Os corruptos, seus aliados e seus apoiadores andam em festa. Depois de anos em que eles finalmente estiveram na defensiva graças à coragem e ao heroísmo de inúmeros agentes da lei, conhecidos e anônimos, sua vingança caminha a todo o vapor. Todo o legado da Lava Jato – a principal, embora não a única, operação de combate à corrupção na história recente do Brasil – está sendo lentamente implodido. O grande “acordão nacional para estancar a sangria”, eternizado em uma conversa telefônica do ex-senador Romero Jucá, está se tornando realidade, ainda que não haja de fato uma orquestração nos bastidores.

Decisões no Supremo, projetos de lei aprovados no Congresso e sancionados pelo Planalto, perseguição em conselhos formam um amplo conjunto destinado a livrar os corruptos, transformá-los em vítimas, criminalizar procuradores e juízes, e garantir que nunca mais o Brasil passe de novo por algo semelhante à Lava Jato. Mas ainda perdura uma última trincheira antes que os corruptos possam cantar a vitória completa: todos nós, os brasileiros fartos da ladroagem.

Foram sete anos de trabalho incansável para desarticular a maior e mais intrincada rede de corrupção criada nas estruturas do Estado brasileiro. Com o petismo à frente, partidos políticos e empreiteiras sangraram estatais para alimentar um projeto de poder e fraudar a democracia brasileira. Este projeto foi desmontado; bilhões de reais foram devolvidos, centenas de corruptos e corruptores foram denunciados, e vários deles foram para trás das grades, incluindo um ex-presidente da República, um ex-presidente da Câmara dos Deputados, ex-parlamentares e ex-governadores de estado, dos mais variados partidos políticos. Se mais não houve, foi apenas porque os detentores de mandato fizeram valer a expressão “foro privilegiado” e contaram com a lentidão da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, onde os processos só avançavam a muito custo, em comparação com as instâncias inferiores.

Os ladrões querem que o Brasil se concentre nos crimes inventados atribuídos aos que combateram a corrupção e se esqueça dos crimes reais cometidos pelos artífices do petrolão, do mensalão e de tantos outros escândalos

Os resultados da Lava Jato foram possíveis porque a operação contou com profissionais dedicados, mas também porque havia um arcabouço jurídico que, talvez pela primeira vez em muitos anos, favoreceu o combate à corrupção. Em 2016, foi restabelecida a prisão após condenação em segunda instância, colocando o Brasil novamente em sintonia com as melhores democracias. Temendo passar longas temporadas na prisão, os envolvidos no esquema passaram a contar o que sabiam, finalmente rompendo a lei do silêncio, a omertà mafiosa que vinha caracterizando a corrupção no Brasil. Foi assim que o país teve noção das dimensões da roubalheira do petrolão.

Pois tudo isso está sendo desmontado. Com o fim da prisão após segunda instância, em 2019, os ladrões deixaram de temer a cadeia. Com a Lei de Abuso de Autoridade, os ladrões passaram a poder processar seus investigadores e julgadores. Com as anulações de julgamentos da Lava Jato realizados seguindo estritamente as regras processuais, os ladrões ficaram impunes. Com o circo midiático da “Vaza Jato” e a suspeição de Sergio Moro, os ladrões passaram a apontar o dedo para os honestos e afirmar que eram eles, os procuradores e o juiz, que haviam errado.

Pois é isso que os bandidos querem: que o Brasil se concentre nos crimes inventados atribuídos aos que combateram a corrupção e se esqueça dos crimes reais cometidos pelos artífices do petrolão, do mensalão e de tantos outros escândalos que mancham o país. Esta é a esperança deles: que nos esqueçamos de todas as provas, os recibos, os cadernos, os pedalinhos, as planilhas, os apelidos, as conversas, as reformas. Talvez tudo isso jamais seja aceito novamente em um tribunal, tantos foram os disparates cometidos pelo STF nas decisões recentes que, queiram ou não os ministros, desmontaram a Lava Jato. Mas isso não significa que os chefões e os soldadinhos do petrolão sejam inocentes. Eles se lembram muito bem do que fizeram – só precisam que nós paremos de nos lembrar.

Gazeta do Povo