Um incômodo paira sobre o Palácio do Planalto: a verborragia indômita do vice-presidente Hamilton Mourão. Isolado e sem função executiva, Mourão coleciona declarações controversas, irritando a cúpula do governo. Três meses após as eleições, o vice apresentado na campanha como linha dura agora surge como contraponto moderado ao presidente Jair Bolsonaro.

 

 

Ministros e militares graduados já pediram ao general postura mais discreta e até faixas ordenando que calasse a boca foram estendidas em frente ao palácio. Mourão assente, diz que vai se recolher, mas acaba cedendo ao apelo dos microfones. Suas entrevistas diárias exasperam o staff de Bolsonaro pelo teor das opiniões, muitas vezes antagônicas às do presidente.

– Ele dá legitimidade ao discurso da oposição. É um pavão – reclama um habitué do palácio.

Auxiliares de Bolsonaro não enxergam intenções espúrias na eloquência do vice, mas simples falta do que fazer. Eles insistem para que o presidente delegue alguma missão a ele como forma de mantê-lo ocupado. Durante a transição, Mourão chegou a afirmar que iria chefiar um centro de monitoramento de projetos do governo, mas jamais recebeu tal incumbência.

A própria dinâmica da comunicação oficial estimula a incontinência verbal do general. Bolsonaro é avesso a entrevistas e não poupa críticas à imprensa. Diante da escassez de informações, repórteres correm ao vice, que desde a campanha mantém-se solícito e costuma fornecer o número do celular.

Outro facilitador é a geografia do poder no Planalto. Enquanto Bolsonaro entra e sai sem manter contato com jornalistas e despacha no terceiro andar do prédio principal, Mourão fica dois andares abaixo do térreo, num anexo aos fundos do terreno. Sem entrada privativa, caminha 15 metros sob assédio dos jornalistas. Eles batem ponto no local todos os dias às 9h, 12h30min, 14h e às 19h, quando Mourão chega para trabalhar, sai para o almoço, retorna e encerra o expediente. Atencioso, o vice adaptou o prédio, transformando uma sala de reuniões em comitê de imprensa, com água e café.

QUINTA OPÇÃO PARA CONCORRER A VICE

Foi sob a marquise da entrada que o general tirou uma foto da aglomeração de repórteres e postou no Twitter agradecendo a atenção da imprensa e elogiando “a dedicação, entusiasmo e espírito profissional a todos os jornalistas que me recebem na minha chegada e de mim se despedem quando deixo o anexo da vice-presidência”.

A gentileza soou como provocação por ter sido publicada 32 minutos após Bolsonaro dizer, também no Twitter, que deixa a “imprensa aterrorizada” por se comunicar via rede social. No mesmo dia, o presidente havia cancelado entrevista em Davos, na Suíça. A atitude de Mourão deixou coléricos os filhos de Bolsonaro.

– Eles não estão contentes com a independência dele, mas vão ter de aturar – resigna-se um secretário ministerial.

No Congresso, os aliados estão divididos. Parlamentares mais fiéis reclamam das opiniões divergentes do general. Já deputados e senadores de outras siglas consideram salutar as manifestações. Eles ponderam que Mourão atua como contrapeso ao radicalismo de alguns ministros, como Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Direitos Humanos) e Ricardo Vélez (Educação). Também agrada a disponibilidade do vice, sempre pronto a receber parlamentares, empresários, sindicalistas e embaixadores estrangeiros.

– Ele é muito solícito. Recebe todo mundo, ouve as demandas e já liga ali mesmo para os ministros, querendo saber como está tal obra ou o andamento de algum programa. O pessoal gosta muito dele, até porque é mais acessível – comenta um deputado.

Aos 65 anos e com quatro décadas de serviço militar, Mourão jamais exerceu mandato. Quinta opção de Bolsonaro para concorrer a vice, entrou na chapa porque os nomes preferenciais declinaram do convite. Sua credencial foi justamente a língua solta. Bolsonaro só se aproximou dele após a repercussão de críticas feitas a então presidente Dilma Rousseff e, mais tarde, ao sucessor, Michel Temer. Agora, o general é alvo de reprimendas por atitudes que antes eram consideradas qualidades. Aos desafetos, mandou recado:

– O vice-presidente é uma pessoa permanente no governo. Ele só sai se ele pedir para sair.

As polêmicas

17/9/2018, sobre a política externa petista

“Nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, do lado de lá e de cá do oceano, na diplomacia Sul-Sul.”

 

17/9/2018, sobre famílias sem a figura paterna

“A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narcoquadrilhas que afetam nosso país.”

 

26/9/2018, sobre direitos trabalhistas

“Jabuticabas brasileiras. Décimo-terceiro salário. Se a gente arrecada 12, como pagamos 13? É complicado. É o único lugar em que a pessoa entra em férias e ganha mais. Coisas nossas, legislação que está aí. É sempre a visão dita social com o chapéu dos outros, não com o chapéu do governo.”

 

26/9/2018, sobre estabilidade no serviço público

“Por que uma pessoa faz um concurso e no dia seguinte está estável no emprego? Ela não precisa mais se preocupar. Não é assim que as coisas se comportam. Tem que haver uma mudança e aproximar o serviço público para o que é a atividade privada.”

 

20/11/2018, sobre relações com a china

“Às vezes, o presidente tem uma retórica que não combina com a realidade. A China não está comprando o Brasil porque ninguém pode comprar o Brasil.”

 

21/1/2019, sobre facilitação do acesso a armas

“Essa questão da flexibilização da posse de arma, não vejo como uma questão de medida de combate à violência. Vejo apenas, única e exclusivamente, como atendimento a promessas de campanha do presidente e vai ao encontro de anseios de grande parte do eleitorado dele.”

 

25/1/2019, sobre a renúncia de Jean Willys (PSOL-RJ)

“Quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia. Uma das coisas mais importantes é você ter sua opinião e ter liberdade para expressar sua opinião. Os parlamentares estão ali, eleitos pelo voto, representam cidadãos que votaram neles. Quer você goste, quer você não goste das ideias do cara, você ouve. Se gostou bate palma, se não gostou, paciência.”

 

29/1/2019, sobre a liberação de lula para velório

“É uma questão humanitária. A gente perder um irmão é sempre uma coisa triste, já perdi o meu e sei como é que é. Se a Justiça considerar que está ok, não tem problema nenhum.”

 

1º/2/2019, sobre mudança da embaixada em israel

“Sou conservador. Fica onde está.”

 

1º/2/2019, sobre aborto

“A mulher teria de ter a liberdade de chegar e dizer: ?preciso fazer um aborto?. Se trata de uma decisão da pessoa.”

 

1º/2/2019, sobre a decisão do ministro Marco Aurélio Mello retomando investigações contra Flávio Bolsonaro

“A Justiça faz o seu papel, né? Segue o baile. Acho que foi adequada a decisão.”

 

4/2/2019, sobre a denúncia de que o ministro do Turismo, Marcelo Antônio, patrocinou candidaturas laranjas

“Qualquer denúncia tem de ser apurada, a Justiça que faça o seu papel. Se for verdadeira, é grave. Temos de ver até onde há verdade nisso aí.”

Gauchazh