Em meio a nomes definidos na oposição, partidos da base governista aguardam anúncio sobre destino do atual governador

A pouco mais de seis meses, caminhos para chegar ao Piratini ainda estão indefinidos

A indefinição em torno do rumo político do governador Eduardo Leite embaralha a corrida ao governo do Estado. Embora a tendência seja o tucano renunciar ao cargo e permanecer no PSDB na expectativa de concorrer à Presidência da República, a demora no anúncio fragiliza a montagem de uma aliança robusta dentro da base governista para a disputa da sucessão.

Inicialmente prevista para esta sexta-feira (25), a formalização da decisão de Leite irá ocorrer na próxima semana. O governador tinha viagem marcada para Buenos Aires na segunda-feira (28), quando se reuniria com empresários locais e integrantes do governo argentino. Todavia, ele cancelou o compromisso e convocou entrevista coletiva para as 14h, quando deve anunciar oficialmente a renúncia, cuja data limite é no outro sábado, dia 2 de abril.

Fora do Palácio Piratini, Leite terá de trabalhar para convencer MDB, União Brasil e o próprio PSDB de que pode ser um candidato à Presidência mais competitivo do que o governador de São Paulo, João Doria, para quem perdeu as prévias tucanas e cujo desempenho na mais recente pesquisa Datafolha fica restrito a 2%. O desafio primordial para Leite, porém, será definir quem será o representante do seu governo na eleição estadual.

Leite jamais escondeu a preferência pelo deputado estadual Gabriel Souza (MDB), mas a briga interna dentro do partido aliado tumultuou a costura de uma coligação. O MDB marcou para domingo (27) a escolha da candidatura, mas uma ala influente dentro da legenda tenta adiar mais uma vez a definição. Nem mesmo a desistência do deputado federal Alceu Moreira e o aceno de simpatia do ex-governador José Ivo Sartori por Gabriel pacificaram a sigla. Nesta sexta (25), o secretário de Planejamento de Porto Alegre, Cezar Schirmer, tumultuou ainda mais o ambiente ao anunciar que pretende disputar a indicação do partido, não na eleição deste domingo, mas somente na convenção da legenda, no segundo semestre.

A confusão no MDB fortaleceu o vice-governador Ranolfo Vieira Jr. Herdeiro do cargo com a renúncia de Leite, Ranolfo é o pretendente natural ao Piratini no PSDB, superando inclusive a predileção de um grupo do partido que flertava com o nome da prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas.

Ranolfo já prepara a sucessão na Secretaria da Segurança Pública, posto que acumulou nos últimos três anos, e atua nos bastidores para se cacifar não só no PSDB como em toda a base governista. Na quinta-feira (24), discursou como candidato em um evento no Litoral Norte que reuniu seis postulantes ao Piratini. Em conversas reservadas, Leite admite que a indefinição no MDB tornou mais difícil um eventual pedido para que o vice, cuja lealdade ele sempre reconheceu publicamente, agora desista das pretensões eleitorais.

Segundo a cientista política Elis Radmann, Leite precisará enfrentar dois fenômenos na construção do seu palanque local. O primeiro é o alinhamento natural das candidaturas a governador com a polarização nacional em torno do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

À direita do espectro político, Luis Carlos Heinze (PP) e Onyx Lorenzoni (PL) postulam o governo do Estado defendendo Bolsonaro na disputa presidencial. À esquerda, Beto Albuquerque (PSB) e Edegar Pretto (PT) repetem o movimento, porém apoiando Lula.

— O eleitor está se perguntando quem é o candidato a governador do Lula e o do Bolsonaro. Esse movimento pode colocar no segundo turno os candidatos da polarização — alerta Elis, diretora do Instituto de Pesquisas de Opinião (IPO).

O segundo fenômeno apontado por Elis é a ausência de um candidato à reeleição ao Piratini, fator que retira do debate a questão da continuidade administrativa. A despeito de o Rio Grande do Sul jamais ter reeleito um governador, a presença de Leite na disputa estadual ajudaria a quebrar no Estado a repetição da polarização nacional.

— Normalmente, o debate é se o governador merece uma nova chance. Fora da disputa, Leite precisa decidir quem é o candidato do governo e colocar a continuidade na agenda. Tanto Ranolfo quanto Gabriel não ocupam hoje o espaço do governo na preferência do eleitorado, que se situa na casa dos 20%, 25% de intenções de voto — pontua Elis, debruçada por mapas que demonstram o pensamento do eleitor.

Conforme o cientista político Carlos Borenstein, a tendência à polarização nem sempre é prejudicial a quem trilha um caminho alternativo. Analista da empresa de consultoria Arko Advice, Borenstein lembra que, ao menos em duas ocasiões, os gaúchos elegeram governador o candidato que fugiu do antagonismo.

Em 2002, enquanto Tarso Genro (PT) e Antonio Britto (PPS) se digladiavam na campanha, Germano Rigotto (MDB) venceu a eleição. O mesmo ocorreu em 2014, quando Tarso polarizou com Ana Amélia Lemos (PP), e Sartori foi eleito. Nas duas eleições, os emedebistas chegaram na frente no primeiro e no segundo turno.

— Nos últimos 20 anos, todas as eleições para o governo do Estado tiveram surpresas: o surgimento dessa terceira via em 2002 e 2014, o fato de Rigotto nem sequer ter ido ao segundo turno em 2006, Tarso vencendo no primeiro turno em 2010, algo inédito até então, e a esquerda de fora do segundo turno pela primeira vez em 2018 — destaca Borenstein.

Fora da base governista, a maior parte das candidaturas está definida. Até agora, Heinze e Pretto são quem tem os palanques mais consolidados. Heinze confirmou a vereadora Tanise Sabino (PTB) como vice e trabalha para ter o vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) como candidato ao Senado. Pretto não definiu os nomes da majoritária, mas fechou aliança com PCdoB e PV por conta da federação partidária construída nacionalmente e está perto de anunciar Manuela D’Ávila ao Senado.

Beto, Onyx e Pedro Ruas (PSOL) ainda não fecharam nenhuma aliança e o PDT tenta convencer o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, a concorrer a governador. Correndo por fora, há Roberto Argenta (PSC), Marco Della Nina (Patriotas) e Pablo Hernandez (DC).

— As pesquisas ilustram o caminho, mas também mostram que tudo pode acontecer, pois as mudanças ocorrem conforme a jornada se desenvolve. Vai ser a eleição mais tensa e emocionante da história da democracia moderna — conclui Elis.

GZH