Reportagem: Alaides Garcia dos Santos

Prédio da agroindústria COOPERCANA

Nos anos 90 e início dos anos 2000 houve uma expansão significativa na criação de agroindústrias familiares no município de Santo Augusto. Foram várias, e a grande parte acabou no insucesso. Entre os empreendimentos, um grupo de agricultores da localidade de Passo da Laje, interior do município se organizou, projetou e no ano de 1997 inaugurou e pôs a funcionar a agroindústria denominada Cooperativa dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Grãos e seus Derivados (COOPERCANA).

A transformação da base produtiva verificada e que foi tomando corpo constituiu-se em importante fator de geração de mão-de-obra, renda e valorização da cultura das famílias rurais. Houve um estímulo ao desenvolvimento de atividades agregadoras de valores aos produtos da agricultura familiar, objetivando inserir, manter e buscar mercados.

As agroindústrias familiares surgiram como alternativas de sobrevivência dos produtores enquadrados na concepção da agricultura familiar, levando a adoção de novos conceitos de produção e abrangência de mercado, concentrando-se no campo da organização, novos valores culturais, novas formas de produção e agregação de renda.  

Embora tivessem tentado concentrar esforços na busca de novas estratégias para se ajustarem à nova realidade, a maioria das agroindústrias instaladas no município acabou na derrocada, embora tivessem alcançado, inicialmente, as expectativas de prosperidade, mas inúmeros fatores contribuíram para o fracasso, entre eles a forma de organização, investimentos realizados, controles administrativos, comercialização.

 

Gestão da agroindústria

Outro fator, podendo-se considerar como um dos mais importantes, que envolve o sucesso ou insucesso das agroindústrias, é a “gestão” dos empreendimentos agroindustriais. Além das dificuldades naturais do homem rural, há a omissão dos gestores públicos municipais e instituições no sentido de preparar os operadores e gerenciadores do empreendimento, queixa-se Elemar Mafalda, tesoureiro da Coopercana. Sem o suporte técnico e administrativo desses segmentos na orientação mercadológica e da gestão, propiciando informação e capacitação, dificilmente uma agroindústria subsistirá, disse. 

 

Elemar Mafalda – tesoureiro da COOPERCANA

O insucesso pela falta do apoio logístico se caracteriza bem nas palavras de Mafalda à reportagem: De início o projeto mostrou viabilidade, só que os agricultores tinham uma perspectiva de retorno rápido, imediato, alguns foram desanimando, desistindo. A produção inicial de aguardente (cachaça) foi de 25 mil litros, depois foi reduzindo para apenas 10 a 12 mil litros por safra. Essa redução, segundo ele, foi por causa da competitividade, o que implicou em queda na comercialização, muito embora o produto fosse de excelente qualidade. 

O produtor sabe produzir, mas não sabe vender, afirma Mafalda, acrescentando que esse foi o caso do insucesso da agroindústria. Então teria que ter segmentos oficiais de apoio para viabilizar o agronegócio, que garantisse: “olha, vocês produzam que nós damos um jeito de vender”. A Emater, e a Secretaria Municipal da Agricultura e o Poder Público como um todo, na verdade, não representam muita coisa na assistência à agroindústria, devia trabalhar mais nessa área, e de repente o produtor também tem um pouco de culpa porque teria de cobrar mais, porque sem cobrança não funciona, sentencia.  

 

Dissolução da agroindústria

Em assembleia geral realizada no final do ano passado, foi decidido pela dissolução e consequente baixa da agroindústria, o que ficou constando em ata. Quanto aos bens (equipamentos) que seria para a Usina de Destilação de Álcool Combustível, pertencentes ao Poder Público Municipal, eu não sei o que vai ser feito, apenas sei que vai ser colocado à disposição da Prefeitura, garante Mafalda.

 

 

Usina para Destilação de Álcool Combustível

 

Colunas para destilação

Em 2008, numa parceria entre a Prefeitura Municipal e a COOPERCANA foi montado um projeto de ampliação do agronegócio implantando no local uma “Usina para Destilação de Álcool Combustível”, o que empolgou o grupo de empreendedores. No final daquele ano, ainda na gestão do prefeito Dody, foi concluído o processo licitatório e os equipamentos para instalação da usina foram depositados no local. A montagem do equipamento e conclusão do projeto coube ao governo seguinte, do senhor Alvorindo Polo. Efetivamente, a empresa contratada montou o equipamento e, para surpresa de todos, uma vez experimentada/testada, “não funcionou”.  Segundo Mafalda, o motivo do equipamento da usina não ter funcionado foi devido à incompatibilidade entre o sistema de produção e o sistema operacional exigido pelo equipamento. Disse, ainda, que inúmeras vezes buscaram solução do problema junto à Prefeitura, mas na verdade todo aquele investimento de cerca de R$ 80 mil foi em vão, o equipamento está instalado, mas ocioso. Elemar Mafalda disse ter sido informado pelo representante regional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que foi ajuizada uma ação indenizatória contra a empresa responsável, mas desconhece o andamento desse processo. A reportagem contatou com o Secretário Municipal do Planejamento, senhor Faustino Kovalski, tendo o mesmo se disponibilizado a pesquisar e dar o retorno sobre possível processo, seu andamento ou conclusão.

 

Passo a passo da agroindústria COOPERCANA

 

Projeto e busca de recursos

No início de novembro de 1997, foi encaminhado por um grupo de produtores do Passo da Laje, Santo Augusto, um projeto liderado pelo então vereador e também produtor rural Luiz Hermozil Correa de Lima, ao FEAPERS, solicitando recursos para a implantação de uma indústria de aguardente (cachaça) e seus derivados, cujos recursos já estariam reservados junto ao BRDE, no montante de R$ 60 mil, assim como o projeto estaria previamente aprovado, tendo em vista que preenchia os principais critérios exigidos, isto é, mercado consumidor comprovado e o emprego de alta tecnologia. No dia 26 de novembro fora firmado convênio em Passo da Lage, entre o grupo de produtores e a FEAPERS.

 

Lançamento da pedra fundamental

No dia 4 de dezembro de 1997, no salão da comunidade do Passo da Laje, foi feito o lançamento da pedra fundamental da agroindústria, contando com a presença do prefeito Naldo Wiegert, o secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado, César Schirmer, o coordenador da Feaper no Estado, Iberê Orsi, o presidente da Câmara Arlei Alves do Amaral, vereadores, secretários municipais e comunidade.

A agroindústria seria construída com recursos do Governo do Estado e do município, totalizando R$ 60.000,00. A administração vem mostrar, com projetos dessa natureza, que através da diversificação de culturas consegue driblar a crise, gerando emprego e aumentando os recursos do município, discursou o prefeito.

 

Inauguração da agroindústria

 

Então presidente Caju discursando, ladeado do prefeito Naldo, presidente da Câmara, demais autoridades e empreendedores da agroindústria.

 

Num domingo, 27 de junho de 1999, foi inaugurado a agroindústria, contando com o prestígio das mais expressivas lideranças do município, além de visitantes e comunidade do Passo da Laje e adjacências.

A estrutura da agroindústria foi projetada para utilizar a cana-de-açúcar como matéria-prima, cuja capacidade de operacionalização alcançaria a produção de 15 mil litros de aguardente primária e bidestilada e cerca de 20 toneladas/mês de açúcar mascavo e rapadura.

O empreendimento resultou da conjugação de forças e de esforços. Foram 8 produtores rurais que se cotizaram em ação e responsabilidade e partiram para a concretização do projeto, a saber: Airton Mafalda, Aparício Mafalda, Ciro Dallemolle, Neri Vender, Darci Francisco Cavalheiro, Vanderlei Júlio Ribeiro, Evaldo Barth e Luiz Hermozil Correa de Lima.

Presente ao ato, o então presidente da Associação dos Produtores da Cana de Açúcar do Rio Grande do Sul, José Delmar de Araújo, trouxe palavras de estímulo, para que todos prossigam investindo nesta admirável obra, sobretudo buscando primar pela qualidade dos produtos, antes da quantidade.

O prefeito da época, Naldo Wiegert, ao pronunciar-se destacou a conjugação de esforços pela concretização do projeto. Hoje, com a participação de todos, a obra está aí, pronta para começar a mudar a vida dos produtores engajados em particular e o município como um todo, festejou.

 

Usina de Destilação de Álcool Combustível

Em 23 de junho de 2008, o então prefeito Dody encaminhou à Câmara de Vereadores o Projeto de Lei nº 31, pedindo autorização para abrir Crédito Adicional Especial, no montante de R$ 80 mil para fazer frente às despesas decorrentes da implantação de uma Usina para Destilação de Álcool Combustível no município, com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em parceria com a Cooperativa dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Grãos e seus Derivados – COOPERCANA LTDA – estabelecida na localidade de Passo da Laje, e firmar convênio de Cessão de Uso Gratuito dos Equipamentos para a implantação da usina, pelo período de 10 anos. Na justificativa o prefeito  ressaltou a importância do projeto, pelo seu objeto, uma vez que a implantação da Usina colocaria o município como um produtor de biocombustível, setor que estaria ganhando destaque no cenário nacional e mundial como uma alternativa de geração de energética limpa e que para o município constituir-se-ia em uma nova alternativa de produção, ampliando as áreas cultivadas de cana-de-açúcar, possibilitando assim mais uma alternativa de geração de emprego e renda.

 

Desperdício do dinheiro público

Apesar de as intenções terem sido boas, o resultado foi jogar R$ 80 mil no lixo, uma vez que o equipamento adquirido e montado pela empresa contratada não funcionou e a COOPERCANA acabou fechando suas portas.

 

Equipamentos que custaram R$ 80 mil e estão ociosos

 

 

Veja mais imagens do complexo COOPERCANA