Unidos pelo fim da Lava Jato

O procurador-geral da República, Augusto Aras, parece estar definitivamente disposto a acabar com a Lava Jato. A ofensiva dele na força-tarefa da Lava Jato em Curitiba lança incertezas sobre o destino da operação que desbaratou um esquema bilionário de corrupção e levou à cadeia importantes líderes como o ex-presidente Lula. Até o próximo mês (setembro), Aras vai decidir o futuro do grupo coordenado pelo procurador Deltan Dallagnol, mas já deixou claro que pretende impor uma “correção de rumos” com a adoção de um novo modelo de investigação. Depois das interferências políticas do governo na Polícia Federal, no Coaf e na Receita Federal, a Lava Jato virou a bola da vez, alvo de um “alinhamento de interesses” nos bastidores que inclui Aras, o presidente Jair Bolsonaro, uma ala do Supremo Tribunal Federal (STF) e partidos de variados espectros ideológicos, incluindo figuras do Centrão, bolsonaristas e da oposição, enfim, toda a alcateia corrupta, inclusive parlamentares do PT elogiaram a postura de Aras. Eles abominam a Lava Jato. Chega dar calafrios lembrar o calote eleitoral que Bolsonaro aplicou no eleitorado que o elegeu confiante no discurso que prometia “apoiar a Lava Jato e combater a corrupção”.

A propósito

Nem podia ser diferente. Bandidos e corruptos detestam polícia (que os investiga), promotor de Justiça (que os denuncia), e juiz (que os condena). Normal! No caso dos corruptos, a Operação Lava Jato decerto acumulou muitos inimigos, levando à cadeia gente poderosa, acostumada à impunidade. Por essa razão, por já terem sido condenados ou por estarem sendo investigados ou, por medo de ainda serem descobertos, contam as horas para o fim da operação. Função do testa de ferro Aras.

 Um enredo pobre e falso

A nova onda de críticas, reações e ofensivas contra a mais notória força-tarefa de combate à corrupção já montada no Brasil une, como exposto acima, o presidente Bolsonaro, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e o procurador-geral da República, Augusto Aras. Bolsonaro, como deputado, nunca deu a mínima para combater a corrupção, enfiou a família toda na política, enriqueceu graças a ela, praticou toda sorte de petecagem miúda, de repente virou o “capitão” que ia banir malfeitores. Um enredo pobre e falso como uma nota de R$ 200, mas muita gente embarcou na fantasia. Com Moro fora do barco, o lavajatismo virou a única forma capaz de enfraquecer o “Mito” e criar um adversário poderoso.

Jogada ensaiada

De quebra, a saída de Moro coincidiu com a chegada dos novos (velhos) amigos do Capitão, aquelas figuras mais carimbadas do antes demonizado Centrão, o seguro anti-impeachment tão sonhado. Réus, condenados, ex-presos, investigados, cabe todo mundo no barco. E, numa jogada ensaiada, aguardam um acordão com o Supremo, para que as ações que lá tramitam dormitem, se possível para sempre. Basta ver as decisões de Toffoli no recesso do STF. Em quatro semanas, ele mandou a Lava Jato compartilhar informações com Augusto Aras, suspendeu buscas e duas investigações contra o senador tucano José Serra, arquivou três inquéritos contra ministros do STJ e do TCU abertos a partir da delação de Sergio Cabral, suspendeu depoimento de Aécio Neves e dissolveu a comissão de impeachment do governador Wilson Witzel no Rio. Outro bastante ativo no recesso, e pra lá de destemperado, foi Aras, que se lançou contra a Lava Jato e ainda assumiu ares de ditador no MPF, investindo com grosseria contra colegas na reunião do Conselho Superior do Ministério Público Federal.

O corrupto e o desonesto

Corrupto e desonesto. Duas palavras com significados diferentes que, no âmbito político, caminham, infelizmente, lado a lado, numa perfeita harmonia e união, gerando consequências desastrosas para a sociedade, independentemente da classe social. Como exemplo, cite-se dois protagonistas do pleito eleitoral, seja ele municipal, estadual ou federal: o “candidato corrupto” e o “eleitor desonesto”.

Candidato corrupto

Salvo as respeitáveis exceções, as principais características que qualificam e evidenciam o “candidato corrupto” são: ausência de propostas de trabalho concretas para o cargo pretendido; abordagem ao eleitor sempre ladeada de ofertas indecorosas (compra de voto); promessas estapafúrdias; acordos políticos que comprometem a lisura e, principalmente, a independência no exercício do mandato; sempre diz SIM, mesmo sabendo que não poderá honrar com o compromisso futuro.

Eleitor desonesto

Embora não seja a maioria, o eleitor desonesto acaba fazendo a diferença numa eleição, e suas principais características são: faz ao candidato pedidos individuais/particulares, deixando de lado os interesses da coletividade, adora ouvir SIM, mesmo sabendo que não conseguirá ser atendido devido ao pedido ser contrário a atribuição do mandatário, requer vantagem financeira para declarar apoio na campanha (desde colocar adesivo no carro), exige que lhe pague combustível e, por fim, acaba fazendo o acordo também chamado de “fechamento”, com aquele que oferecer a proposta mais vantajosa. Ou seja, não importa quem e sim a quantia recebida, ou nem isso, geralmente vota no último que lhe compra e paga o voto.

Consequências

Enquanto não houver uma conscientização, interesse da sociedade de bem em acreditar que é possível eleger pessoas confiáveis, honestas, sinceras, capazes de cumprir com as suas obrigações inerentes ao cargo que lhe fora conferido nas urnas, o Município, o Estado e o País continuarão sendo palco de escândalos protagonizados por corruptos transvestidos de representantes do povo. Povo este que, por sua vez, nas campanhas eleitorais, busca resolver momentaneamente a sua vida e esquece que, aquele que vende o seu voto, acaba perdendo, no futuro, o direito de cobrar providências na área da saúde, moradia, emprego, agricultura, segurança pública, educação, saneamento básico, água tratada, Iluminação pública, e tantos outros.

Violência em campanhas

As campanhas eleitorais de 2012 e 2016, na Região Celeiro, foram marcadas por inúmeros conflitos violentos, inclusive com tiroteios e morte em alguns municípios.

Retrospecto 2012

Em Santo Augusto, durante a campanha eleitoral de 2012, além das constantes ameaças, foram vários casos de disparos com armas de fogo em veículos e em residências de adversários; candidatos a prefeito, vice, vereadores e militância de um dos segmentos políticos foram ofendidos e ameaçados com armas de fogo em riste quando faziam campanha. Em São Valério do Sul, um candidato a vereador foi agredido fisicamente e teve seu veículo danificado a pedradas; um candidato a vice-prefeito quando estava ao volante do carro foi alvejado com um disparo de espingarda que atingiu a coluna esquerda do veículo e por pouco não lhe atingiu em cheio.

Retrospecto 2016

Na campanha eleitoral de 2016, em São Valério do Sul, o então prefeito (que não era candidato), num início de noite quando dirigia o automóvel oficial do gabinete foi alvo de disparo de arma de fogo que atingiu o veículo; um cabo eleitoral foi alvo de quatro disparos de arma de fogo que atingiram a camioneta que dirigia. Em Redentora, um candidato a prefeito que fazia campanha foi perseguido por indivíduos fortemente armados; num outro dia, o mesmo candidato a prefeito que se fazia acompanhar do vice foi impedido de transitar no interior do município. Em Bom Progresso, dois grupos políticos rivais travaram intenso tiroteio em via pública. Em Inhacorá, um candidato a vereador foi alvejado a tiros quando fazia campanha no interior, tendo seu veículo sido atingido com três disparos. Em Coronel Bicaco, um veículo ocupado por militantes políticos que faziam campanha foi alvejado com disparos de arma de fogo, onde um dos ocupantes foi atingido. Em São Martinho, numa emboscada, por motivações políticas, um militante político foi assassinado a tiros no interior do município.

Por que o retrospecto?

Essa retrospectiva sobre os atos violentos durante campanhas eleitorais passadas visa a reflexão sobre o objetivo de uma campanha eleitoral, qual seja, “levar propostas de governo e conquistar a simpatia do eleitor e seu voto, de forma livre, espontânea e civilizada”. “Jamais com violência”. O voto de cabresto não existe, e quem tentar impor vai responder pelos seus atos. As consequências da violência são traumáticas, desagradáveis, e quem a cometer pode ser preso, vai ser investigado e indiciado na polícia, vai responder processo na justiça e pode ser condenado a cumprir pena. Mas não é só ele, as consequências se refletem na sociedade como um todo, na família, na credibilidade dos políticos que têm o dever de orientar sua militância. Que tal políticos e militância agirem civilizadamente na campanha que se avizinha. Pense nisso.