Réus Leandro, Graciele, Edelvânia e Evandro

Os quatro réus do processo que apura a morte do menino Bernardo Boldrini, ocorrida em abril de 2014, irão a julgamento daqui a três semanas e pouco, mais precisamente no dia 11 de março de 2019, quase cinco anos depois do assassinato da criança. A sessão que julgará Leandro Boldrini (pai), Graciele Ugulini (madrasta), Edelvânia Wirganovicz e Evandro Wirganovicz (irmãos acusados de participar do crime) começará às 9h30min e será realizado no salão do júri da Comarca de Três Passos. Serão ouvidas 28 testemunhas e interrogados os quatro réus. A previsão é de que o julgamento possa se estender por até sete dias.

O fato

Bernardo Uglione Boldrini, então com 11 anos, desapareceu na sexta-feira, 4 de abril de 2014, em Três Passos. Dez dias depois, na noite de segunda-feira (14), o corpo do menino foi encontrado no interior do município de Frederico Westphalen enterrado às margens do rio Mico, na localidade de Linha São Francisco. Perspicazes, os agentes da polícia civil envolvidos na investigação reuniram indícios e provas suficientes e indubitáveis de que o médico cirurgião Leandro Boldrini, então com 38 anos, pai do menino, a madrasta, Graciele Ugulini, 32 anos, e a assistente social e amiga do casal, Edelvânia Wirganovicz, 40 anos, teriam assassinado o garoto. Um dia depois eles foram presos. No mês seguinte, também foi preso Evandro Wirganovicz, apontado como coautor. A motivação, possivelmente teria sido a herança deixada pela mãe do menino, morta, hipoteticamente, por suicídio, em 2010.

A propósito

Desde o fim de 2013, Conselho Tutelar e Promotoria da Infância de Três Passos já eram cientes do abandono afetivo de Bernardo por parte do pai e da madrasta. Depois da sua morte, houve muitos relatos de pessoas próximas e vizinhos do casal, de que ele era agredido verbal e fisicamente por Graciele.

Investigação

Em síntese, a investigação policial tomando como parâmetro o perfil da vítima, associando com as divergências no comportamento de Leandro (pai), desde o fato de que ele não costumava procurar o filho, e naquela ocasião ele não só foi procurar, como registrou ocorrência na Delegacia, de desaparecimento do menino. Tudo apontava para o envolvimento do pai, da madrasta e da Edelvânia. O desfecho deu-se com o “detalhe”, foco do bom policial de investigação; uma nota de venda de um extintor emitida em um posto de combustível em Frederico, foi encontrada por agentes no interior da camioneta usada por Keli quando levou Bernardo àquela cidade com o pretexto de comprar uma televisão. No posto, os policiais examinaram a câmera de vídeo da data do desaparecimento do menino, e qual não foi a surpresa: “verificaram a chegada de Keli com Bernardo, a saída deles da camioneta e entrada no carro da Edelvânia que os esperava. Ambas saíram ‘com o menino’ e retornaram horas depois ‘sem o menino’, cujas imagens mostravam também, na chegada de retorno, Edelvânia botando no lixo sacos plásticos e tirando as ferramentas de dentro do carro. A seguir, sem ter mais dúvida alguma, os policiais voltaram a interrogar Edelvânia que acabou confessando sua participação no assassinato e contado toda a trama arquitetada por Keli e Leandro, e indicou o local onde enterraram o menino, o que foi devidamente verificado e confirmado pela polícia, como é de amplo conhecimento público”.

Denúncia

Graciele, Leandro e Edelvânia foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio quadruplamente qualificado (motivo torpe e fútil, emprego de veneno e recurso que dificultou a defesa da vítima). Eles podem pegar até 30 anos de cadeia. Os três e mais o Evandro são denunciados, também, por ocultação de cadáver, cuja pena prevista é de 3 anos. Leandro Boldrini foi enquadrado, ainda, por falsidade ideológica, por ter feito Boletim de Ocorrência Policial do desaparecimento do filho, quando na verdade já sabia que ele estava morto e não desaparecimento. A pena prevista no Código Penal para crime de falsidade ideológica é de 1 a 5 anos de reclusão.

Reflexões

É do ser humano esquecermos de momentos diversos vividos. Mas existem alguns que deixam marca profunda, se tornam inesquecíveis. Um exemplo é o caso do menino Bernardo que abalou emocionalmente toda a população. Em sua última trajetória, no dia 4 de abril de 2014, o garoto saiu da escola, em Três Passos, ao meio dia e, inocentemente, rumou para a morte, iludido pela madrasta Graciele (Keli) de que ela iria comprar-lhe uma televisão em Frederico Westphalen. A partir dessa data ele foi dado como desaparecido na versão, “astuciosa”, do pai e da madrasta. Dez dias depois, dia 14, Edelvânia, amiga da madrasta confessou à polícia que juntamente com Keli teria matado Bernardo e indicou o local onde o enterraram. O pai do menino, médico Leandro Boldrini, foi apontado como autor intelectual do assassinato. Todos, Leandro, Keli, Edelvânia e um irmão desta, foram e permanecem presos.

Monstruosidade inigualável

Teoricamente, para a sociedade não tão saudável como a nossa, filhos de pais ricos e de boa formação intelectual são privilegiados, futuro promissor. Mas não é bem assim. Aí há uma total discrepância. Veja o caso do menino Bernardo. Filho de pai afortunado, de pai que é médico, socialmente bem-sucedido, Bernardo, como um Francisco, andava maltrapilho; ou não tinha dinheiro para o lanche no colégio; ou passava frio por falta de agasalho; ou vestia vários dias o mesmo uniforme escolar; ou andava com velhos sapatos; buscava acolhida e carinho na vizinhança, nos pais de colegas de aula. Bernardo chorou aos 7 anos pela morte da mãe, de forma violenta. Buscou ajuda nos serviços de proteção à criança, inclusive pessoalmente ao juiz da infância, mas o socorro não lhe foi bastante. Ele pressentia a morte. E o pressentimento se tornou realidade, “foi cruelmente assassinado por quem tinha o dever de lhe proteger”. Como um cordeiro, ele foi levado para o abate, para o sacrifício. Foi uma monstruosidade inigualável!

Negligência coletiva

Em 16 de dezembro de 2013, o Ministério Público instaurou procedimento administrativo para apurar a procedência ou não de notícias recorrentes na cidade de que o menino Bernardo sofria negligência afetiva por parte do pai e da madrasta. Curioso é que toda a cidade, a escola, o Conselho Tutelar, o Creas, o MP e a Justiça, sabiam que ele tinha “medo”, vivia em “abandono”, “em situação de risco”, sujo, malvestido, por vezes desnutrido. Sozinho, um mês e pouco depois, em 24 de janeiro, Bernardo foi ao fórum pedir ajuda. Pelo juiz, ele foi encaminhado ao Cededica, onde consta um relatório em que ele declarou “estar sofrendo maus-tratos em casa, principalmente por parte da madrasta, recebendo ofensas verbais, além de dizer que estava com medo e sentindo-se inseguro”. No mesmo dia ele foi levado à promotoria da Infância e da Juventude que o ouviu. Mas os prenúncios se confirmaram: 70 dias após esse contato, mais precisamente, em 04.04.2014, Bernardo foi ludibriado, torturado, morto e enterrado em cova rasa, em meio a mata, na beira de uma sanga, ocultado.

Frieza e crueldade

A assistente social Edelvânia, amiga da madrasta de Bernardo, em depoimento formal à polícia no dia 14 de abril de 2014, confessou participação no assassinato, por dinheiro, era muito dinheiro, disse. Fora paga para abrir um buraco e ajudar a colocar o menino dentro. No relato à polícia Edelvânia, da forma mais perversa e fria, contou que no trajeto Keli aplicou mais uma injeção (na veia) do menino, “aí ele foi apagando!”. Depois de tirarem a roupa – uniforme da escola – e os tênis, colocaram Bernardo no buraco e Keli jogou soda sobre o corpo dele e ambas o cobriram com pedras e terra. Pelo trabalho, Edelvânia teria recebido de Keli, no dia 2, R$ 6 mil. O valor total seria R$ 20 mil, mas Keli teria se disposto a pagar o total de R$ 96 mil, o que faltava para Edelvânia quitar o apartamento.