Boi lerdo bebe água suja

Faltando pouco mais de 10 meses, exatamente 317 dias, para as eleições municipais programadas para 4 de outubro de 2020, partidos começam a se articular e seus pré-candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereadores buscam visibilidade. De olho na disputa, muitos já se articulam para se organizar, inclusive, na formação de lideranças identificadas com seus respectivos objetivos partidários eleitorais. Aqui na nossa região existe uma cultura um tanto quanto equivocada no que tange à época certa para articular pré-candidaturas, muitos chegam até dizer: nós só vamos iniciar a articular nomes na época certa. Ora, mas qual é a época certa? Isso até pode valer para quem está no exercício do cargo (prefeito, vice e vereadores) e pretende buscar uma reeleição, pois estão com a máquina pública na mão e automaticamente fazem política todos os dias. Para quem não está no poder não há tempo a perder, até porque “quem não é visto não é lembrado”, urge que se articulem, afinal, “boi lerdo bebe água suja”.

Eleições atípicas

As eleições de 2020 serão um tanto quanto atípicas, haja vista que os partidos não mais poderão se coligar nas eleições proporcionais, ou seja, para vereador os partidos só poderão concorrer em chapa própria, com número de candidatos uma vez e meia a quantidade de vagas. No caso dos municípios aqui da Região Celeiro, à exceção de Três Passos, cada partido deverá apresentar 14 candidatos. Isso trará uma imensa dificuldade aos partidos. Eis aí a necessidade de não perder tempo, devem sair logo garimpando possíveis pré-candidatos a vereador. É diferente de quando podia se coligar. Veja: Na eleição de 2016, em Santo Augusto, por exemplo, o número de candidatos, por partido, foi: PP – 6; PDT – 10; PSB, PPS e PSDB, apresentaram um candidato cada; PT – 3; DEM – 3; PMDB – 5. Mesmo coligado, o PP que outrora foi o partido mais expressivo no município, não elegeu nenhum vereador na última eleição, imagina concorrendo sozinho. Diante dessas circunstâncias ouso opinar que hoje, em Santo Augusto, só e ainda têm viabilidade eleitoral o PDT e o MDB, por isso, as lideranças dos demais partidos que agora até como coadjuvantes terão dificuldades, se olhassem pelo viés político/administrativo e futuro do município, tratariam logo e sem vacilo, de fazer uma fusão de modo a formar partido forte e consistente, capaz de competir com possibilidade de sucesso nas eleições de 2020. E não é delírio, podem apostar, os pequenos partidos tendem a desaparecer naturalmente, sem coligação.

A propósito

Com o fim das coligações para vereador, só se elegem os mais votados dentro de seus respectivos partidos, desde que atingidos os quocientes partidário e eleitoral. No caso de 9 cadeiras, num município que obtenha 9 mil votos válidos, o quociente partidário será 1 mil votos. O partido que não totalizar 1 mil votos não elegerá vereador. O quociente eleitoral será 10% desse “mil”, o que é igual a 100. Se o candidato não fizer 100 votos está descartado.

A volta dos líderes

Com o fim das coligações, os vereadores terão a oportunidade de se tornarem verdadeiramente líderes, com votos pessoais, o que pode mudar a relação entre os prefeitos e as câmaras municipais. O vereador não entra mais porque outro candidato fez votos a mais para se eleger. Isso vai dar um novo cenário nessa concorrência. A própria cooptação do prefeito em relação à Câmara vai ser alterada em virtude disso. “Eu tive voto, o voto é meu”. Ele vai barganhar em torno disso. Vão voltar os líderes municipais que deixaram e deixam legado. Não vai ser uma eleição como as anteriores, agora o povo vai votar na pessoa. Com isso, é de se imaginar que novos candidatos e novos partidos tenham protagonismo em algumas cidades, despertando novas lideranças nos mais diversos meios e segmentos da sociedade.

Puxadores de votos

Na prática, o fim das coligações visa evitar que um partido transfira votos para candidatos de outras legendas que não obtiveram votação expressiva apenas por estarem coligados. No entanto, essa “transferência” de votos segue sendo permitida entre candidatos do mesmo partido, o que pode fazer com que lideranças partidárias invistam ainda mais nas campanhas dos famosos “puxadores” de votos. O lado positivo é que “evita que partidos de ideologias completamente diferentes firmem coligações apenas para terem mais cadeiras no Poder Legislativo”. Aliás, isso deveria valer para as majoritárias também. Os partidos são meios de representar os anseios populares e quando se juntam por motivos puramente de campanha, você acaba renegando esse papel partidário. A principal consequência prática da mudança é que os partidos terão que atingir sozinhos, o quociente eleitoral, cuja tendência é que os partidos maiores engolirão os menores.

Corrida será acirrada

Ainda falando em eleição, há décadas acompanho o desenrolar político eleitoral de Santo Augusto e municípios mais próximos. Tenho impressão que nas eleições municipais que se avizinham, se os partidos mais bem estruturados se organizarem em qualidade dos candidatos a tendência é termos disputas muito acirradas e com boas oportunidades de escolha aos eleitores. Além das surpresas, que sempre aparecem, deverão surgir novos nomes e novas organizações partidárias que entrarão no páreo. Com o fim das coligações proporcionais, cada partido precisa correr atrás dos seus próprios votos e, acredito, todos os candidatos vão trabalhar mais do que em outros anos. Contudo, vale salientar que o acirramento que se vislumbra seja através de boas propostas que transmitam credibilidade de nossos políticos, e não aquele velho acirramento da violência, da compra de votos, da pressão e ameaças aos eleitores. Temos sim, que qualificar, mostrar que somos capazes de sermos honrados e honrar.

Partidos políticos e seu papel social

Como fenômeno da nossa democracia, os partidos políticos ocupam uma forte cota nos centros de decisões. É preciso partido político para se chegar de vereador e presidente da República, assim como é preciso partido para que as ideias e opiniões sejam ouvidas por todos. Partido não deve impor posição e nem partidarizar temas que visem o interesse público. Por isso, é preciso que eles próprios se vejam como protagonistas ativos no futuro e não só nas eleições. Imperioso se faz que os partidos ampliem o seu papel social permanente como instrumentos democráticos de peso e com relações estáveis e fortes perante a sociedade envolvendo os mais diversos segmentos. Há muito tempo os partidos não buscam ideias novas para a sociedade. A maior parte deles está desatenta ao fato de que é preciso propor novas formas de organização administrativa e de políticas públicas. O papel dos partidos, no meu modesto entender, deve ser de impulsionar novas ideias e mobilizar a população para a construção de alternativas para a nossa sociedade.

Olha que contrassenso!

Chega ser preocupante o que acontece na maioria dos municípios. Partidos políticos, geralmente coligações de vários partidos, elegem o prefeito, mas não cumprem seu papel, deixam o prefeito desassistido, sem o respaldo necessário, sem o suporte e sustentação para o desempenho da boa gestão. Em decorrência disso, o prefeito fica fazendo do seu jeito ou nem isso, tomando medidas idealizadas por assessores que muitas vezes desagrada os partidos que o elegeram, e aí ao invés de ajudar ficam criticando, atiçando “fogo amigo”. Além disso, em vez de ajudar, esses partidos se acham no direito de pressionar o prefeito exigindo jeitinho, favorecimento a aliados, acomodação de companheiros ou apoiadores, forçando a geração do empreguismo e inchaço da máquina pública, sem critério de capacidade, eficiência e da boa gestão.

Renova Santo Augusto

Em Santo Augusto está em andamento um movimento interessante visando uma grande frente de cunho popular em torno da criação de uma legenda partidária ainda não definida, agregando pessoas oriundas de partidos constituídos no município, e de quem nunca militou em partido algum, com foco nas eleições municipais do próximo ano. É um grupo misto interessante, que congrega empresários do comércio, indústria e agropecuária, profissionais liberais, servidores públicos, esportistas, comerciários, professores, operários, enfim. Reunidas na noite de terça-feira, cerca de cinquenta pessoas debateram os objetivos de se buscar nova alternativa política e administrativa para o município, cujo foco envereda para o setor econômico, ações práticas, reais e eficientes do município para o desenvolvimento comercial, industrial e agropecuário, de modo a viabilizar a geração de emprego, buscando inovações e a boa governança. Na ocasião foi aprovado por unanimidade o slogan: “Renova Santo Augusto”.