Cadê os deputados?
A representação de Santo Augusto na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e na Câmara dos Deputados, que já contou com três parlamentares de forte apelo regional simultaneamente em Porto Alegre e Brasília, acaba por ficar sem nenhum deputado estadual e com um deputado federal, Pompeo de Mattos, apesar de ter transferido seu domicílio eleitoral para Ijuí. Aliás, me permito afirmar que Pompeo não renegará, jamais, seu compromisso com o lugar onde “tem o umbigo enterrado”, como ele mesmo costuma dizer, e, principalmente, onde iniciou sua carreira política como vereador e prefeito. Com a redução da representatividade, o cenário para a legislatura que inicia em 2027 será muito mais centralizado. Sem representantes diretos, a captação de emendas parlamentares federais e estaduais para a saúde, infraestrutura e educação do município demandará uma articulação maior com deputados de fora (os chamados “paraquedistas”). A bancada tripla anterior permitia uma presença cativa e importante nas demandas do município, algo que agora fica restrita a apenas uma voz direta a partir do próximo ano.
Formador de líderes
É importante lembrarmos a trajetória de Santo Augusto e o papel fundamental que teve ao longo da história de formação de líderes que representaram o município em níveis estadual e federal. Desde a primeira eleição estadual em 1835 até os dias de hoje, cinco filhos de Santo Augusto marcaram presença na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, levando as demandas da nossa cidade e região para o centro das decisões do Estado. Foram nomes fundamentais para a construção de políticas públicas que impactaram diretamente a vida das pessoas e o desenvolvimento regional.
Representaram Santo Augusto
Iniciou com Valdir Valter (MDB), deputado estadual de 1971 a 1978, e deputado federal de 1978 a 1983. Na sequência, Alecrides Sant’Anna de Moraes (PSD), deputado estadual de 1983 a 1986; Darci Pompeo de Mattos (PDT), deputado estadual de 1991 a 1998, e deputado federal a partir de 1999, e na eleição deste ano foi reeleito para o 7º mandato; Jerônimo Goergen (PP), deputado estadual de 2003 a 2010 e, deputado federal por três mandatos consecutivos, de 2011 a 2023; Ernani Polo (PP), deputado estadual de 2011 a 2026. A trajetória desses homens reflete o legado político de Santo Augusto. Há que se celebrar o trabalho e o compromisso dessas lideranças com o futuro de nossa cidade e região, do Rio Grande e do Brasil.
E no âmbito regional?
Incrivelmente, a Região Celeiro que já teve três deputados estaduais e dois deputados federais simultaneamente, estará representada, a partir de 2027, por apenas um deputado federal – e sem nenhum deputado estadual. A região lançou um número recorde de candidatos a deputado estadual nas eleições 2026, nove ao todo, mas nenhum se elegeu, talvez motivado pela pulverização de votos. É de se lamentar, porque historicamente, desde 1971, a região contou com representação ininterrupta nos legislativos estadual e federal. Essa queda inesperada da representatividade vai refletir severamente na região.
Representaram a região
Além dos cinco parlamentares de Santo Augusto, como citados anteriormente, a região teve: Adão Pretto (PT), de Miraguaí, deputado estadual, de 1987 a 1990, e posteriormente deputado federal por vários mandatos; Osvaldo Bender (PSD), de Três Passos, deputado federal de 1987 a 1995; Hilário Braun (PMDB), de Três Passos, deputado estadual de 1983 a 1985, e federal de 1987 a janeiro de 1995. Note-se que foram dois deputados federais de Três Passos, simultaneamente. A região contou, ainda, com Zilá Breitenbach (PSDB), de Três Passos, que foi deputada estadual por 16 anos, de 2007 a 2023, e Aloísio Classmann (PTB e agora PSD), de São Martinho, que é deputado estadual há 32 anos, desde 1995, mas agora, na eleição deste ano, não conseguiu se reeleger. Essa nova realidade consolidada para o quadriênio 2027/2030 evidencia o enfraquecimento da representação política regional na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal em comparação a períodos históricos nos quais a região detinha assentos simultâneos.
Consequências
A perda de deputados significa que a Região Celeiro deixará de receber milhões de reais anuais em emendas parlamentares. Recursos essenciais que antes eram pulverizados para a saúde (custeio e investimentos de hospitais), segurança, infraestrutura urbana e compra de maquinários, inclusive agrícolas, sofrerão uma forte retração. Os municípios terão que competir de forma muito mais acirrada com outras regiões por recursos de deputados “forasteiros” que fazem votações majoritárias em outras bases.
Carece de “união regional”
A redução drástica da representação política a partir de 2027 trará impactos diretos e estruturais importantes para os 21 municípios da região. Para mitigar esse cenário, a Associação dos Municípios da Região Celeiro (Amuceleiro) e os prefeitos locais terão que adotar uma postura muito mais técnica e coletiva. A articulação regional precisará migrar da dependência de deputados próprios para a negociação de blocos de votos. Será fundamental atrair parlamentares de fora da região, prometendo apoio político futuro em troca do compromisso formal de destinação de emendas e investimentos para os municípios.
Representação feminina
A partir de 2027, 16 mulheres ocuparão cadeiras na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a maior presença feminina já registrada na história do Parlamento gaúcho. Serão 16 das 55 cadeiras, o equivalente a 29,1% do Legislativo. O número representa um crescimento de cinco deputadas em relação à atual legislatura, que conta com 11 mulheres. Apesar do avanço, as mulheres ainda serão minoria: 39 das 55 cadeiras continuarão ocupadas por homens. É importante frisar que 12 das 16 cadeiras serão ocupadas por deputadas eleitas por legendas de direita. Outro detalhe, das 16 deputadas estaduais eleitas, 11 assumem uma cadeira na Assembleia Legislativa pela primeira vez, serão novatas no parlamento.
Sistema de Lula
O candidato à presidência Lula da Silva (PT) manda dizer à militância que, neste segundo turno das eleições, a ordem é ter “humildade” e se posicionar contra o “sistema” – como se isso bastasse para o eleitor esquecer quem Lula é. A qual “sistema” Lula se refere? O único sistema em vigência no País está, ao que tudo indica, sob sua tutela. Teve início quando o Judiciário anulou suas condenações, determinou sua libertação e abriu caminho para que assumisse a Presidência da República. Prosseguiu com arbitrariedades e com os questionáveis vínculos de ministros do Supremo Tribunal Federal, culminando com um Legislativo acovardado e omisso diante de tamanha promiscuidade institucional. Aliás, se existe um “sistema” que precisa ser urgentemente desmantelado, é aquele que vem sendo conduzido por Lula da Silva.
Assembleia renovada
A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul terá 22 das 55 cadeiras renovadas após as eleições de 4 de outubro. Entre os nomes que não conseguiram se reeleger estão Adolfo Brito (Progressistas), que estava há mais de 30 anos no Legislativo gaúcho, Elton Weber (PSD), Aloísio Classmann (PSD), Rodrigo Lorenzoni (Progressistas), Gaúcho da Geral (Progressistas) e Stela Farias (PT). Apesar de não conquistarem uma vaga, alguns dos candidatos ficaram na suplência. A lista inclui Gerson Burmann, Dr. Tiago e Airton Artus, do PDT, e Pedro Pereira (PSD).
O voto é um mandato
Das urnas emergem, para uns, o amargor da derrota e, para outros, a doçura da vitória. Ler o resultado apenas assim, porém, é um erro grave, porque o placar não traduz toda a complexidade dos sentimentos contidos em cada voto. O voto é um mandato: autoriza o eleito a cumprir as promessas que fez e a governar bem, segundo a orientação que defendeu. A ideologia é apenas a bandeira que opera o primeiro filtro da escolha; não esgota o que o eleitor espera. E o compromisso do eleito não se extingue com a eleição – começa com ela. A legitimidade não se conquista de uma vez por todas nas urnas; precisa ser renovada e assegurada ao longo de todo o mandato, no diálogo permanente com a sociedade.