Avessos à transparência

Há duas semanas, o jornal da cidade de Tenente Portela publicou os gastos com diárias dos vereadores daquele município, relativas ao ano anterior (2021), cujos dados extraiu do Portal de Transparência da Casa Legislativa. O jornal apenas prestou um serviço à comunidade divulgando os gastos do dinheiro público por aqueles que a representam. Estranhamente, na sessão de 11 de abril, mostrando-se avessos à transparência e ofendidos, alguns edis fizeram discursos veementes com fortes críticas ao jornal e seu editor-chefe pela publicação dos valores gastos com diárias no ano passado. Um dos vereadores disse que as diárias gastas por ele foram bem empregadas uma vez que trouxe recursos através de emendas parlamentares e lhe proporcionaram a aquisição de conhecimento para melhor desempenhar a função. Outro, disse não entender os motivos para a divulgação do valor gasto com diárias, e que o valor, o gasto, proporcionou melhorar seu conhecimento para o desempenho da vida parlamentar, uma vez que ele não é de berço político.

Reação suspeita

É comum, principalmente no interior, os jornais divulgarem uma resenha dos gastos feitos com diárias de vereadores de uma ou mais cidades da região de sua circulação, relativo ao ano anterior. Estes gastos são de domínio público, é dinheiro do contribuinte, não sai do bolso do vereador, tanto é que, por lei, são despesas que devem constar no portal da transparência que a Câmara é obrigada a manter. Como a população em geral não tem o hábito de consultar o portal da transparência, os jornais se dispõem a divulgar tais gastos no intuito de prestar a informação a seus leitores de como os vereadores estão gastando o dinheiro público. É estranha essa reação dos vereadores que se manifestam contrários e se sentem ofendidos pela divulgação de seus gastos com diárias. Beira a suspeição. Afinal, teriam eles alguma coisa a esconder? É como diz o próprio jornal portelense: Para quem não tem nada a esconder estranha-se o fato de os vereadores criticarem a publicidade e preferirem manter os dados escondidos no pouco acessado portal da transparência, fazendo uso de um nefasto costume, da política ultrapassada, onde se apedreja o mensageiro ao invés de questionar a mensagem.

A propósito

Eu questiono dois pontos que os vereadores sempre usam como justificativa de seus gastos com diárias: 1) curso para adquirir conhecimentos; 2) buscar recursos para o município. Ora, curso é investimento em qualificação pessoal, não pode ser pago com dinheiro público. Creio que a preparação (conhecimento) deve ocorrer antes do cidadão ou cidadã buscar a vaga de vereador, ou seja, quando assumir como vereador ele já deve estar preparado. Caso queira fazer algum curso, que o faça, mas arque com os custos. E, com relação a buscar recursos, chega ser risível. Isso não é função do vereador. E mais, com a tecnologia hoje existente, ninguém precisa estar viajando para manter seus contatos e encaminhar pedidos. Disse um dia o veterano vereador Horácio, quando era presidente da Câmara de Santo Augusto: diária para vereador nada mais é do que “engordar salário”.

São muitas histórias

Histórias sobre diárias dos vereadores tem aos montes. Eles querem gastar, mas não querem que a população saiba. Certa feita, o então vereador Tito Livio, de Coronel Bicaco, legislatura 2017/2020, protocolou na Câmara proposição no sentido de que todas as despesas denominadas “diárias” fossem justificadas pelo vereador postulante, para aprovação ou não pelo plenário. O pedido visava apenas que o vereador “justificasse, antes de ser autorizada a diária, a necessidade da realização da despesa e aonde estaria o interesse público na geração daquela despesa”, porque a comunidade tem o direito de saber onde está sendo gasto cada centavo que sai do seu bolso. Deu o óbvio. Colocada em votação, a proposta foi rejeitada por seis votos contrários, uma abstenção e um a favor. É assim que acontece, se acham donos. Só que o dinheiro gasto com diárias não é deles, é do contribuinte. Não pode ser gasto ao bel prazer dos vereadores. Tem que ter justificativa, e justificativa convincente.

Diárias dos vereadores

Durante o ano de 2021, primeiro ano da presente legislatura, os vereadores de Santo Augusto gastaram R$ 22.864,00 em diárias, segundo o que se verificou no Portal da Transparência da Câmara Municipal. Ederson Fucilini – Tomate, gastou R$ 6.810,00; Cesar Paulo Philipsen – Bugiu, R$ 2.010,00; Glades de Fátima Vaz Bertollo, R$ 2.610,00; Joel Antunes da Rosa, R$ 2.250,00; Maicon Maurício Lopes, R$ 2.010,00; Maurício Duarte da Silva, R$ 2.250,00; Maxiliano Bahry, 2.160,00; Omar Ângelo Santi, R$ 2.764,00.

Desistência de Lula

São cada vez mais frequentes os rumores de que Lula desistirá da sua candidatura presidencial. Sua intenção, na qual acreditam inclusive próceres do PT, é passar o bastão para Fernando Haddad na hora certa, eis que o eleitorado de classe média resiste a votar nele (Lula), em razão dos processos e das múltiplas acusações de corrupção, tráfico de influência, quadrilha, prisão, etc. Na cúpula do PT já montam a justificativa para a provável desistência, atribuindo a promessa feita por ele à sua mulher ao ser solto da cadeia, que não seria candidato. Fraca a justificativa. Se de fato está sendo ventilada possível desistência, os motivos devem ser outros. Ou Lula está vendo a eleição perdida para Bolsonaro, ou está com medo de enfrentar o povo nas ruas.

Cenário embaçado à direita

Uma verdade sobre as eleições estaduais no Rio Grande do Sul que gostamos de falar e até enaltecer, é que o gaúcho gosta da rotatividade. Desde a volta da eleição direta, em 1982, nunca reconduzimos um governador ao cargo. A outra realidade é que nos últimos anos o eleitorado tem se inclinado à direita – ou ao menos rejeitado a esquerda. Embora vitoriosos nacionalmente, Lula e Dilma Rousseff perderam aqui no estado em 2006, 2010 e 2014, sempre para o PSDB. Em 2018, Jair Bolsonaro, se dependesse da vontade dos gaúchos, teria sido eleito no primeiro turno – teve 52,6% contra o petista Fernando Haddad. No segundo turno, levou dois de cada três votos, o que alçou o bolsonarismo a uma das principais forças por aqui. Nas eleições deste ano, os ventos sopram novamente em direção à direita, mas o cenário ficou embaçado pelo racha entre duas candidaturas: do ex-ministro Onyx Lorenzoni (PL) e do senador Luis Carlos Heinze (PP), representantes dos dois principais partidos do Centrão, o bloco que sustenta Bolsonaro. Estratégia equivocada e egoísta. Se com a direita unida já é difícil vencer no RS, imagina dividida.

Imagem e semelhança

Mais do que pertencerem à mesma vertente política, Onyx e Heinze são a imagem e semelhança de Bolsonaro. Na adesão ao bolsonarismo raiz, Onyx está bem na frente de Heinze. Como ministro ganhou projeção suficiente que o ajuda a liderar com folga no momento a corrida estadual gaúcha. Tem 20% das intenções de voto, segundo as pesquisas de opinião mais recentes. Concorrente direto pelos votos conservadores no estado, Heinze ainda não passa dos 5% nesses levantamentos, mas aposta em um crescimento rápido. Tem o apoio de duas legendas fortes: o PP foi quem mais elegeu prefeitos em 2020, e o PTB, o quarto. Onyx venceu a primeira batalha em busca de aliados de peso ao trazer para sua chapa o vice-presidente Hamilton Mourão, que tentará vaga ao Senado pelo Republicanos. Por óbvio, membros de ambas as campanhas admitem que o melhor seria a união, mas o acerto é considerado distante.

Esquerda também dividida

A boa notícia para os bolsonaristas gaúchos é que o campo adversário também está dividido. A esquerda tem os pré-candidatos do PT (Edegar Pretto) e do PSB (Beto Albuquerque). O PDT quer lançar o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan. Mais ao centro, o PSDB tem o governador Ranolfo Vieira Júnior. Dentro desse panorama, a tendência é de acirramento nos próximos meses da briga entre Onyx e Heinze para saber qual deles empunhará na reta decisiva a bandeira do bolsonarismo no Rio Grande.

Traição e boicotes

Pré-candidatos a presidente que buscam se colocar como opção de terceira via têm sido alvos de traições e boicotes em série. Com o desafio de se firmar como opção de centro, entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pelo menos três presidenciáveis passaram por algum tipo de revés interno nos próprios partidos, além de não conseguirem deslanchar nas pesquisas de intenção de voto. O ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB), a senadora Simone Tebet (MDB) e o ex-juiz Sérgio Moro (União Brasil) sofrem o que parece ser uma antecipação da cristianização, o abandono por parte de correligionários do candidato oficial de seu partido diante da estagnação. Na verdade, esses partidos não querem saber de terceira via, eles querem sim, que a farra continue, uns preferem Bolsonaro outros preferem Lula. O processo começou lá no nascedouro dessas candidaturas alternativas, fomentando os grupos dissidentes ciosos da própria sobrevivência eleitoral. Principalmente com relação a Sérgio Moro, qual partido, no Brasil, vai querer um presidente com esse perfil? Aliás, esse perfil de dignidade, honradez e decência, não serve, por isso é descartado pelo sistema político.