Discussão veio à tona após parlamentares negros na Câmara de Porto Alegre citarem o trecho “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” como discriminatório. Pesquisadores se dividem na interpretação.

Karen Santos (PSOL), Bruna Rodrigues (PCdoB), Daiana Santos (PCdoB), Laura Sito (PT) e Matheus Gomes (PSOL) na CâmaraMarco Favero / Agencia RBS

Insuflada pelo protesto de parlamentares negros na cerimônia de posse de vereadores na Câmara Municipal de Porto Alegre, no primeiro dia de 2021, a discussão sobre o Hino Rio-grandense ter ou não um trecho de cunho racista divide pesquisadores.

Para alguns, um dos versos legitima um processo de destruição da humanidade dos negros ao afirmar que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”; para outros, as críticas carecem de contextualização histórica: a afirmação no hino diz respeito a uma submissão da então Província de São Pedro ao Império, no período da Revolução Farroupilha, e não faz menção ao povo negro. Os versos integram a terceira versão do hino, composta no século 19 e adotada oficialmente na década de 1930.

— Não temos obrigação nenhuma de cantar um verso que diz que o nosso povo não tem virtudes, por isso foi escravizado. O hino foi elaborado em um contexto de guerra, no qual a única forma de escravização era sobre a população negra, que lutou na guerra sob promessa de liberdade, que não tiveram — disse o vereador Matheus Gomes (PSOL), que é mestrando em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em sua coluna em GZH, o escritor Jeferson Tenório aponta que o Hino Rio-grandense carrega as raízes do racismo gaúcho, como se a culpa da escravidão recaísse na vítima, e não no agressor. Para Tenório, o racismo persiste e se tornou mais sofisticado. “Há outras formas simbólicas de segregação racial, tão sutis quanto a letra de um hino que, além disso, esconde a chacina dos soldados negros no massacre dos Porongos”, apontou o autor.

O historiador Ivo Bittencourt discorda das interpretações que apontam racismo no trecho do hino. Para ele, há uma confusão tanto em relação às alusões trazidas pelos versos quanto ao próprio significado da palavra “escravo”, que estaria sendo tomada muito literalmente – o que, em um hino ufanista como o gaúcho, não deveria ser o padrão.

— O Hino Rio-grandense valoriza o cultivo de princípios virtuosos para que um povo se mantenha em liberdade, através da continuidade da capacidade de decidir segundo seus próprios valores. A utilização da palavra “escravo” está no sentido figurado, sendo o vício entendido como o oposto da virtude, como o fator escravizante — detalha Bittencourt.

Apesar da alegação de racismo feita pelos parlamentares e destacada por alguns estudiosos, membros de movimentos de tradição gaúcha refutaram a acusação e apontaram que a bancada negra perde tempo com polêmicas desnecessárias, em vez de discutir assuntos mais importantes.

— O MTG reconhece a importância dos negros e dos próprios Lanceiros Negros na revolução e na construção de nossa identidade regional. Desviar o foco dessa luta desvia o foco daquilo que deve realmente ser discutido. Enquanto a comunidade negra, na qual integrantes do próprio movimento se inserem, se prende a este tipo de polêmica, perde um precioso tempo de ser protagonista de uma nova história — defende a diretora de Manifestações Individuais e Espontâneas do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Julia Graziela Azambuja dos Santos Dutra, que é negra.

Na segunda-feira (4), a vereadora Mônica Leal (PP) apresentou um projeto de lei que inclui, no regimento interno da Câmara Municipal de Porto Alegre, a obrigatoriedade de “postar-se de pé e em posição de respeito durante a execução do Hino Nacional e do Hino do Estado do Rio Grande do Sul”.

Na justificativa, a vereadora argumenta que todas as pessoas, especialmente os parlamentares, como representantes da população que são, devem guardar posição de respeito durante a execução do hino.

Já existe uma lei no Estado que determina “atitude de respeito” da população quando o hino do Rio Grande do Sul é tocado. Em seu artigo 27, a lei 5.213, de 5 de janeiro de 1966, decreta que “na execução do Hino é obrigatória a atitude de respeito; os militares farão continência regulamentar e os civis ficarão descobertos, eretos e silenciosos”.

História do hino

Com letra de Francisco Pinto da Fontoura, música do comendador maestro Joaquim José de Mendanha e harmonização de Antônio Corte Real, a versão atual do hino é de 1933, sendo esta a terceira adaptação feita para a canção, que teve sua primeira edição em 1838.

A letra atual da canção, porém, sofreu uma alteração em 1966, quando foi oficializada como Hino Farroupilha ou Hino Rio-grandense, por força da mesma lei 5.213/66. Na ocasião, foi suprimida a segunda estrofe, com os versos “Entre nós, reviva Atenas, para assombro dos tiranos. Sejamos gregos na glória, e na virtude, romanos”, sob o argumento de que havia termos descontextualizados em relação à cultura gaúcha e muitas pessoas, não vendo conexão com o Estado, deixavam de cantá-lo.

Confira a letra atual do hino gaúcho:

Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o Vinte de Setembro
O precursor da liberdade

Mostremos valor, constância
esta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra

Mas não basta, pra ser livre,
Ser forte aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Mostremos valor, constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra