nos supermercados também estão ameaçados. Ontem, o corre-corre da população esgotou combustíveis e alguns produtos dos mercados.

Ônibus de Porto Alegre e Região Metropolitana passam a operar com horários reduzidos

Coletivos vão operar com a tabela de sábado na maior parte do dia, exceto em horários de pico
André Ávila / Agencia RBS
Tarde desta quinta-feira foi de paradas lotadasAndré Ávila / Agencia RBS

Com a continuidade da greve dos caminhoneiros, os ônibus de Porto Alegre terão, na sexta-feira (25), o mesmo esquema de redução de horários usado nesta quinta-feira (24). O motivo é a dificuldade de abastecimento de combustível.

A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) informou que nos horários de pico — pela manhã das 4h30min às 8h30min e, à tarde, das 17h às 19h30min —, os consórcios operarão normalmente. Das 8h30min e após as 19h30min, as linhas funcionarão apenas de hora em hora.

Na Região Metropolitana, a Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional(Metroplan) autorizou que as empresas de ônibus intermunicipais da Região Metropolitana passem a operar com a tabela horária de sábado nos horários de menor movimento na quinta-feira, medida que será repetida na sexta.

De acordo com a Associação dos Transportadores Intermunicipais Metropolitanos de Passageiros (ATM), as empresas trabalham com um estoque estratégico e que, com a medida aprovada pela Metroplan, o funcionamento está garantido por mais alguns dias.

— As empresas terão o bom senso de reforçar os horários nos momentos em que esta tabela ficar insuficiente. Se não houvesse nada, até o final de semana estaríamos sem combustível — ressalta o gerente da ATM, Érico Michels.

Porto Alegre

Em Porto Alegre, a decisão da EPTC ocorreu “para possibilitar a prestação do serviço por um maior número de dias possíveis nos horários de demanda mais intensa da população. As lotações funcionarão normalmente “, disse o órgão, em nota. Linhas da Carris que têm derivadas ou direta com itinerário semelhante, como 343 e D43; T1 e T1D; T2 e T2A; T12 e T12A, têm intervalo de 30 minutos entre elas.

André Ávila / Agencia RBS
Movimento em frente ao Mercado PúblicoAndré Ávila / Agencia RBS

Na quarta (23), o diretor-executivo da Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP), Gustavo Simionovschi, disse algumas empresas tinham estoque de combustível para operar apenas durante um dia.

“Há empresas que só têm estoque do produto para hoje. E há outras que têm estoque para apenas mais um ou dois dias de operação. É uma situação que foge do controle das empresas, embora considerem que a motivação das manifestações é justa”, justificou  por meio de nota.

Nota da Metroplan na íntegra:

” Considerando a dificuldade de abastecimento de combustível (diesel), já identificado nas empresas de ônibus, a direção da Metroplan autorizou, por cautela, que as empresas circulem com escala de sábado, nos horários de baixa demanda.

Todas as ações estão sendo adotadas com o objetivo de garantir a continuidade dos serviços e reduzir eventuais problemas.

De qualquer forma os horários de pico estão garantidos com a tabela normal.”

Nota da EPTC na íntegra:

“Operação será normal nos picos e de hora em hora nos demais horários

O transporte coletivo de Porto Alegre terá um atendimento emergencial nesta quinta-feira, 24, em razão da falta de combustível pela greve dos caminhoneiros. Em reunião na tarde desta quarta-feira, 23, com a direção da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), onde participaram representantes da Carris, Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) e Consórcios de ônibus, ficou definida uma operação normal nos picos da manhã até 8h30min, e também à tarde, das 17h às 19h30.min 

Nos demais horários, as viagens serão de hora em hora. A forma de atendimento durante a noite será divulgada na tarde desta quinta-feira, 24. A decisão acontece para possibilitar a prestação do serviço por um maior número de dias possíveis nos horários de demanda mais intensa da população. As lotações funcionarão normalmente.”

Filas, bate-boca e escassez: o dia em que quase acabou o combustível em Porto Alegre

 Sem receber reposição, os estoques dos postos baixavam rapidamente, em movimento acelerado pelo corre-corre dos motoristas
Lauro Alves / Agencia RBS
Com o passar das horas, mais postos encerravam as vendas e bloqueavam a entrada com cones e correntes plastificadasLauro Alves / Agencia RBS

O cenário de quem precisou abastecer em Porto Alegre nesta quinta-feira (24) foi desanimador:  filas de carros que davam voltas nas quadras prenunciavam horas de espera para ter vez nas bombas. Do início da manhã até o entardecer, a busca por combustível  causou transtornos na Capital.

De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis no Estado (Sulpetro), a greve dos caminhoneiros bloqueou a entrada e a saída de caminhões-tanque na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) e nas principais distribuidoras da Região Metropolitana, situação agravada a partir da tarde de quarta-feira (23). Sem receber reposição, os estoques dos postos baixavam rapidamente, em movimento acelerado pelo corre-corre dos motoristas.

— Fiquei mais de uma hora na fila, com medo de a gasolina ter acabado quando chegasse minha vez. Felizmente, consegui abastecer — disse a farmacêutica Tatiana Ness, 39 anos.

Ela saiu de casa às 8h de quinta, no bairro Ipanema, zona sul da Capital, e ao longo do trajeto até o trabalho viu apenas um posto ainda com combustível – e com extensa espera de veículos. Uma dezena de outros estabelecimentos pelo caminho estavam secos. Preocupada, decidiu dedicar a manhã para procurar gasolina; encontrou na avenida Getúlio Vargas, onde a fila dava volta na quadra. Para encher o tanque de 45 litros, gastou R$ 224 (R$ 4,89 o litro da aditivada, única opção disponível).

— Está uma fortuna, mas no desespero não tem como escapar — desabafou.

Na Avenida Ipiranga, próximo ao cruzamento com a Avenida Silva Só, um posto vendia apenas etanol. Motoristas angustiados com a espera desciam dos carros para ver se ainda haveria oferta quando chegasse sua vez. Muitos enchiam o tanque e ainda carregavam galões e garrafas pet de 5 litros. Certo momento, uma motorista furou a fila, subindo pela calçada e indo direto à bomba. Hostilizada por quem vinha atrás, desistiu de abastecer quando se deu conta que seu carro não era flex.

Lauro Alves / Agencia RBS
Lauro Alves / Agencia RBS

Com o passar das horas, mais postos encerravam as vendas e bloqueavam a entrada com cones e correntes plastificadas. Um dos últimos a ofertar combustível era um estabelecimento na esquina das avenidas Teresópolis e Vicente Monteggia, na Zona Sul de Porto Alegre. Para controlar a multidão, apenas duas bombas funcionavam, uma para motos e pedestres com galões, outra para automóveis. Ambulantes vendiam vasilhas de cinco litros por R$ 10 – vazios, claro. Dois brigadianos foram designados para acompanhar o movimento e atuar caso os ânimos se acirrassem.

— Ontem (quarta) enchi o tanque da moto e hoje (quinta) resolvi voltar para completar mais alguns galões. Dizem que essa loucura vai levar uns 15 dias, então vou me precaver por que preciso da moto para trabalhar — disse o motoboy Willian Henrique, 20 anos.

Mas a previsão (ou a esperança) de presidente do Sulpetro, João Carlos Dal’Aqua, é mais otimista. Ele esperava ainda para a noite de quinta trégua dos caminhoneiros para que as distribuidoras fossem liberadas. Alguns poucos caminhões-tanque que ainda circulavam escoltados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) abasteceriam os postos com uma gasolina reservada para forças de segurança. Não estava previsto reabastecimento para o consumidor comum.

— Mesmo que a greve encerre hoje (quinta), levará pelo menos uma semana para que a situação se normalizasse nos postos, uma vez que seria necessário reestabelecer a cadeia, com uma demanda grande de todos os postos — explicou Dal’Aqua.

Lauro Alves / Agencia RBS
Dia foi de grande procura nos postos da CapitalLauro Alves / Agencia RBS 

Guia do consumidor: saiba quais são os produtos e serviços mais afetados pela greve dos caminhoneiros

Risco de desabastecimento é de carne, aves e hortifruti é alto
Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina
Sindilat informa que 80% da captação de leite já não está ocorrendo em razão de problemas de distribuição e recebimento de insumosPatrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

GaúchaZH manteve contato com representantes de entidades para saber quais produtos e serviços correm risco de desabastecimento. O acompanhamento será atualizado ao longo do dia. Veja a lista:

 

ALIMENTOS NÃO-PERECÍVEIS

A curto prazo, o risco de desabastecimento é baixo. Segundo a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), alimentos como arrozfeijão e farinhas têm estoque médio para 15 dias nos estabelecimentos do Estado.

CARNE

A curto prazo, o risco de desabastecimento é alto. Segundo o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do Rio Grande do Sul, a estimativa é que o Estado fique sem carne a partir de segunda-feira (28) se a circulação de caminhões não for retomada. Frigoríficos já suspenderam abates em razão da impossibilidade de distribuição dos produtos.

AVES E SUÍNOS

A curto prazo, o risco de desabastecimento é alto. Segundo a Associação Gaúcha de Avicultura, alguns supermercados já estão com os produtos em falta e a tendência é que aumente a partir desta sexta-feira (25) pois não está mais ocorrendo abastecimento. Segundo o Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitário Animal (Fundesa), o abate de aves e suínos será completamente suspenso na sexta-feira (25).

LEITES E DERIVADOS

A curto prazo, o risco de desabastecimento é médio. Segundo a Agas, laticínios refrigerados podem faltar nas prateleiras nos próximos dias conforme não houver reposição dos produtos vendidos. Sobre o leite, o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat) informou que, no final da quinta-feira (24), 80% da captação de leite já não está ocorrendo em razão de problemas de distribuição e recebimento de insumos.

HORTIFRUTI

A curto prazo, o risco de desabastecimento é médio. Segundo as Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), a oferta foi de cerca de 20% do normal ao longo da quinta-feira (24), o que deve se manter nesta sexta-feira (25). O maior desabastecimento deve ser de hortaliças folhosas, pois os produtos perecem em questão de horas nos caminhões. Mercados do Interior, que se abastecem na Ceasa, são os mais afetados pela impossibilidade de chegar até Porto Alegre. Itens como tomate, cebola, batata e banana tiveram aumento moderado de preço, o que poderá ser repassado ao consumidor. O saco de 50 quilos de batata, por exemplo, custava R$ 60 e foi comercializado em torno de R$ 80.

ÔNIBUS

Nesta sexta-feira (25) as linhas de ônibus de Porto Alegre repetirão a frequência de quinta-feira (24): nos horários de pico (das 4h30min às 8h30min e das 17h às 19h30min) circulam conforme a tabela normal. Nos demais horários as linhas circulam de hora em hora. O serviço de lotação segue autorizado a transportar passageiros em pé.  Na Região Metropolitana, foi adotada tabela de sábado nas faixas de menor movimento.

TÁXI

Em Porto Alegre, segundo o Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi), os 4 mil veículos da frota operam normalmente, porém com forte aumento de demanda desde quinta-feira (24), o que afeta o tempo médio para os taxistas atenderem às corridas. Por serem em sua maioria movidos a GNV, não há previsão de desabastecimento.  As tarifas seguem as convencionais: R$ 5,18 de bandeirada e R$ 2,59 por quilômetro rodado (R$ 3,36 das 20h às 6h). Por meio do aplicativo do Sintáxi, as corridas saem com 30% de desconto sobre o preço do taxímetro. Na opção “Táxi rápido” não há o desconto.

APLICATIVOS

Por volta das 20h30min de quinta-feira (24), a Uber operava normalmente, mas teve tarifas acima do normal ao longo do dia. Um trajeto, por exemplo, 21 minutos e 11 quilômetros (do prédio do Grupo RBS até o aeroporto Salgado Filho) na modalidade mais barata (UberX) oscilou entre R$ 38,30 (15h) e R$ 47,49 (17h30min). Às 20h30min, custava R$ 31,28.

Por volta das 20h30min de quinta-feira, a Cabify operava normalmente, mas teve alta de preços ao longo do dia. Um trajeto, por exemplo, 21 minutos e 11 quilômetros (do prédio do Grupo RBS até o aeroporto Salgado Filho) oscilou entre R$ 28,13 (15h) e R$ 41,36 (17h30min). Às 20h30min, custava R$ 25,75.

GÁS DE COZINHA

A curto prazo, o risco de desabastecimento é alto em todo o Estado. Segundo o Sindicato dos Revendedores de Gás de Cozinha do Rio Grande do Sul (Singasul), as revendedoras maiores devem ter estoque até sexta-feira (25), enquanto as menores já estão desabastecidas. É recomendável que o consumidor poupe gás de cozinha, sobretudo se o botijão estiver no final. Segundo o Singasul, seus associados já operam com estoque limitado e estão evitando as telentregas, para poupar combustível.

ÁGUA

A curto prazo, o risco de desabastecimento varia de região a região. Em Porto Alegre,  o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) não prevê desabastecimento. Segundo a  Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) regiões Sul e Central podem sofrer falta d’água nesta sexta-feira (25)  em razão da escassez de químicos para tratar a água.

PASSAGENS INTERMUNICIPAIS

Na rodoviária de Porto Alegre, passagens que foram canceladas em virtude da falta de combustíveis dos ônibus estão sendo trocadas sem custo. O impacto da paralisação varia conforme as empresas. Parte delas reduziram a tabela de horários das viagens intermunicipais. Consumidores com passagens marcadas podem confirmar suas viagens pelo telefone (51) 3110-0101.

VIAGENS AÉREAS

No Aeroporto Salgado Filho, o risco de desabastecimento é baixo. O maior problema é o abastecimento de queroseno nas aeronaves, mas caminhões com a carga do combustíveis foram escoltados até o aeroporto ao longo da manhã e tarde de quinta-feira (24), o que garantirá decolagens até pelo menos 12h desta sexta-feira (25).

Tragédia em São Paulo, incêndio e desabamento de edifício no Largo do Payssandu

O Edifício Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, desabou durante um incêndio de grandes proporções no Largo do Payssandu, no centro de São Paulo, na madrugada desta terça-feira, 1º. Um edifício vizinho também pegou fogo nos três primeiros andares, mas não corre risco de colapso. A Igreja Evangélica Luterana, que fica ao lado do prédio em chamas, também pegou fogo e teve 90% de sua estrutura destruída. Ainda não há hipóteses sobre o que teria provocado o incêndio. O Corpo de Bombeiros disse que os compartimentos entre os andares eram divididos por madeira, o que ajudou a propagar as chamas.
O Corpo de Bombeiros comunicou o desaparecimento de duas pessoas. Os bombeiros ainda trabalham na extinção dos focos de incêndio. Todos os prédios do entorno foram evacuados. A corporação também busca por vítimas sob os escombros. A possível vítima estava sendo resgatada por uma corda pelos militares, que abriram um acesso pelo edifício vizinho para ter contato com ele. O homem, identificado como Ricardo, estava pronto para sair quando toda a estrutura colapsou. Ele trabalhava como carregador na região da 25 de Março e já tinha saído do local, mas voltou ao edifício quando o fogo já tinha começado para ajudar no salvamento de outras pessoas, segundo relato de moradores. O corpo dele ainda não foi encontrado. Um bombeiro também ficou ferido durante o desabamento, mas passa bem.
Cerca de 116 famílias viviam no imóvel que desabou, informou o Corpo de Bombeiros. Marcos Palumbo, capitão da corporação, disse que o trabalho sob os escombros do prédio de mais de 20 andares será minucioso. Apesar da dificuldade, a equipe espera encontrar sobreviventes. Palumbo ressaltou que o prédio já havia passado por vistoria, na qual foram relatadas as péssimas condições do local às autoridades do município. Em um segundo momento, o objetivo é apurar quais autoridades receberam as informações sobre as condições do prédio. O Corpo de Bombeiros afirmou ainda que era muito difícil entrar no local para verificar as condições do edifício, em razão da resistência dos ocupantes irregulares.
O governador de São Paulo, o comunista Márcio França, esteve no local para acompanhar o trabalho de resgate. França destacou que no quadrilátero, onde aconteceu o incêndio, há 8 prédios. Na cidade de São Paulo, segundo ele, há mais de 150 prédios invadidos, mas não há balanço exato da quantidade de pessoas que vivem nos imóveis. Alguns são particulares e o Estado não pode tirar. “É uma briga judicial o tempo todo. O que temos que fazer é convencer as pessoas a não morar desse jeito”, afirmou.
O prédio que desabou tinha mais de 20 andares e era uma antiga instalação da Polícia Federal. Segundo comerciantes do entorno, o local era ocupado ilegalmente. Antes de ruir, algumas pessoas pediam socorro no último andar. As chamas começaram no quinto andar, alastrando-se rapidamente para os níveis superiores. De acordo com o tenente André Elias, 60 viaturas e 170 homens do Corpo de Bombeiros trabalham no local.
Comerciantes da região relatam que houve correria nas ruas, com clientes deixando hotéis vizinhos às pressas. As testemunhas dizem que quebraram vidraças, espalhando-se rapidamente pelos andares e atingindo os prédios vizinhos. “Eu estava em horário de serviço e escutei várias pessoas gritando, barulho de vidros caindo. Quando fui ver o que era, as ruas, que estavam desertas, ficaram cheias de pessoas desesperadas”, disse o recepcionista Flávio Gabia, que trabalha em um hotel no Largo do Paiçandu. Segundo ele, vários clientes deixaram o estabelecimento quando viram o incêndio. Um hotel ao lado dos edifícios em chamas também foi esvaziado e interditado. Devido ao combate às chamas, a CET interditou o trecho entre a Avenida Rio Branco e a Rua Antônio de Godói e recomenda aos motoristas que evitem passar pela região do Largo do Payssandu. Três quarteirões estão fechados.

 

Tragédia em São Paulo, incêndio e desabamento de edifício no Largo do Payssandu, invadido pela organização terrorista MTST do comunista Boulos

Um edifício de 24 andares desabou durante um incêndio de grandes proporções no Largo do Payssandu, no centro da capital paulista, na madrugada desta terça-feira, dia 1º.de maio Outro imóvel e uma igreja também foram afetados. Ao menos 118 famílias viviam irregularmente no imóvel que desabou, informou o Corpo de Bombeiros. A corporação ressaltou que o prédio já havia passado por vistoria, na qual foram relatadas as péssimas condições do local às autoridades do município. O imóvel era uma antiga instalação da Polícia Federal e depois foi ocupado por imigrantes e brasileiros. Nesta terça-feira, o Ministério Público de São Paulo decidiu reabrir um inquérito arquivado em março que apurava eventuais riscos de segurança no edifício. A investigação tinha sido arquivada sem chegar a nenhuma conclusão nem determinar medidas para melhorar a segurança do local.
Durante o dia foram reposicionadas 28 linhas de ônibus que passam pelo Largo do Payssandu. A prefeitura informou que a operação irá durar enquanto durar a ação dos bombeiros e a remoção dos entulhos. O prefeito Bruno Covas comentou: “Em relação ao laudo sobre as condições do prédio, estamos verificando quem fez o laudo e quem apresentou e o que contam. O procurador-geral e a Secretaria de Justiça vão atuar em parceria com o promotor que estava responsável pelo inquérito”. “Neste ano, foram 6 reuniões entre a Secretaria da Habitação e famílias que moravam lá no prédio invadido para conversar e convencer a sair de lá, a desocupar. Não é por acaso, sabia que algo podia acontecer”, afirmou o prefeito Bruno Covas.
Segundo o secretário municipal de Mobilidade e Transportes, João Octaviano Machado Neto, nos próximos dias estarão interditadas a via do acidente, a Avenida Rio Branco e o perímetro do Largo Payssandu. A Avenida Ipiranga será liberada a partir da meia-noite desta terça-feira.
Bombeiro que atuou no resgate do homem que caiu quando o prédio desabou diz ter chegado a conversar com ele. Segundo o sargento Diego, a temperatura no local estava bem alta. “Dá para estimar uma temperatura acima de 400º C”, disse o oficial. Sargento Diego, do Corpo de Bombeiros, mostrou o equipamento que ele utilizou para resgatar o homem que caiu no momento em que o prédio desabou. Trata-se de um cinto alemão com uma corda.
“Apesar da formação militar que temos, a gente fica chateado. A gente queria ter tirado aquela pessoa de lá”, disse Diego, afirmando que “a equipe deu o melhor”.
“A todo momento, tinha que falar alto, verbalizava e sinalizava com a lanterna. Ele estava bem calmo”, contou Diego. “Ele estava bem calmo. Falava para ele confiar em mim, que a gente ia tirar ele de lá”, completou o bombeiro que trabalhou no resgate do homem que caiu no momento em que o prédio desabou. O sargento relata que lançou um cinto de resgate para o homem, que ele só conseguiu pegar na terceira tentativa. “Ele ficou tranquilo”, disse o bombeiro. Ricardo foi orientado para amarrar o equipamento em si, passando pelos braços e pernas. “Na hora que a gente estava terminando essa fase, o prédio acabou vindo abaixo, caíram seis ou sete andares sobre ele. Tensionou a corda e estourou. Não daria 30, 40 segundos para finalizar o processo”, disse Diego.
O sargento Diego relatou que o homem, identificado como Ricardo, estava se segurando em um cabo de aço do para-raio do prédio e gritava por socorro. “No 15º andar, da janela da cozinha do prédio vizinho, vi onde ele estava, pedi para ele ter calma”, disse. Ele conta que, de onde estava, não tinha como tirar o homem de lá, então teve de buscar uma parte mais alta no edifício. “Entramos na parte superior e, com um machado, abrimos um buraco na parede”, contou.
O Corpo de Bombeiros classificou como grave o dano na estrutura da igreja vizinha ao prédio que desabou. Segundo o capitão, haveria necessidade de instalação de estruturas de contenção. “Também pode ruir”, disse Palumbo. Palumbo disse ainda que o resultado da inspeção realizada pelo Corpo de Bombeiros foi compartilhado com os órgãos responsáveis, mas que não é atribuição da corporação realizar interdição. O Corpo de Bombeiro disse ter feito uma vistoria no prédio antes do desabamento. Na oportunidade, em 2015, a inspeção apontou problemas nas condições de segurança contra incêndios. “Checamos e havia obstrução nas rotas de fuga por lixo e materiais inflamáveis, além de problemas nas instalações de botijões de gás. Além disso, em caso de incêndio, o fogo se propagaria muito rápido porque o poço do elevador funcionava como um motivador, espalhando ar quente rapidamente, tanto que em uma hora o prédio colapsou”, disse o capitão da corporação, Marcos Palumbo.
Sobre o prazo de 48 horas, o capitão Palumpo explicou que, nesse período, os bombeiros vão trabalhar para remover entulhos do entorno da área do desabamento. “Depois desse prazo é que começaremos a remover lajes com ajuda de maquinário e dar continuidade às buscas. Agora, isso não pode ser feito por questões de segurança”, disse. Os trabalhos na área podem se estender por mais de uma semana, disse o oficial. O Corpo de Bombeiros informou que os trabalhos devem continuar durante a noite desta terça-feira e já foi providenciada iluminação artificial para a área.
Segundo o Corpo de Bombeiros, a assistência social da Prefeitura informou que no prédio moravam 317 pessoas de 118 famílias. Dessas, 45 pessoas não foram localizadas após o desabamento, mas não são consideradas oficialmente desaparecidas porque não há confirmação de que no momento da queda elas estavam no local. O prédio tinha dois andares de subsolo que também era ocupado por moradores. Segundo o tenente Guilherme Derrite, não há risco de desabamento em nenhuma das outras três edificações atingidas pelo desabamento, que seriam a igreja, o prédio ao lado e o da frente.
Os bombeiros atuam no local com cães farejadores e equipamentos como câmera térmica, para detectar pontos de calor nos escombros. O capitão do Corpo de Bombeiros, Marcos Palumbo, disse que a corporação vai esperar 48 horas para começar a mexer na estrutura do prédio que desabou com maquinário pesado. Por enquanto, os trabalhos são feitos manualmente devido à possibilidade de uma pessoa desaparecida, única confirmada pelos bombeiros.

A Cruz Vermelha orienta as pessoas a não levarem doações para a igreja, pois os itens não estão sendo entregues diretamente às famílias. “Precisamos fazer uma triagem antes para que o material chegue em bom estado à população”, diz Débora Levy, voluntária da entidade. Os principais itens necessários são kits de higiene, roupas e comida para crianças, além de fraldas. Houve um pequeno tumulto em frente à igreja onde parte das famílias que moravam no prédio está. As pessoas reclamaram de um cinegrafista que filmava e o expulsaram dali, dizendo que não era para filmar nada. O Ministério Público de São Paulo decidiu reabrir nesta terça-feira um inquérito arquivado em março que apurava eventuais riscos de segurança no Edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou na madrugada de hoje. O Ministério Público de São Paulo arquivou em março o inquérito que apurava riscos no prédio.

A Igreja Luterana de São Paulo, localizada próxima ao prédio que desabou após incêndio no centro da cidade, teve 90% de sua estrutura destruída. Ela foi atingida pelo desabamento. “Sobraram apenas a torre e parte do altar”, afirma pastor o Frederico Carlos Ludwig.

O incêndio e desabamento do prédio no centro da cidade de São Paulo teve repercussão internacional. O The Sun classificou a ocorrência como “um inferno em chamas” e apontou a situação “desesperadora” de quem estava no local e tentava escapar do fogo.

Moradores relataram que pagavam “aluguel” para o Movimento Luta por Moradia Digna (LMD) para morar no prédio que desabou na madrugada desta terça-feira. Segundo o coordenador do LMD, Ricardo Luciano, o pagamento era de R$ 80,00 para custear a manutenção do local. No entanto, integrantes do Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), que faz parte do LMD, afirmam que os valores seriam mais altos, em torno de R$ 250,00 a R$ 500,00. Ao menos 120 famílias viviam irregularmente no imóvel, segundo informações do Corpo de Bombeiros.
A União diz que era dona do prédio que desabou no centro de São Paulo, mas que a invasão aconteceu quando estava cedido à Prefeitura. O governo municipal, porém, afirma que conversava com moradores e governo federal para tentar encaminhar solução, mas que não podia ter pedido reintegração de posse porque não era proprietária.
O Ministério do Planejamento informou que o prédio que desabou após incêndio no centro de São Paulo não estava na programação de vendas de imóveis da União e havia sido cedido provisoriamente em 2017 pela Secretaria do Patrimônio da União, ligada à pasta, à prefeitura de São Paulo. A previsão era que o local seria utilizado para acomodar as novas instalações da Secretaria de Educação e Cultura de São Paulo.
A prefeitura de São Paulo informou que equipes da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social estão no local desde as 3 horas para dar acolhimento às pessoas desalojadas. Já foram cadastradas 248 pessoas, de 92 famílias. Elas receberam alimentação e foram encaminhadas para abrigos municipais. O porta-voz dos bombeiros informou que a corporação trabalha com a perspectiva mínima de uma semana para fazer o trabalho de rescaldo no local do incêndio. “São dois ou três dias de trabalho manual, resfriamento e retirada dos escombros, trabalhando com possíveis vítimas, para depois trabalhar com o maquinaria pesado”, disse.
O ex-prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista, João Doria, disse que o prédio que desabou nesta terça-feira, 1º, no centro de São Paulo, foi invadido por facção criminosa. Segundo ele, a solução para evitar tragédias como essa é evitar novas invasões. “A solução é evitar as invasões, o prédio foi invadido, e parte dela por uma facção criminosa”, disse.

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) interditou as vias de acesso ao Largo do Paissandu, no centro da capital, onde o prédio pegou fogo. Guilherme Boulos, coordenador da organização terrorista clandestina Movimento do Trabalhador Sem Teto e pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, divulgou um vídeo em sua página no Facebook em que exige uma investigação sobre as causas do incêndio que causou o desabamento do edifício Paes de Almeida. Ele e cúmplices esquerdistas seus são os responsáveis diretos por essa tragédia, por levarem pessoas miseráveis para viver nesses prédios condenados, sem qualquer estrutura digna, e ainda cobrarem aluguéis exorbitantes dessas pessoas.

O governo federal informou que a Defesa Civil Nacional está acompanhando as buscas e o atendimento à população após o desabamento do prédio de 24 andares no centro de São Paulo na madrugada desta terça. O ministro da Integração Nacional, Antônio de Pádua Andrade, esteve em contato com o governador de São Paulo, Márcio França, e com o prefeito da Capital, Bruno Covas, para disponibilizar apoio às ações de socorro e na assistência às vítimas.

O Palácio do Planalto divulgou nota dizendo que o presidente Michel Temer determinou ao ministro da Integração Nacional, Antônio de Pádua, “o empreendimento de todos os esforços para minimizar os danos causados por conta do incêndio e desabamento de prédio na madrugada desta terça-feira em São Paulo”, ressaltou o posicionamento. O presidente Michel Temer foi hostilizado ao visitar os escombros do Edifício Paes de Almeida, no Largo do Payssandu, no centro de São Paulo. Temer chegou ao local por volta das 10 horas. Ele estava desde a noite de segunda-feira, 30, em sua residência em São Paulo – em agenda privada. Durante a rápida visita, o presidente foi xingado e chamado de “golpista” por pessoas que acompanhavam o trabalho dos bombeiros no local do desabamento. Em entrevista improvisada na região do acidente, Temer classificou a situação como dramática e afirmou que vai “providenciar assistência àqueles que foram vítimas daquele desastre”.
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB) disse que equipes da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social estão atendendo as famílias que ficaram desabrigadas. Até o momento, 92 das 150 famílias já receberam assistência. Ele informou que a Prefeitura está com uma parceria com a Cruz Vermelha Internacional para receber donativos.  Sobre a precariedade do prédio que desabou, Covas disse que só neste ano foram feitas seis reuniões com famílias que viviam no local.
O incêndio no edifício Joelma em 1974 deixou 187 mortos, mais de 300 feridos e a lembrança de algumas das cenas mais dramáticas da história da capital. Por enquanto, há pelo menos três versões para o início do incêndio. No local, pessoas contaram que houve uma briga entre dois moradores no 5º andar. Já o pastor da Igreja Evangélica Luterana, Frederico Carlos Ludwig, disse que a zeladora da entidade foi acordada por uma violenta explosão. Algumas pessoas relataram que o incêndio pode ter sido causado pela explosão de uma panela de pressão ou de botijão de gás. No trabalho de rescaldo, grupos de bombeiros trabalham no ponto do desabamento em turnos de meia hora e voltam para uma base montada no Largo do Payssandu, onde se hidratam e descansam.
Secretário municipal de Segurança Urbana, Coronel José Roberto, afirmou: “Vamos fazer uma força-tarefa com engenheiros da Secretaria das Prefeituras Regionais para que venham para cá para gente fazer uma avaliação prédio a prédio, para que a gente possa identificar efetivamente aqueles que estão com problemas estruturais, que pessoas não possam mais entrar”, afirmou ele.  De quatro a cinco prédios foram evacuados. A possibilidade de desabamento do outro prédio atingido foi descartada pelos bombeiros.
Cães farejadores chegaram a ser colocados no local, mas foram retirados, porque os escombros ainda estão quentes.  O subcomandante Pereira disse que o prédio caiu cerca de uma hora e meia após o início das chamas. Segundo ele, o fato de o prédio ser de concreto com partes metálicas pode ter contribuído para a rápida queda do edifício. “Talvez isso possa ter facilitado e fragilizado”, disse ele.
O pastor da Igreja Evangélica Luterana, Frederico Carlos Ludwig, afirmou que há muito tempo também percebia problemas no prédio. Ele tentou denunciar a situação aos órgãos competentes, mas não obteve sucesso. Ex-morador do prédio vizinho, Rogério Balekifoi ao local para denunciar as más condições do prédio. “O que eu vejo aqui é uma tragédia anunciada.Isso não é um acidente, é um crime”, protestou ele.
Segundo o secretário da Segurança Pública do Estado, Mágino Alves, o trabalho de retirada dos escombros pode levar até 10 dias. A Igreja Evangélica Luterana foi inaugurada em 1908 e é considerada a primeira paróquia evangélica da capital, assim como o primeiro templo em estilo neogótico. O edifício leva a assinatura do arquiteto Guilherme Von Eye e ocupa uma área de aproximadamente mil metros quadrados. Entre seus elementos de destaque está o órgão de 146 tubos e os vitrais produzidos pela Casa Cobrado do vitralista Conrado Sorgenicht, que produziu as peças do Mercado e do Theatro Municipal.

A Secretaria Municipal de Habitação criou em 2017 um Núcleo de Mediação de Conflitos que monitora 206 invasõess em toda a cidade com cerca de 46 mil famílias. Desse total, 25% da atuação do grupo ocorre em ocupações na região central, com 3.500 famílias. Para essas invasões, o grupo atua no sentido de buscar uma solução conciliada com a desocupação voluntária e sem confronto.

A Prefeitura de São Paulo estima em cerca de 70 prédios ocupados na região central com aproximadamente 4 mil famílias. Trata-se de uma estimativa uma vez que em sua maioria são prédios particulares. Nestes casos, cabe ao proprietário ações junto à justiça e às lideranças da ocupação.
Há alguns minutos, bombeiros entraram no prédio na frente, também atingido pelo fogo, para apagar o novo foco, que já foi controlado. Vidros foram quebrados para o vento circular dentro da edificação.
Reveja imagem do momento em que o prédio no centro de SP estava pegando fogo:
Peruana, Gredy Canaquiri Yume, de 50 anos, morava no local há dois anos, junto do filho de 19 anos. Ela não estava no local no momento do incêndio. “Os anjos nos ajudaram”, comenta.

STF decide por unanimidade restringir foro privilegiado de deputados e senadores

Por 7 a 4, o Supremo Tribunal Federal decidiu reduzir o alcance do foro privilegiado, no caso de deputados federais e senadores, para crimes cometidos no exercício do mandato e em função do cargo, conforme o entendimento defendido pelo ministro Luís Roberto Barroso. Esta foi a quinta sessão que o Supremo dedicou à análise do tema – o julgamento foi iniciado em 31 de maio do ano passado. No julgamento, prevaleceu o voto do relator, Luís Roberto Barroso, que votou a favor da restrição ao foro e foi acompanhado pelos ministros Marco Aurélio, Rosa Weber, Cármen Lúcia, Edson Fachin, Luiz Fux e Celso de Mello. Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes também foram favoráveis à restrição, mas com um marco temporal diferente. Para os ministros, a partir da diplomação, deputados e senadores devem responder ao processo criminal no Supremo mesmo se a conduta não estiver relacionada com o mandato.
Durante o julgamento, os ministros chegaram a discutir se a decisão poderia ser estendida para demais cargos com foro privilegiado, como ministros do governo federal, ministros de tribunais superiores e deputados estaduais. A questão foi proposta pelo ministro Dias Toffoli, mas não teve adesão da maioria. Mesmo com a finalização do julgamento, a situação processual dos deputados e senadores investigados na Operação Lava Jato pelo Supremo e de todos os demais parlamentares que são processados na Corte deve ficar indefinida e as dúvidas serão solucionadas somente com a análise de cada caso. Os ministros terão que decidir individualmente se parlamentares vão responder, na própria Corte ou na primeira instância, às acusações por terem recebido recursos ilegais de empreiteiras para financiar suas campanhas. Ainda não é possível saber quantos processos serão afetados.
O deputado Alfredo Kaefer (Podemos), que responde a cinco inquéritos e uma ação penal no Supremo (892), por crimes falimentares, contra o sistema financeiro, a ordem tributária, o patrimônio e a administração em geral, e formação de quadrilha, deve ter os processos remetidos à primeira instância após a mudança no foro privilegiado. Em 2014, Kaefer era o deputado com o maior patrimônio declarado entre os 513 eleitos, com R$ 108,5 milhões. Kaefer é suspeito de dar calote em credores e fazer manobras contábeis no patrimônio familiar com o objetivo de salvar bens empenhados em execução judicial. Kaefer afirma que sempre defendeu que as ações tramitassem na primeira instância. “Não são relativos ao meu mandato. São cinco inquéritos e uma denúncia. O mais antigo, que é uma denúncia que já estava sendo apreciada pelo Supremo. Os outros cinco são por causa do problema de falência que um juiz decretou indevidamente e aí acabou ficando rescaldo”. Confiante, o deputado comemorou a interpretação do Supremo. “Provavelmente as ações vão morrer na primeira instância”, comentou ele.
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Conheça o Parque Estadual do Turvo: a única morada da onça-pintada no Rio Grande do Sul

No Parque do Turvo, a maior unidade de conservação ambiental do Estado, ainda é possível avistar o Salto do Yucumã, mais longa queda d’água longitudinal do mundo
Carlos Macedo / Agencia RBS
A vista aérea do Salto do YucumãCarlos Macedo / Agencia RBS

É onde as gralhas anunciam a chegada de visitantes inesperados e onde a onça-pintadaescolheu para ser sua única morada no Rio Grande do Sul que está o maior território de conservação de floresta nativa do Estado, em Derrubadas, no noroeste gaúcho. Encravado às margens do Rio Uruguai, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, o Parque Estadual do Turvo tem também um cenário singular: a partir dele é possível avistar, na terra dos hermanos, a mais longa queda d’água longitudinal do mundo, o Salto do Yucumã (“grande roncador”, em tupi-guarani), com 12 metros de altura e incríveis 1,8 quilômetro de extensão.

Casa de espécies ameaçadas de extinção, como a onça, o puma, o cateto e a jacutinga, e de árvores centenárias de 30 metros de altura, o parque completou 71 anos repleto de histórias contadas por quem conviveu ou ainda convive com uma vizinhança tão incomum. Até três anos atrás, para evitar o deslocamento, o Estado cedia casas aos funcionários para morarem dentro da própria unidade — distante cinco quilômetros da área urbana mais próxima. Depois de décadas, eles tiveram que deixar a floresta.

O auxiliar de serviços rurais Odil Zimmermann de Almeida, hoje com 68 anos, foi um deles. Há 37 anos no local, o mais antigo funcionário ainda em atividade no Turvo morou com a mulher e os cinco filhos em casas dentro da mata por três décadas, quando ainda era guarda-parque e fazia rondas. Hoje, mareja os olhos de saudade quando depara com a última das moradas, onde enfrentou diferentes desafios ao lado da família. A casa de madeira, com seis cômodos, está sendo engolida pela natureza.

— Criei meus filhos no mato. A gente gostava de viver aqui. O maior problema não eram os animais de grande porte, mas os borrachudos. As portas e as janelas da casa tinham de estar sempre protegidas — lembra.

Odil recorda que, nos primeiros 10 anos vivendo em uma área de mato tão fechado na qual o sol quase não batia, era comum deparar com os vizinhos selvagens. Em mais de uma situação, encarou uma onça a poucos metros de distância. Quando isso ocorria, bastava jogar um foco de luz na direção do grande felino para afastá-lo. Mas, em pelo menos duas situações, Odil não conseguiu contê-lo. Numa delas, perdeu o cão Amigo.

– Inventei de tomar um chimarrão na porta de casa, por volta das 20h. Já estava escurinho. Sentei e comecei a ouvir um “tendéu” do cachorrinho nos fundos do terreno. Quando cheguei perto, vi a onça grudando o meu cachorro nas “paletas”. Não pensei, e me atraquei nela – diz.

Ele não precisou maltratar na onça. Apenas bateu um pau no chão para o animal largar o cão. Mas já era tarde para o cachorro. Em outra situação, o auxiliar de serviços rurais viu a onça devorar um pônei e uma égua. Não houve tempo de interceder.

– É o instinto de sobrevivência, ela não faz por mal – esclarece.

Carlos Macedo / Agencia RBS
Odil percorre as casas abandonadas dentro do parqueCarlos Macedo / Agencia RBS

Na última casa em que viveu no Turvo, durante 16 anos, Odil instalou inúmeras lâmpadas no pátio – à noite, a iluminação afastava os bichos. Assim como Odil, Selfredo Bomm, 59 anos, funcionário há 36, ainda chora ao lembrar dos tempos vividos com a mulher e os dois filhos na unidade de conservação. Enquanto as famílias de ambos ficavam a menos de um quilômetro de uma das entradas do Turvo, eles acampavam até uma semana em diferentes trechos da reserva, sem contato com a civilização.

– Era a forma de mantermos os caçadores longe daqui. Algumas vezes, chegamos a trocar tiros com alguns e ajudamos nas detenções de outros, com apoio da Brigada Militar – afirma Selfredo.

Com chuva ou sol, à pé ou a cavalo, os dois abriam a facão as picadas nas matas, andavam por dentro dos rios e arroios em meio à floresta e avistavam espécies que poucos teriam a chance de ver numa caminhada comum.

— Em 1986, vimos pela primeira vez uma harpia sobrevoando a área. Foi a coisa mais linda — lembra Selfredo, citando aquela que é apontada como a ave de rapina mais pesada do mundo, e que teve presença no local confirmada por pesquisadores.

Carlos Macedo / Agencia RBS
Odil (esquerda) e Selfredo têm histórias para contarCarlos Macedo / Agencia RBS

Apesar de serem testemunhas de situações incomuns envolvendo os animais, como nas vezes em que foram surpreendidos pelos veados lambendo os restos de sal na churrasqueira, os dois guardam memórias especiais das onças-pintadas. Num final de tarde, por exemplo, eles caminhavam na trilha em direção ao Salto do Yucumã quando ficaram a cerca de 15 metros de uma delas.

— Tremi os joelhos na hora, mas tentei demonstrar tranquilidade. Não consegui contar por quanto tempo, mas ela parou e nos encarou, até virar as costas e seguir para a mata fechada — conta Selfredo.

Odil e Selfredo foram contratados para atuar como guardas-parque no Turvo, quando este ainda estava sob responsabilidade da secretaria de Agricultura gaúcha. Em 2007, o Estado realizou um concurso para o cargo. Odil e Selfredo, então, tiveram de devolver as armas usadas por décadas, deixaram as casas existentes no parque e se tornaram auxiliares de serviços – responsáveis pela limpeza das trilhas e da área aberta aos visitantes. Hoje, acima de tudo, são defensores da fauna e da flora existentes no parque.

— As pessoas não têm ideia da importância de termos as onças-pintadas ainda vivendo aqui. Este lugar é precioso e precisa continuar sendo preservado — desabafa Odil.

Bjørn-Einar Nilsen / Arquivo Pessoal
A rainha do parque do TurviooBjørn-Einar Nilsen / Arquivo Pessoal

O fascínio da onça

Segundo a chefe do setor de Fauna da Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema), Caroline Araújo Dal Bosco, estudos científicos realizados entre 2004 e 2017 com o uso de armadilhas fotográficas identificaram apenas quatro onças-pintadas ainda vivendo na região do Turvo.

— Elas foram quantificadas por meio da comparação do padrão de pintas de cada animal, que é único, assim como as digitais nos humanos — explica.

Na região, esse tipo de felino é considerado uma espécie criticamente em perigo. Para tentar reverter a situação, em maio do ano passado, o Estado lançou o Plano de Conservação das Onças no Rio Grande do Sul.

— Os objetivos são melhorar a compreensão da ecologia da espécie, garantir a conectividade entre áreas prioritárias de conservação na unidade e seu entorno e realizar ações de educação ambiental e de divulgação. O plano está em fase de elaboração e formalização perante as instituições — resume Caroline.

A singularidade do Turvo e a situação da onça também despertaram a atenção de um grupo de pesquisadores da UFRGS, da Fundação Zoobotânica, da PUCRS e da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Desde o início deste ano, eles estão estudando o comportamento dos mamíferos carnívoros no bioma Mata Atlântica.

— Escolhemos seis áreas no Estado, da mais degradada pela monocultura da soja até a mais preservada no Rio Grande do Sul, que é o Turvo. É só nele que existem o que chamamos de espécies predadoras de topo, aquelas peças-chave na regulação das comunidades, equilibrando o meio ambiente. São os casos da onça-pintada e do puma. Eles predam as espécies mais abundantes, como a jaguatirica, que costumam acabar com as espécies de menor capacidade de competição, como o gato-do-mato-pequeno — explica a bióloga pesquisadora Flávia Pereira Tirelli, 32 anos, pós-doutoranda em Biologia Animal pela UFRGS.

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Carlos Macedo / Agencia RBS
Janela para a naturezaCarlos Macedo / Agencia RBS

Junto a outras três pesquisadoras, Flávia instalou 50 câmeras pelo parque para identificar e acompanhar a movimentação das espécies. Serão feitas duas coletas de imagens no local, em maio e em julho. O resultado da pesquisa deve ser publicado em 2019.

Enquanto os pesquisadores ainda tentam algum registro do felino mais importante a circular no Turvo, o fotógrafo norueguês Bjørn-Einar Nilsen, 53 anos, teve o privilégio de fotografar uma das onças a menos de 10 metros de distância, em julho do ano passado — algo raro, mesmo em se tratando da unidade de conservação.

— Foi por volta das 22h. Ela estava na estrada que dá acesso ao Yucumã, a 400 metros do Centro de Visitantes. Estávamos no carro, e a onça não demonstrou susto ou medo. Parou por instantes, tempo suficiente para fotografá-la. Foi emocionante — relata Nielsen, que colabora com o projeto Onças do Turvo.

Nielsen é marido da gestora do parque, a bióloga Solange Dias de Deus, 38 anos. Pela primeira vez, a unidade de conservação está sob o comando de uma mulher. Desde fevereiro de 2017, ela tem a responsabilidade, junto com os guardas-parque e os auxiliares de serviços rurais, de manter intactos os 17,5 mil hectares. Antes de se transferir para o Interior, Solange morava em Gravataí e trabalhava em Porto Alegre. Diz que não pensou duas vezes quando a secretaria a convidou para deixar o serviço administrativo (ela é bióloga do Estado desde 2010) e se aventurar na floresta, com o apoio do marido.

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A bióloga Solange é quem administra o TurvoCarlos Macedo / Agencia RBS

Solange e Nielsen vivem numa casa de alvenaria ao lado do prédio administrativo do parque, no único ponto do Turvo onde celular e internet são acessíveis. Estar entre as árvores centenárias e os animais silvestres é o passatempo favorito da bióloga. Antes de juntar-se à Divisão das Unidades de Conservação do Estado, Solange já sonhava com o dia em que atuaria no Turvo.

— A família ainda se espanta quando digo que meus companheiros são as onças-pintadas e os tamanduás-mirins. E que tenho umas vizinhas fofoqueiras, as gralhas, que me avisam quando temos novos visitantes, as serpentes e os tucanos, por exemplo — diz, rindo.

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Argentinos têm passeios turísticos no localCarlos Macedo / Agencia RBS

Projeto para o turismo

Nos primeiros dias confinada no parque, Solange percebeu que, depois que escurece na floresta, o melhor é ficar dentro de casa. Certa noite, enquanto cozinhava, ouviu passos ao lado do prédio. Suspeitou que fossem de um animal pesado. À espreita, pela janela, não conseguiu identificá-lo. Pela manhã, ao observar as pegadas, teve a certeza: era uma anta.

O parque é o principal atrativo turístico da região. Colonizada por alemães, a partir da década de 1930, Derrubadas ganhou este nome quando os primeiros desbravadores depararam com uma gigantesca área de mata devastada pela exploração de madeira e, depois, a abertura de espaço para o cultivo do trigo e da soja.

Derrubadas, com seus 3,5 mil moradores, e pelo menos outros 32 municípios das regiões Celeiro e Planalto Médio, que compõem a Rota do Yucumã, dependem do turismo, que vinha despencando nos últimos sete anos, desde que o Salto passou a ficar quase o tempo inteiro submerso – afastando quem viajava especialmente para vê-lo.

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Árvores têm mais de 30 metros de alturaCarlos Macedo / Agencia RBS

As prefeituras suspeitavam da instalação da usina de Chapecó, em funcionamento desde 2010, pela situação. O Operador Nacional do Sistema Elétrico negava. Até que, em 2016, o Estado iniciou um estudo para descobrir os motivos do fenômeno. Constatou que a usina, situada a cerca de 160 quilômetros do Salto, era de fato a responsável pela maior vazão, obstruindo o raro espetáculo da natureza antes visualizado em sua plenitude.

Como resultado, no início deste ano, a Agência Nacional de Águas (ANA) publicou, no Diário Oficial da União, uma resolução estabelecendo novas regras de operação para a usina, que é administrada pelo Ministério de Minas e Energia. Segundo a norma, deve haver comunicação entre o ministério e a Sema para que a secretaria publique, em seu site oficial (sema.rs.gov.br/parque-estadual-do-turvo), todas as tardes de quinta-feira, as condições de visibilidade para o fim de semana.

A resolução funcionará em formato de teste até agosto deste ano. Desde março, já é possível observar o Salto do Yucumã em sua totalidade durante os fins de semana – quando não há chuva intensa nos sete dias anteriores.

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Salto do Yucumã voltou a ser avistado pelos turistasCarlos Macedo / Agencia RBS

O Parque Estadual do Turvo

* O parque busca proteger os processos naturais chaves para a persistência e evolução das comunidades, em especial os processos de sucessão, o regime hídrico do Rio Uruguai e dos arroios tributários.

* Trata-se do último refúgio gaúcho de espécies como a anta e a onça-pintada. A viabilidade das pequenas populações de onça no parque se mantém apenas em função das ligações com as áreas florestadas da Argentina e com possíveis contatos com as populações mais numerosas da bacia do Rio Iguaçu.
Fonte: Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema)

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Turistas de Chapecó adoraram o passeio pelo TurvoCarlos Macedo / Agencia RBS

Como visitar

* O Parque Estadual do Turvo é aberto à visitação de quarta-feira a domingo, das 8h às 18h. O horário limite de entrada é 16h30min.

* Preço: R$ 16,50 por pessoa.

* Para chegar até o parque é preciso andar por uma estrada de terra de 15 quilômetros, em meio à floresta. Para visualizar o salto, é preciso caminhar ainda 600 metros por um trajeto de pedras que é, na verdade, o leito do Rio Uruguai exposto quando o nível da água está baixo.

FOTOS: conheça o Parque Estadual do Turvo, a única morada da onça-pintada no RS

Na maior unidade de conservação ambiental do Estado, ainda é possível avistar o Salto do Yucumã, mais longa queda d’água longitudinal do mundo
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