Não privatizar foi engodo

O governador Eduardo Leite surpreendeu a todos com a disposição de privatizar a Corsan. Por quê? Porque durante a sua campanha em 2018, ele se comprometeu formalmente, inclusive com comerciais na TV, que não privatizaria a CORSAN e o Banrisul. Tal promessa, inclusive, foi determinante para sua eleição, vez que atraiu votos até da esquerda como do PT e do PDT no segundo turno, em oposição a José Ivo Sartori. Fica claro que o privatizar a CORSAN não é uma medida que Eduardo Leite toma com vistas à política interna do Rio Grande do Sul, mas um recado que manda para o mercado financeiro nacional. Leite busca projeção nacional, apresentando-se como um possível candidato a presidente da República, ou vice do PSDB em 2022. E com a efetivação da privatização que se comprometera a não fazer, deixa claro ao mercado e aos financiadores de campanhas nacionais que segue a cartilha privatista sem receio algum, e que, se chegar lá, vai rifar a Petrobrás, Caixa e tudo mais que puder.

Justificativa enganosa

Para uma medida polêmica como a de privatizar a CORSAN, é preciso justificativa coerente e convincente. No entanto, o discurso do governador para justificar tal privatização está eivado de mentiras e meias-verdades, sustenta a estatal, enfatizando que a CORSAN é uma empresa eficiente e lucrativa, tendo, nos últimos dez anos, apresentado um lucro de R$ 10,9 bilhões. E mais, é curioso que um ano atrás o governador se dizia entusiasmado ao firmar a PPP (parceria público privada) com o Consórcio AEGEA para atuar na Região Metropolitana e traria R$ 1,4 bilhão de investimento privado para o setor. E, agora, apenas um ano depois, diz que a empresa não consegue atrair investimentos. E mais, a União deve bilhões à CORSAN. Para que vendê-la? Para dar este presente aos futuros acionistas privados? Pior, o fim da CORSAN afetará mais pesadamente os pequenos municípios e a população pobre.

A propósito

Os dois últimos governos gaúchos, segundo relato de setores da CORSAN, deixaram de utilizar mais de 650 milhões de reais de recursos do PAC, a fundo perdido. Portanto, deixaram de usar dinheiro público, a custo zero, para buscar dinheiro privado. Ou seja, para viabilizar a PPP. No entanto, um ano depois abandonaram a PPP e querem vender a empresa. Ato semelhante à sabotagem. Primeiro se sucateia, depois diz que não presta e tem de vender.

Municípios sem acesso asfáltico

No Rio Grande do Sul, 62 municípios ainda não têm acesso asfáltico e sofrem com poeira, buracos e dificuldades econômicas. Entre eles, alguns aqui na nossa vizinhança como Nova Ramada, Sede Nova, São Valério do Sul e São José do Inhacorá. Além disso, várias rodovias carecem de reparos e restauração urgente, como a RS-571 que demanda da RS-155 à cidade de Chiapetta. O secretário de Transporte e Logística do Estado, Juvir Costella, diz reconhecer a problemática, mas faltam recursos para atender todas as situações. Quanto aos municípios sem asfalto, segundo o secretário Juvir, nos últimos meses foram concluídos 11 acessos, oito estão com as obras adiantadas e seis já contam com recursos no orçamento e projetos aprovados para começar os trabalhos. São 25, e nenhum deles contempla os municípios supracitados. Portanto, sem projeto e sem orçamento, esperar o quê? Por ora, absolutamente nada.

Quanto a RS-571

Relativamente à restauração da rodovia RS-571, embora não haja projeto e orçamento para sua efetivação, ainda é possível de ser conseguido para breve, haja vista a pressão e empenho muito forte do prefeito Eder Both perante o governo do Estado. Mas só se for no canetaço. O governador Eduardo Leite, dentro de suas prerrogativas, poderá remanejar recursos financeiros e assinar ordem para início da restauração. Urge!

Eleição 2022 para governador

Falta menos de 11 meses para quem quiser concorrer nas eleições de 2022 se filiar ou trocar de partido, definir o domicílio eleitoral e, no casso de secretário e ministro, deixar o cargo para concorrer. Quanto ao governador Eduardo Leite, se quiser concorrer a presidente, vice ou qualquer outro cargo que não seja a reeleição, “terá de renunciar ao mandato”. Se renunciar, assume o vice, Ranolfo Vieira Júnior, que sonha em ser candidato a governador, decidido a sair do PTB e filiar-se ao PSDB. Outros possíveis nomes ao governo, dependendo de possíveis coligações, podem ser citados: Alceu Moreira e Gabriel Souza, do MDB; Luís Carlos Heinze, Jerônimo Goergen e Ana Amélia Lemos, do PP; Onyx Lorenzoni (DEM); Edegar Pretto e Paulo Pimenta, do PT; José Paulo Cairolli, sem partido; Romildo Bolzan (PDT), entre outros. Não se pode descartar, ainda, o vice-presidente da República General Hamilton Mourão (PRTB). Quanto ao deputado Jerônimo Goergen, seu sonho principal é concorrer a senador.

 MST aposta no retorno de Lula

Acabou a mamata – Vitaminados por verbas públicas, eles antes reuniam milhares de manifestantes

 O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) já começa a se assanhar e até apostar no retorno de Lula à presidência da República. É que já vai longe o tempo em que o MST ocupou um espaço de destaque no cenário nacional. No governo de Fernando Henrique Cardoso, o movimento, que dizia lutar pela reforma agrária, promoveu uma sequência interminável de invasões de propriedades rurais e prédios públicos, que, logicamente, obedecia a critérios políticos. Nas gestões petistas, o MST conheceu as maravilhas da vida de quem tem acesso privilegiado às verbas públicas. Só na gestão de Dilma Rousseff, associações ligadas ao movimento receberam R$ 106 milhões em repasses da União, o que ajudou financiar grandes manifestações. Como detentor da chave do cofre, o PT cobrava a devida contrapartida e fez do MST um instrumento de disputa política a serviço do partido, cujos dirigentes, em mais de uma ocasião, ameaçaram colocar “o exército vermelho” dos sem-terra nas ruas ou nas fazendas para constranger adversários. Esses tempos de glória acabaram. No governo de Jair Bolsonaro, que assumiu a presidência prometendo que “nossa bandeira jamais será vermelha”, o movimento perdeu a capacidade de mobilização, perdeu os recursos financeiros e praticamente saiu de cena.

Manipulação política

Vangloriando-se, o presidente Bolsonaro diz que houve apenas cinco invasões de propriedades em seu primeiro ano de mandato, ante uma média de 258 invasões nos anos iniciais dos mandatos de Lula e Dilma e Fernando Henrique. A perda de força do MST aconteceu pela dificuldade financeira e pelas medidas incentivadas pelo governo Bolsonaro, como viabilizar que fazendeiros se armem e se sintam estimulados a reagir a tentativas de invasão de suas propriedades; e a distribuição de títulos de propriedade de terra a assentados. Neste item, o líder do MST, João Pedro Stédile deu seu pitaco: “Eles estão tentando cooptar a nossa base, entregando título de propriedade, com a ilusão de que aí vão ser pequenos empreendedores, para induzi-los na primeira crise a vender”. Ora, reclamar disso mostra que, na verdade, a principal preocupação dos líderes do MST é a manipulação política, e não a vida dos agricultores. É por isso que a principal aposta do MST agora é defender a volta do Lula ao poder.

Nem todos são pelegos

A aposta na redenção por meio dos petistas faz sentido, já que a cúpula do MST sempre recebeu privilégios do partido. Porém, já há dispersão. Hoje, cresce os acampamentos da Frente Nacional de Luta (FNL), entidade que abriga ex-líderes do MST que não concordavam com o alinhamento do movimento ao governo petista. Largamos o MST porque não concordamos com o apoio do movimento ao PT. Não nascemos para que partido político venha nos direcionar, diz Cláudio Oliveira, que militou por mais de duas décadas nas fileiras do MST e hoje é um dos coordenadores da FNL.