O Rio grande do Sul está apavorado com o brutal assassinato do menino Bernardo, segundo a polícia pela madrasta, o pai e uma amiga, assistente social. E o que tem a ver isto com a educação?

Raciocinamos, a madrasta é enfermeira, o pai médico e a amiga assistente social. Então, todos passaram pelo ensino básico e pela faculdade, certamente são pessoas que tem muito bom domínio da compreensão de conceitos, cálculos e capacidade de pensar.

Em face dessa compreensão, por que indivíduos com alto grau de escolaridade cometem tamanha crueldade?

Acontece, tenho batido nisso há tempo, que a educação de qualidade tem sido entendida como aquela que preponderantemente possibilita a apreensão de conceitos, cálculos e conhecem bem línguas, por exemplo. Porém, este tipo de educação privilegia basicamente o aspecto racional e deixa de lado, geralmente, o lado sensível do ser humano.

O médico, por exemplo, certamente estudou em bons colégios, talvez particulares, de elite, teve oportunidade de desenvolver complexo conhecimento baseado na racionalidade. Contudo, provavelmente a educação que teve não possibilitou a este homem que aprendesse a ser humano.

A educação, no contexto do universo cultural, convém ressaltar, deu um instrumento ao médico, o conhecimento, não obstante, não lhe ensinou como usar. E quando isto acontece é muito perigoso. Um indivíduo com conhecimentos sem provimento de ética pode se tornar um sujeito insensível, egoísta, egocêntrico e até um monstro.

Os aspectos aqui assinalados nos indicam que o caminho para salvar a humanidade está relacionada ao desenvolver uma educação humanizadora, que toma o ser humano acima dos interesses dos cálculos financeiros, econômicos, tão presentes na cultura e, por conseguinte, na educação tradicional.

Costuma-se dizer que ao não aprender a complexidade da Matemática, da Física, da Química, da Biologia, da História, Geografia e assim por diante, não é educação de qualidade. Quando se prepõem pesquisas a partir do contexto socioantropológico e inserção no universo de valores, se ouve, frequentemente, que isto vai acarretar no rebaixamento do nível da educação.

A educação tradicional, nos últimos três séculos, sobretudo, tem produzido cultura, processo de subjetivação que por meio da racionalidade busca resultados, através do cálculo. Nesta concepção, talvez os autores do crime que ceifou a vida do menino Bernardo pensaram através do cálculo. Ou seja, eliminar a criança para obter vantagens financeiras. Isto é um pensamento racional.

Marx, Gramsci, Adorno, Mészáros, Paulo Freire, Boaventura nos dão referências para compreender os efeitos nefastos da educação de cunho liberal, tradicional ou conservadora. Este modelo educacional serviu ao Fascismo, Nazismo, repressão das ditaduras na América, à violência urbana, nas famílias, escolas, enfim por todo tecido social.

Este tipo de produzir cultura mantém o modelo de sociedade em decadência no ponto de vista social e cultural, do modo de ser contemporâneo ou do modelo de sociabilidade dominante na atualidade.

Precisamos, no entanto, aprender Matemática, Física, Química, Biologia, Língua Materna, Estrangeira, História, Geografia, mas, sobretudo, aprender a ser humano, a conviver com os outros humanos,também com os outros seres.

Isso quer dizer que o conceito de educação integral do ser humano, aquela que promove o desenvolvimento de suas diversas dimensões é o que pode recriar a cultura e devolver ao ser humano a sua condição humana, não apenas por ser humano, mas por saber conviver solidariamente com tal.

Ser humano, neste sentido, não significa apenas ser gente, mas saber ser humanizado, isto é,indivíduo provido de valores que contribui com o bem viver.

A educação que tirou o Bernardo do nosso convívio, de maneira cruel ou monstruosa assemelhasse à educação desprovida de humanização. A educação de tendência tradicional que tantos glorificam como sendo de qualidade.

A educação integral dos ser humano consiste em promover conhecimentos das ciências e valores humanitários, em equilíbrio, que pode contribuir para que o animal homem se torne sujeito humano. Isto no sentido de ser solidário, voltado à justiça, à equidade, à alteridade, ou seja, ao amor ao próximo, que presa a vida, em sua diversas faces.

Por Luiz Etevaldo da Silva- Mestre em Educação

Fonte: Ijuí.com