Nem um, nem outro

Diante da irreversível polarização entre Bolsonaro e Lula, o eleitorado brasileiro que não apoia nem um e nem o outro, estará numa saia justa no segundo turno da eleição presidencial de 2022. Votar em branco ou anular o voto, apesar de não ser a melhor solução, poderá ser a tendência do eleitor. Pessoalmente, penso que não podemos nos omitir, devemos participar, mesmo a contragosto, escolher o menos ruim. Aí será necessário analisar quem é Lula e quem é Bolsonaro. Lula, por exemplo, é a gênese do maior esquema de corrupção da história do País; Bolsonaro, decepcionou seus eleitores não cumprindo promessas de campanha, aliás, fez o contrário do apregoado, e como governo contribuiu para o fim da Lava Jato e o não combate à corrupção.

Aliás

Além da corrupção liderada por Lula, os governos petistas procuraram minar a democracia para transpor o umbral autoritário. Só não o conseguiram porque veio a Lava Jato, com o destemido juiz Sergio Moro. Quem não se lembra da “herança maldita”, que Lula apregoava logo que assumiu a Presidência para marcar terreno e iniciar o “nós contra eles”, que dividiu a Nação até hoje?

Também vale lembrar…

Em 2018, em plena campanha eleitoral, Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que o Centrão jamais faria parte do seu governo e, na ocasião, aproveitando o ensejo, o hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, berrava: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. Por outro lado, Ciro Nogueira (PP) chamava Bolsonaro de fascista e optou por apoiar a “tigrada” petista, na pessoa de Fernando Haddad, para a Presidência. Acontece que o tempo passou, as coisas mudaram e hoje Ciro Nogueira, do Centrão, aos beijos e abraços com Bolsonaro, se tornou o novo ministro da Casa Civil. Assim, não se grita mais “Pega ladrão”, no Palácio do Planalto.

Terceira via

O impossível não pode acontecer, claro. Portanto, a propalada terceira via para a Presidência da República em 2022, poderá até existir, mas não vai decolar. Os nomes até agora ventilados (Ciro Gomes (PDT), Luiz Henrique Mandetta (DEM), José Luiz Datena (PSL), Simone Tebet (MDB), João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB) não decolam. Deles, o único, apesar dos pesares, embora ainda não seja conhecido o suficiente no País, que poderá deslanchar é o governador Eduardo Leite. Tem discurso, sabe lidar com diplomacia com outros partidos, inclusive de oposição, tem bom histórico político. Afora isso, os únicos cartuchos para uma terceira via seria o ex-juiz Sergio Moro que, apesar do potencial para vencer as eleições, creio que não vá se aventurar concorrer. E, finalmente, o general Mourão, que também tem potencial para ir para o segundo turno e, se for com Lula, arrebanha os votos dados a Bolsonaro.

Bolsonaro e PMs se afagam

O presidente Jair Bolsonaro, no mês de junho último, intensificou a troca de afagos com as polícias militares, segmento que exerce forte influência para alavancar a sua campanha à reeleição. Entre as articulações está a isenção do IPI de automóveis, créditos imobiliários e promessa de uma nova lei orgânica da PM e da Polícia Civil. Assim, Bolsonaro busca garantir por todas as frentes o apoio dos policiais militares. Dia 9 de junho, em Anápolis/GO, Bolsonaro foi a um fórum com 44 entidades do setor que, entre outras atividades, buscou treinar agentes para a missão eleitoral. Além de mais um mandato para presidente, o grupo pretende ao menos dobrar os 34 policiais e bombeiros militares eleitos em 2018 para cargos na Câmara, Senado, Assembleias Legislativas e Governos Estaduais.

Gaúcho lidera a entidade

A Associação Nacional de Entidades Representativas de Policiais Militares e Bombeiros Militares do Brasil (ANERMB), principal núcleo da rede de policiais em volta de Bolsonaro, é presidida pelo gaúcho, sargento Leonel Lucas de Lima. “Para nós é uma honra estarmos aqui com o senhor dizendo que os policiais militares e os bombeiros militares, que fizeram a campanha do senhor, continuamos acreditando no seu trabalho”, disse Lucas ao presidente no evento em Anápolis. A ANERMB se consolidou como a maior entidade de militares estaduais. Em três anos, ganhou cerca de 50 mil filiados e alcançou 200 mil policiais e bombeiros inscritos. Nós militares, com nossas famílias, demos 18 milhões de votos ao presidente. Deixamos claro a ele que em cidades que ele nem sabe que existe teve votos por causa dos PMs”, frisou. “Está na hora de a gente ser reconhecido pelo que fez”, cobrou Leonel Lucas.

Benesses previstas

As demonstrações de sintonia da ANERMB foram retribuídas por Bolsonaro que, dois dias depois do evento, anunciou a criação do programa de governo para crédito imobiliário a policiais e bombeiros. E mais, no começo de julho, deputados bolsonaristas aprovaram em comissão na Câmara projeto que zera o IPI de automóveis adquiridos por profissionais da segurança pública. A benesse está sendo justificada pela base governista como valorização dos policiais. Segundo o autor, deputado Fábio Reis (MDB-SE), seria um modo de expressar a “gratidão que o País sente pelo policial”. O relator, Carlos Jordy (PSL-RJ), disse que é “o mínimo de reconhecimento” aos policiais, que vivem “uma espécie de sacerdócio” e foram “tratados como inimigos da sociedade nos governos do PT”. E não é só, disse: A base bolsonarista se prepara para votar até o fim do ano os projetos de lei orgânica das Polícias Militares e da Polícia Civil. A primeira versão da proposta prevê que a escolha dos comandantes-gerais das polícias militares estaduais, nomeados pelo governador, se daria a partir de uma lista tríplice formulada pelas próprias corporações.

Extintas as ferramentas anticorrupção

Nos últimos tempos, enquanto a Lava Jato começava a sofrer uma série de golpes, seja em sua estrutura, seja com questionamento judicial de condenações, também foram ameaçadas, ou simplesmente eliminadas, várias das ferramentas utilizadas, o que torna mais difícil repetir no futuro uma operação tão audaciosa e bem-sucedida em identificar e conseguir a prisão de políticos e empresários de alto escalão.

Quais ferramentas?

São, basicamente, seis ferramentas que já foram de extrema utilidade no combate à corrupção. Força-tarefa: As forças-tarefas da Lava Jato, tanto da Polícia Federal quanto do Ministério Público Federal, não existem mais; Prisão em segunda instância: Não existe mais. O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu declarar a inconstitucionalidade da prisão após condenação em segunda instância; Condução coercitiva: Não existe mais. O STF decidiu, por seis votos a cinco, que é inconstitucional o uso de condução coercitiva de investigados ou réus para fins de interrogatório; Julgamento de caixa 2 eleitoral na Justiça comum: Não existe mais. O STF decidiu que casos de caixa 2 eleitoral são responsabilidade da Justiça Eleitoral; Delações premiadas: Alterada na Câmara dos Deputados em 2019, o projeto ainda não foi aprovado na forma definitiva, mas há pressão no Congresso para dificultar as delações; Foro privilegiado: Ameaçado. Já aprovado pelo Senado, o projeto que dá fim ao foro privilegiado dorme em berço esplêndido na Câmara dos deputados, sem ser votado.

Corrupção, o mal do Brasil

Embora o Brasil seja considerado pobre, recursos não faltam, pois temos um solo fértil, pedras preciosas, petróleo, pré-sal, um excelente solo e clima para plantações, além de um território extremamente extenso que propicia diversidade na produção de inúmeros itens. E por que diante de todos os aspectos favoráveis o Brasil ainda é considerado um país de terceiro mundo, com analfabetismo, pobreza extrema, falta de tratamento de esgoto e água encanada, uma educação de péssima qualidade, um sistema de saúde equiparado ao caos e uma imensa falta de segurança pública? Simples. É porque a corrupção e a má gestão pública não deixam. Esses são os dois grandes e principais motivos. Foi constatado que a corrupção desvia por ano no Brasil R$ 200 bilhões, valor que equivale a quase três vezes o orçamento da educação e da saúde, e a cinco vezes o da segurança pública. Essa corrupção que enlameia o nosso país nos leva a crer que o interesse mesmo não é o bem do Brasil, mas em seus bens.

Comece a refletir

Nos dias de hoje, de frustração total, em que o maior escândalo de corrupção da história do país embarca na vala comum da impunidade, precisamos que cada brasileiro tome para si a responsabilidade do combate à corrupção. Não queremos que a sua memória sobre os bilhões de dinheiro público desviados ou surrupiados seja corrompida por uma nova narrativa que políticos condenados estão tentando construir. Não queremos que os bandidos sejam transformados em mocinhos e possam ter de volta o poder de mandar no país. Afinal, você vai deixar?

Vai aguentar o tranco?

Quem sabe. Ainda tem muita água para rolar. As inquietações, nervosismo e acusações de opositores em cima de Bolsonaro sinalizam claramente que estão com medo, percebendo a chance real de Jair Messias reeleger-se. O resultado do próximo pleito quem vai determinar será a economia. A história assim nos ensina. Se em abril ou maio de 2022 as pesquisas (as boas) mostrarem vantagem razoável de Jair Bolsonaro, Lula não entrará na disputa. Ele sabe como poucos que o fator determinante para se eleger presidente passa pela economia. Se as previsões se confirmarem e o Brasil passar para uma fase de crescimento acelerado, com geração de emprego e renda, a tendência natural é de manutenção do ocupante do Palácio do Planalto. Se sentir cheiro de fracasso, Lula vai encontrar uma desculpa qualquer, para não passar a imagem de fujão. Vai alegar idade avançada, cuidar da saúde, coisas assim. Aguardemos.

A propósito

Quem está contra Bolsonaro? A esquerda, naturalmente, mais a grande imprensa (mordida por questões do fim das benesses), o STF, o G7 da CPI da covid-19, e um baita contingente de ex-aliados, que se elegeu em 2018 por estar ligado ao bolsonarismo e graças a ele. Até acho que não é o desespero para eleger o Lula, mas para tirar o Bolsonaro.