O ministro do STF Alexandre de Moraes; ao fundo, Dias Toffoli. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)
Sinais de isolamento e crescente desconforto interno marcam os bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF) em meio às polêmicas envolvendo os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes no caso do Banco Master e de Daniel Vorcaro. Segundo avaliações de especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, ao contrário de outras crises institucionais recentes, os integrantes da Corte têm evitado manifestações públicas enfáticas em defesa dos colegas, revelando a busca de distanciamento do escândalo.
Outro ponto que impactou a Corte foi a pesquisa divulgada pela consultoria Meio/Ideia, nesta quarta-feira (11), que mostrou que o escândalo do Master tem potencial de afetar diretamente a imagem do STF. Segundo o estudo, embora 48% dos brasileiros afirmem ter ouvido falar do caso, entre os que conhecem o episódio, 35% associam o escândalo diretamente ao STF, e 69,9% avaliam que a credibilidade da Corte foi impactada negativamente, o que indica que a repercussão do caso já produz efeitos na percepção pública sobre o tribunal.
O levantamento foi realizado de 6 a 10 de março de 2026, com 1.500 entrevistas telefônicas em todo o país. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.
Entre os pares dentro da Corte, até agora, as poucas manifestações ocorreram de forma institucional e restrita. Entre os que se posicionaram estão Gilmar Mendes, que classificou críticas e vazamentos de mensagens como uma “barbárie institucional” contra o tribunal, e Edson Fachin, que, na condição de presidente da Corte, assinou nota oficial que questionou a legitimidade do pedido da Polícia Federal para declarar a suspeição de Toffoli. A PF havia elaborado um relatório com possíveis contatos e conflitos de interesses entre o então relator do caso e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Para o constitucionalista Alessandro Chiarottino, o silêncio público de ministros em relação às controvérsias envolvendo Toffoli e Moraes indica um cenário de mal-estar interno. Segundo ele, a situação chegou a um ponto em que o desconforto entre os integrantes do tribunal se tornou inevitável. “Especialmente diante das pressões que também surgem dentro da própria comunidade jurídica para que o Supremo esclareça os fatos”, reforça ao falar sobre divisões e fissuras sem precedentes no STF.
O que se sabe é que, nos bastidores, parte dos ministros considera que episódios como viagens, decisões tomadas durante o recesso do Judiciário – quando Moraes abriu um inquérito para investigar quem vazou informações de magistrados e familiares e a relação profissional entre o banco e o escritório ligado à esposa de Moraes – acabaram ampliando o desgaste público e atingindo a credibilidade. “Há um isolamento, mas também há uma rede de autoproteção”, classifica o cientista político Vinicius Carneiro.
O constitucionalista André Marsiglia analisa que o silêncio público de ministros pode não significar apenas um isolamento efetivo dentro da Corte. Segundo ele, a ausência de manifestações ocorre principalmente porque outros magistrados evitam se posicionar para não serem associados ao caso. “Os ministros não estão se manifestando porque não querem ser confundidos com o escândalo ou dar a impressão de que também fazem parte ou se relacionam com ele, mas há ali uma rede de proteção [entre os pares]”, afirmou.
Foi a escalada desse ambiente que levou, em fevereiro, à substituição da relatoria do caso, antes com Dias Toffoli e posteriormente assumida por André Mendonça. Para analistas, é unânime a avaliação de que existe, dentro e nos arredores do tribunal, uma rede de proteção corporativa que tende, ao menos por ora, a impedir o avanço de investigações ou a formalização de suspeições, preservando a autonomia do STF mesmo com o avanço das pressões externas.
Chiarottino avalia ser improvável que haja algum tipo de punição ou investigação formal dentro do próprio STF. Ainda assim, o constitucionalista afirma que a sucessão de controvérsias produz efeitos políticos e institucionais. “Infelizmente, não acredito que haja punição, mas esses escândalos reduzirão o poder de Moraes e Toffoli dentro e fora da Corte”, afirmou.
Para Marsiglia, no entanto, o “isolamento” não indica rompimento ou abandono institucional. Para o especialista, se houvesse um afastamento real, e não apenas simbólico entre os magistrados, sinais mais claros apareceriam nas decisões internas. “Internamente, não vejo que eles tenham sido rifados pelos colegas. Se isso tivesse ocorrido, haveria movimentos para que deixassem o tribunal ou pelo menos uma reação institucional mais forte”.
Por Gazeta do Povo
O ministro do STF Alexandre de Moraes; ao fundo, Dias Toffoli. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)