Mânica aposta que a volta da Expodireto trará fôlego para que o setor consiga atravessar o período de dificuldades
Marcel Horowitz
Após ter a sua edição suspensa no ano passado por conta da pandemia, a Expodireto Cotrijal retorna ao parque de exposições em Não-Me-Toque de hoje até a próxima sexta-feira, 11 de março. Em formato híbrido, o evento terá como foco apresentar tecnologias e inovações para o campo, mas também deverá se tornar palco de debates em busca de soluções para os desafios imposto pela estiagem no Rio Grande do Sul e os seus efeitos na colheita da safra de verão. Confiante na demanda dos produtores após o hiato da exposição em 2021, o presidente da feira Nei César Mânica aposta que a volta da Expodireto presencial, aliada à plataforma digital que permitirá o acesso do público aos ambientes da exposição de maneira on-line, trará o folego necessário para que o setor consiga atravessar o período de dificuldades imposto pela seca.

JC – Esta será a primeira Expodireto a ser realizada de forma presencial desde 2020. O que podemos esperar para a edição de retomada do evento?
Nei Mânica – Suspendemos a edição de 2021 pois estávamos no auge da pandemia do Covid-19. Agora, passado mais de um ano, tivemos a oportunidade de organizar a Expodireto em sua plenitude. Mesmo com este momento tão difícil da questão climática que vivemos no Rio Grande do Sul, faremos uma feira para que os produtores e as pessoas ligadas ao agronegócio possam estar presentes para buscar informações, conferir as novas tecnologias e, também, fazer negócios dentro das possibilidades de cada um. Nós entendemos que todos estão ansiosos para a retomada de uma exposição presencial, e isso é muito importante.
JC – O evento será híbrido. Como a feira se relaciona com as novas possibilidades tecnológicas e de que modo funcionará o formato virtual da exposição?
Mânica – Já havíamos lançado a Arena Agrodigital (infraestrutura circular dentro da feira em formato de arena multipalco, com 1,7 mil metros quadrados e foco em produtos ligados à inovações tecnológicas) em 2020. Neste ano, esse espaço será ampliado e contará com a participação de mais empresas. Além disso, para conseguirmos realizar uma feira em formato híbrido, criamos uma plataforma, a Expodireto Digital. Esta será uma ferramenta muito moderna e dinâmica, através da qual as pessoas poderão ter acesso e navegar dentro da exposição para visitar aquelas empresas que estão ligadas de forma direta à tecnologia digital. Essa plataforma também possibilitará com que o público faça visitações e seja atendido pelos expositores em sua plenitude. Então esta será uma feira híbrida, mas que terá em sua essência as atividades presenciais em que o produtor poderá buscar informações, conhecer produtos e conversas com pessoas do setor.
JC – No evento que lançou oficialmente a Expodireto 2022, o senhor declarou que “são nos tempos difíceis que o produtor mostra o seu brio”, referindo-se à estiagem. Como o retorno da feira pode ajudar o agronegócio gaúcho a superar as dificuldades?
Mânica – A Expodireto funciona como um palco em que o produtor pode buscar informações, tecnologias e oportunidades de fazer negócios. Mas o principal é o fato de que o produtor não pode ficar em casa, se lastimando. Em 2005 também tivemos uma situação parecida (em relação à estiagem), mas conseguimos superar com tranquilidade. Então agora temos que ter consciência das dificuldades, mas também é preciso ter a sabedoria para juntos buscarmos o conhecimento com novas tecnologias e formas de inovação para superarmos estes momentos difíceis.
JC – Em 2022, quais serão desafios os produtores devem enfrentar em consequência da seca?
Mânica – A estiagem atinge não apenas o Brasil, mas também outros países do mundo como é o caso da Argentina. Certamente haverá uma redução da produtividade mundial. Em contrapartida, também estamos vivendo um ano de muitos desafios pois custos de insumos, combustíveis, fertilizantes, equipamentos e máquinas, entre outros, aumentaram expressivamente. O custo de produção estará muito forte para a próxima safra, e isso também será um desafio.
JC – A última Expodireto presencial contabilizou R$ 2,6 bilhões em propostas de negócios durante o evento. Qual a expectativa para este ano?
Mânica – É difícil prospectar esse valor no momento, justamente por conta da estiagem. Contudo, temos adotado como base os números da Show Rural Coopavel, que aconteceu em fevereiro na cidade de Cascavel, no Paraná, e movimentou mais de R$ 3 bilhões. Então estamos confiantes que devem acontecer bons negócios nesta Expodireto também.
JC – Em 2020, a feira contou com a participação de 573 expositores e teve um público de 256 mil pessoas. Quantos expositores e visitantes devem estar presentes no retorno da Expodireto?
Mânica – Até o momento (semana passada), temos 545 expositores confirmados. Em relação ao público, por conta da falta da exposição no ano passado, acreditamos que o número de visitantes deva ser semelhante ao da Expodireto 2020, com cerca de 250 mil pessoas.
JC – Questões relacionadas à água estão na pauta de debates nesta edição da Expodireto. O senhor tem afirmado que a necessidade de se discutir mudanças em relação ao Código Ambiental, quais seriam?
Mânica – Quando em falo em mudanças, me refiro a um aperfeiçoamento do nosso código ambiental em relação à questão das águas. Hoje temos um subsolo, um lençol freático, rico em água e nós pouco podemos extrair deste subsolo. Isso não prejudicaria em nada a natureza. Segundo ponto, durante o ano no Rio Grande do Sul, temos chuvas que variam entre 1,5 mil a 2 mil milímetros, e essa água corre no seu percurso até ir mar adentro. Então, se pudéssemos ter uma legislação florestal com melhorias na questão da retenção da água e que não causasse prejuízo ao meio ambiental, certamente isso seria de grande ajuda ao produtor. O que o Ministério Público faz é cumprir a lei. Cabe a nós, junto com as entidades e com a participação de todos, proporcionar a melhoria deste processo sem prejudicar o meio-ambiente. E isso será possível se houver bom-senso.
JC – De forma prática, quais seriam estas medidas para melhorar o armazenamento de água?
Mânica – O grande foco é podermos ter a possibilidade de fazer açudes e barragens ao mesmo tempo em que preservamos os córregos dos rios e os seus leitos, sem gerar prejuízos para a natureza. Tudo isso é possível sem prejudicar o meio ambiente, pois também sabemos da sua importância e da sua necessidade. O problema do Rio Grande do Sul não é a água, e sim os mecanismos que nos possibilitam a utilização dela.
JC – Como estão as projeções para a Cotrijal neste ano, frente ao cenário de estiagem?
Mânica – Fechamos 2021 com R$ 4,33 bilhões, um crescimento de mais de 75%. Agora, em relação a 2022, o ano em que teremos os impactos da estiagem, uma vez que é neste momento em que vai se colher a menor produção, consequentemente todas as empresas terão uma redução no seu faturamento por falta de produto. Mesmo assim esperamos fazer um bom ano, mas sem dúvida será um período muito desafiador.
JC – Haverá redução no recebimento de grãos?
Mânica – Ano passado, a Cotrijal recebeu quase 15 milhões de toneladas. Mas este ano, com certeza, haverá uma redução de cerca de 50% neste recebimento.
JC – Ainda sobre a pandemia, quais medidas sanitárias serão tomadas na Expodireto?
Mânica – Seguiremos os protocolos de precaução adotados no Estado, como a manutenção do distanciamento social, o uso de máscaras e a utilização de álcool em gel.
JC – Mesmo sem a obrigatoriedade da carteira de vacinação na entrada da Expodireto, as empresas podem cobrar este documento no acesso dos seus espaços?
Mânica – Com certeza. Além disso, teremos dentro do parque os representantes da Secretaria Municipal de Saúde. Uma vez, se for detectado qualquer caso, será imediatamente isolado e conduzido de maneira apropriada. Teremos também unidades de pronto-socorro e ambulâncias para casos de atendimentos rápidos.
Como funcionará a feira da agricultura familiar este ano?
Mânica – A agricultura familiar será mantida da mesma forma do que nas edições anteriores, adaptadas aos protocolos de precaução. Certamente teremos uma grande exposição da agricultura familiar este ano.
Jornal do Comércio