Por Mariliz Pereira Jorge
Na prática, eu não tenho um problema com bebida: quando não quero não bebo. Mas desde muito jovem, não fico na segunda tacinha ou em um chopinho. Venho de uma cidade do interior em que diversão, por muito tempo, se resumiu a sair e beber —porque era o que havia. Uma cultura espalhada pelo país e, nas últimas décadas, assimilada também pelo público feminino, com um empurrão generoso da publicidade: bebida como pertencimento, como descanso, como merecimento. Sempre acho que “mereço”. Estou cansada, bebo. Estou feliz, bebo. Estou triste, bebo. Está quente –só uma cervejinha. Está frio –uma tacinha de vinho.
Muitas vezes ouvi: “você bebe como homem”. Muitas mulheres são assim também. A frase vem com um elogio embutido, como se fosse uma prova de resistência, mas revela um equívoco na ideia de igualdade de gênero: estar “à altura” não é copiar o pior do repertório masculino. A expressão dá status para o excesso e normaliza o risco que o álcool representa. E antes que alguém me entenda errado: eu não estou me apresentando aqui como alguém com “problema com bebida”. Mas eu me observo porque está claro que muita gente extrapola e não percebe.
E trago esse assunto por causa de “(Des)controle”, filme protagonizado por Carolina Dieckmann, ótima como uma escritora bem-sucedida que volta a beber e descobre que não existe “socialmente” quando você já virou refém da dependência. Uma das produtoras e roteiristas, Iafa Britz, contou numa entrevista que parte do impulso do projeto veio da sua própria vivência. O filme, que estreia no dia 5 de fevereiro, mostra o que um dependente faz: negocia consigo (“só hoje”), promete que vai parar amanhã, cria desculpas para beber, esconde garrafas, apaga rastros, mente para quem ama, some, pede desculpas, jura que não vai repetir. E repete.
Os números confirmam que não é um tema lateral. Na pesquisa anual do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, do Ministério da Saúde, a proporção de mulheres que relatam beber muito numa única ocasião (quatro ou mais doses) chegou a 15,7% em 2024 nas capitais e no Distrito Federal; em 2006, era de 7,8%. E a pesquisa Lenad (Unifesp/Senad) registra outra virada: em 2012, 31,2% das mulheres bebiam; em 2023, 47%. A mesma proporção que a de homens.
O problema cresce em silêncio porque, se uma parte da sociedade aplaude a mulher que “bebe como homem”, a sociedade como um todo não tolera a que perde a mão: ela vira piada, perde credibilidade no trabalho, ganha rótulos e, em casos extremos, até a guarda dos filhos entra na mira. E há o risco físico, concreto, que raramente entra nessa conversa: álcool aumenta a vulnerabilidade. A mulher embriagada fica mais exposta a abordagens violentas, a situações de coerção e a estupro.
Além da afirmação social, há outras razões que empurram mulheres para o excesso: dupla jornada, sobrecarga mental, ansiedade e depressão, solidão, violência doméstica, um mercado que vende álcool como “autocuidado” e um cotidiano em que o alívio rápido parece mais acessível do que tratar essas dores. Some-se a isso a vergonha e o consumo vai para o esconderijo, dentro de casa, onde ninguém vê e ninguém interrompe.
“(Des)controle”, com direção da craque Rosane Svartman, acerta ao tratar essa droga legal como o que ela é: uma substância psicoativa barata, disponível e socialmente perdoada. Falar de alcoolismo entre mulheres é uma questão de saúde pública; precisa de alertas e de programas de prevenção. E começa com um ponto simples, que muita gente repete com convicção até o dia em que não consegue mais sustentar: quando eu digo “eu paro quando eu quiser”, quem é que está falando?