Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB) participaram de encontro organizado pela Rádio Gaúcha

A manhã desta quinta-feira (6) foi de mais um debate entre os, agora, principais candidatos ao Governo do Estado nas eleições deste ano. O encontro promovido pela Rádio Gaúcha no auditório do Prédio 40 da PUCRS reuniu Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB). De olho nas eleições deste ano, o Sul21 acompanhou o debate, que teve como principais temas o desenvolvimento e o crescimento econômico do Estado, educação e proteção contra cheias.
O programa foi divido em cinco blocos: uma apresentação dos candidatos, um debate candidato x candidato com uma pergunta única proposta pela produção do evento, outro debate entre candidatos com perguntas propostas por entidades convidadas, uma conversa de cinco minutos (2 minutos e 30 segundos de cronômetro para cada um, com uso livre até se esgotar) entre candidatos e considerações finais.
As apresentações mostraram, já de início, o objetivo de cada um ao se apresentar ao público eleitor e suas bandeiras, caso sejam eleitos. Juliana Brizola focou na sua especialização em Segurança Pública, propostas para a educação e sua atuação como parlamentar, além de, como sempre, lembrar que é neta do ex-governador Leonel de Moura Brizola.
Maranata foi por outro caminho. Se colocou alinhado ao povo e próximo das pessoas devido à sua atuação como prefeito de Guaíba entre 2020 e 2026. Tentou se afastar de uma classe política que seria representada pelos seus três adversários, sem parente político ou apadrinhamento de alguém de renome.
Na apresentação de propostas, Brizola e Zucco lideraram o movimento no primeiro bloco. Sobre educação, Juliana disse que não acredita em desenvolvimento econômico sem educação de qualidade, e questionou o quão real é a melhora no índice do Ideb divulgada nesta quarta-feira (5). O candidato do PL entende que o resultado do Ideb foi “maquiado” e chamou a atenção para a saúde mental do professor estadual, abalada por “planilhas, planilhas e planilhas”.
De propostas claras, Zucco prometeu impulsionar o modelo de escolas cívico-militares e os cursos técnicos profissionalizantes. A sua ideia para elevar o patamar desses dois modelos é fazer 20 colégios cívico-militares no território gaúcho e firmar pactos com municípios para garantir a alfabetização adequada. “Nós vamos mudar a realidade da educação no Rio Grande do Sul”, prometeu.
Novamente com Zucco como debatedor, Brizola foi perguntada sobre as estratégias de investimentos em infraestrutura, caso seja eleito. Ela afirmou que a infraestrutura é um gargalo “há muito tempo”. “O Estado não pode ser um entrave pra quem produz, pra quem gera emprego, pra quem gera renda”, avaliou a candidata, que reafirmou não ser contra concessões. O deputado federal destacou a necessidade de uma nova agenda de desenvolvimento econômico com a infraestrutura como base e o foco em mudar a lógica da produção para a lógica do consumo.
Em outra resposta, Zucco também citou projetos para a segurança. Ele listou três problemas em que o RS é “campeão”: feminicídios, número de facções e crimes virtuais. Para os dois últimos problemas, prometeu apresentar um projeto. Para o combate aos feminicídios, disse que criará um departamento exclusivo de combate ao feminicídio e um programa de “tolerância zero” com o agressor de mulher, com o bloqueio de comunicação e das redes do agressor, remoção de arma ou porte e uso de tornozeleira.
Já Marcelo Maranata e Gabriel Souza debateram a estratégia de proteção contra mudanças climáticas. Maranata criticou a demora para saírem as obras no setor público, que “pode ser ágil como a gente é no privado” na opinião do candidato do PSDB, e que a burocracia está “vencendo as pessoas”. Seu foco será a proteção das cidades e a renegociação da dívida para tal, e questionou onde foram parar os R$ 6,6 bilhões da União para essas intervenções. “Eu quero ver uma obra feita com dinheiro do Firece [Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos]”, destacou Maranata.
Gabriel Souza, defendendo o seu governo, ressaltou que projetos como os que estão acontecendo demoram cinco anos para sair e que um exemplo de investimento que Maranata cobrou são as obras de proteção ao Aeroporto Salgado Filho. Souza aproveitou para perguntar se Maranata vai manter o Plano Rio Grande se eleito, sem resposta do outro lado.
A dupla também respondeu sobre planos para tornar o Estado competitivo. Gabriel entende que a melhor maneira de aquecer a economia é o ecossistema de inovação, uma vez o que o Rio Grande do Sul seria o “estado mais inovador do Brasil”, e que irá viabilizar o empreendedorismo. Marcelo Maranata apenas apresentou problemas da gestão de Eduardo Leite (PSD) e criticou a evasão de jovens, afirmando que o Estado “não está bem”.
Nas perguntas de entidades, o presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs), Pedro Hartmann, perguntou a Gabriel Souza e Luciano Zucco sobre o novo ciclo de desenvolvimento e o envolvimento (ou não) do cooperativismo nos planos de governo. Zucco apontou que irá renegociar a dívida com a União e que irá buscar maior participação no Fundo de Participação dos Estados para impulsionar o cooperativismo.
O vice-governador colocou a base desse sistema como foco. O investimento seria na mão de obra mais qualificada com um programa de ensino técnico. “Nós queremos que o jovem gaúcho saia do Ensino Médio com profissão”, comentou Souza.
Júnior Torres, presidente estadual da Central Única das Favelas (Cufa), trouxe o tema do desenvolvimento de favelas, vilas e comunidades no Rio Grande do Sul, questão respondida por Maranata e Brizola. O ex-prefeito de Gauíba prometeu que, na sua gestão, fará duas mil “escolas empreendedoras” para qualificar o trabalho para “ensinar a empreender”. Para ele, o trabalhador não pode achar que “ser motorista de aplicativo é ser empreendedor”.
Juliana defendeu que o Estado esteja mais presente nas comunidades, que acabam tendo sua presença suplantada por milícias e pelo tráfico de drogas. “Quem é que precisa do serviço público? Quem não pode pagar o particular”, pontuou. Disse, ainda, que é necessário um projeto que dialogue com as comunidades, mas não apresentou como ele seria ou funcionaria.

O evento também foi marcado por inúmeros conflitos ou “espetadas” em candidatos ou na base que os apoia. O grande alvo da manhã foi o vice-governador Gabriel Souza, que não apenas está no governo Leite hoje, mas também foi líder do governo de José Ivo Sartori (MDB) de 2015 a 2018. Já Marcelo Maranata pouco se envolveu nos conflitos.
A única vez em que o ex-prefeito de Guaíba se manifestou de forma mais acintosa contra outro candidato foi nas várias vezes em que cobrou o Governo do Estado pela realização de obras de proteção contra cheias e prevenção de enchentes feitas com recursos federais. Disse que gostaria de ver as obras e que até pegaria na mão do vice-governador para que ele fosse levado ao canteiro de obras de uma dessas intervenções.
Entretanto, Gabriel se manteve pouco na defensiva e foi o candidato que mais atacou os adversários. Ao longo do debate, repetidas vezes afirmou que queria “ouvir as propostas” e não “frases que o marqueteiro ensinou”, com apresentação de projetos de governo ao invés de cartas de intenção que, segundo Souza, “até o ChatGPT faria”. “Como melhorar? Quais as estratégias?, indagou o emedebista.
Contra Zucco, Gabriel Souza afirmou que o deputado federal comete equívocos com convicção. Como exemplo desses supostos equívocos citou o debate sobre os números do Ideb e a crítica de uma possível aprovação automática de alunos, o que resultaria em um desempenho melhor para a gestão Leite. “Se está desinformado em um debate da Rádio Gaúcha, imagina com a caneta na mão”, ponderou Souza.
Ele disse que, na rede estadual, os alunos devem fazer uma recuperação das matérias em que foram reprovados antes de progredir oficialmente para uma nova série. O vice-governador ainda mencionou que, nas escolas privadas, o modelo é de dependência — em que o aluno passa de ano e complementa os estudos das disciplinas que rodou de forma paralela — e que isso não foi abordado por Zucco. “Então pra rico tu não tem problema com isso? Aí não tem problema. Pra filho de pobre, não pode. Pra filho de rico, pode”, criticou Gabriel.
Zucco, em resposta, salientou que seu adversário é apadrinhado por Eduardo Leite, tentando colocar Souza quase que como uma segunda versão de Leite ao eleitor que tem problemas com a gestão atual, e que Gabriel repete as mesmas coisas desde o tempo em que foram colegas de Assembleia Legislativa. “O que tu fala eu já sei”, afirmou o candidato do PL em tom jocoso. Em outra resposta, Souza rebateu Zucco, mas Zucco não o chamou mais ao debate quando teve a oportunidade em blocos seguintes.
Esse embate direto entre os dois principais nomes da direita não é novo. Ainda como pré-candidatos, os dois entraram em atrito no debate promovido pelo Correio do Povo, Rádio Guaíba e pela Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal) em junho. Dessa vez, Zucco foi menos agressivo no conflito. Inclusive, por diversas vezes o candidato da extrema-direita usava todo o seu tempo dos blocos de conversas diretas entre os participantes e fazia uma espécie de monólogo, esgotando quaisquer possibilidades de um debate.

Juliana, quando envolvida, ressaltou que Gabriel esteve 12 anos à frente ou próximo do governo estadual e que só agora ele vai começar a fazer as coisas. “Tudo tu vai começar a fazer, tudo vai começar a dar certo [a partir de agora]. Mas são 12 anos”, criticou Brizola.
Além disso, disse que o vice-governador “se acha” e que, na cabeça dele, apenas a sua candidatura tem propostas. Também criticou a capacidade de articulação de Gabriel. Ela destacou que irá conversar com qualquer presidente que seja, mesmo se for Ronaldo Caiado (PSD) — o candidato de Souza ao Planalto — ou Flávio Bolsonaro (PL). “Espero, Deus guarde, que não [seja Flávio]”, comentou.
No primeiro momento de verdadeiro debate entre candidatos em todo o evento, Gabriel e Juliana ficaram mais de dez minutos, em dois períodos distintos, debatendo o trabalho do Governo do Estado. Souza começou perguntando quais programas da administração Leite ela iria manter na sua gestão.
Juliana pontuou que Gabriel “não aceita críticas” e que não fará “terra arrasada”, aceitando manter “tudo que é bom”, citando o RS Seguro como um bom programa. Questionada sobre o Devolve ICMS, também disse que manterá a proposta. E o Todo Jovem na Escola? Brizola também disse que irá mantê-lo, assim como o SUS Gaúcho.
Ao fim desse “checklist” de programas criados na gestão de Eduardo Leite, concordando em manter o Todo Jovem, SUS Gaúcho, Devolve ICMS e RS Seguro, Gabriel Souza perguntou à candidata do PDT: “vai votar em mim?”. O apoio eleitoral foi prontamente negado.
Curiosamente, Juliana Brizola e Luciano Zucco, apontados como líderes nas pesquisas mais recentes, não se enfrentaram à mesma maneira que fizeram com Gabriel Souza. Em alguns momentos, como no debate sobre a infraestrutura do Estado e investimentos nessa pasta, mais se aproximaram do que se distanciaram. A discordância maior se deu no debate nacional, envolvendo Lula e Bolsonaro.
Ao fim do período de debate, nas considerações finais, os candidatos rotularam seus adversários. Zucco, que abriu o bloco final, definiu Brizola como o projeto do “atraso da esquerda” e Gabriel como o projeto do “continuísmo”, e não mencionou Maranata. “O Rio Grande merece mais”, complementou o deputado federal.
Maranata, ausente na rotulagem do escolhido pelo PL no Rio Grande do Sul, reforçou a importância da eleição e que o Estado não tem direito de errar. Seguiu mantendo-se separado dos outros três como um candidato mais próximo ao povo, que conhece a realidade dos municípios ao invés de uma realidade de Câmara e Assembleia, que é a trajetória principal de todos seus adversários no debate.
Gabriel Souza foi o único que não optou por este caminho da adjetivação. Mencionou, o que vem sendo quase que um mote de sua campanha, que ele não é “Eduardo Leite 3” e sim “Gabriel Souza e Ernani Polo 1”, além de avaliar que o Estado está na direção certa.
Fechando o debate da Rádio Gaúcha, Juliana Brizola, representando a frente dos partidos de esquerda, colocou o cenário eleitoral gaúcho em quatro contextos: a candidatura “figurante” de Marcelo Maranata, a candidatura a favor da taxação de Donald Trump que afeta, em especial, o Rio Grande do Sul, com Zucco, a candidatura de “quem está desesperado porque não consegue subir nas pesquisas” de Gabriel e a sua.