Por Diogo Mainardi

O golpe que está sendo tramado pelos quadrilheiros do Congresso Nacional para cassar os direitos de Sergio Moro estimulou-me a reproduzir uma coluna que publiquei na Crusoé, em 24 de maio:

“Acordei com uma baita vontade de votar em Sergio Moro. Neste momento, ele nem pensa em se candidatar a presidente da República. Está no ostracismo, em Washington, empenhado unicamente em fazer direito o trabalho na empresa que o contratou. Como ele nunca roubou, tem de ralar para se sustentar. Só aparece aqui de duas em duas semanas, com suas colunas na Crusoé.

Eu já disse alguns meses atrás: sou o porta-bandeiras do terceiro bloco. Voto em qualquer um dessa turma. Mas ninguém encarna melhor o terceiro bloco do que Sergio Moro. Ele é o que há de mais distante de Lula e de Jair Bolsonaro. É visto como antagonista de ambos ´e é temido por ambos. Até o ano passado, ele era a pessoa mais popular do país. Agora mudou: uma imensa fatia do eleitorado, composta por lulistas e bolsonaristas, passou a rejeitá-lo raivosamente. Trata-se de mais um trunfo do qual ele pode dispor: a hostilidade pornográfica de uma gentalha que representa o que temos de pior.

A Lava Jato foi carbonizada por Gilmar Mendes e seus parceiros. Depois da passagem dos incendiários, só restaram cinzas. Uma candidatura de Sergio Moro teria de ser erguida, portanto, com outros pressupostos. Quais? Aqueles de uma sociedade menos bananeira, menos selvagem, menos pervertida, menos corrupta. Duvido que isso possa engajar a maioria do eleitorado, mas o Brasil virou uma disputa entre minorias – e a minoria do bem tem alguma chance, ainda que remota, de derrotar as minorias criminosas que pretendem humilhá-la.

É duro imaginar Sergio Moro num palanque, discursando para seus apoiadores com aquela voz desafinada. Esse é outro ponto que me faz querer votar nele. Ele não tem o menor pendor caudilhesco. Jair Bolsonaro demitiu-o porque ele se recusou a aparelhar a PF. Mas não foi só isso. Sua demissão ocorreu também porque ele contrariou o sociopata durante a epidemia, apoiando ostensivamente as medidas de isolamento social, em parceria com Luiz Henrique Mandetta, que agora pode refazer a dobradinha com ele, na chapa presidencial.

Estou só especulando em voz alta. O único fato incontestável desta coluna é que acordei com uma baita vontade de votar em Sergio Moro”.

Diogo Mainardi é jornalista e colunista da revista Crusoé.