A pouco mais de 40 dias do primeiro turno das eleições de 2020, um município do Rio Grande do Sul vive uma situação insólita: todos os candidatos já podem contar com a vitória incluindo o prefeito, o vice-prefeito e os nove vereadores.

Um acordo político entre a atual administração municipal e os partidos com representação local fez com que Inhacorá, no Noroeste, vá votar no dia 15 de novembro por uma simples formalidade. Pelo acerto, somente a chapa do atual prefeito e os parlamentares que já exercem o mandato registraram candidaturas.

 

Nesse caso, se não houver eventuais desistências ou impugnações, basta cada um digitar seu próprio número na urna para confirmar mais quatro anos no poder. A costura eleitoral é defendida pelo prefeito Everaldo Bueno Rolim (PTB) e pelo presidente da Câmara e antigo opositor, Edelvan Cossetim da Silva, que migrou do PT para o PP, como uma forma de pôr fim a uma antiga rivalidade política que, segundo eles, trazia prejuízos à localidade de pouco mais de 2 mil habitantes.

— Em 2016, a eleição foi muito tumultuada. Chegou a ter gente baleada. Desde que a atual gestão uniu os vereadores, que tinham maioria na oposição ao prefeito, a cidade conseguiu muito mais emendas. Foram mais de R$ 8 milhões em quatro anos, quando costumava ficar em torno de R$ 2 milhões — afirma Silva, antigo adversário político e atual aliado.

Desde a emancipação, 28 anos atrás, até a posse da atual gestão, a política no município costumava ser marcada por uma profunda rivalidade entre duas famílias. Ao interromper essa tradição, Rolim deverá garantir a primeira reeleição de um prefeito em Inhacorá.

— Como tínhamos um histórico de política muito violenta, isso dividia a cidade ao meio. Até as empresas levavam a disputa política para o lado pessoal, o que trazia problemas. Havia muito medo de apoiar uma gestão e se indispor com o outro lado. Hoje, temos condições muito melhores de buscar recursos porque há união entre todos — argumenta o prefeito.

Para construir o projeto de manutenção no poder, foi preciso negociar com os sete partidos com representação em Inhacorá. Cinco deles têm vereadores no exercício do mandato (PTB, PP, DEM, PSD e PSB) e concordaram em manter os mesmos nomes na próxima legislatura, e as duas siglas restantes (MDB e PDT) aceitaram não lançar nomes na disputa e ocupar cargos no governo.

O cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Paulo Peres vê prejuízos à democracia no tipo de ajuste eleitoral construído na cidade.

— Pode ser um acordo de pacificação, mas essa solução também pode ser vista como muito favorável para um grupo de partidos que formam uma espécie de cartel para ocupar o Estado. Isso representa um problema estrutural para o jogo democrático, que se caracteriza pela competição e pela rotatividade no poder — analisa Peres.

Everaldo Rolim admite que é importante o eleitor ter a opção de escolher entre um ou outro candidato, mas argumenta que Inhacorá vivia uma situação tão exacerbada que também colocava em risco os princípios democráticos, além de trazer prejuízos administrativos.

— A disputa política, em alguns municípios pequenos, é tão violenta que a democracia fica quase em segundo plano. Uma das razões para a união dos nossos partidos é justamente essa — justifica o atual e, se não houver alguma grande surpresa, próximo prefeito de Inhacorá.

Gauchazh