A intimidade entre Vorcaro e Moraes

Um banqueiro investigado, um ministro do Supremo, e registros que sugerem algum tipo de comunicação entre eles

Por Gabriel Sant’Ana Wainer – GZH

Banco Master / Nelson Jr / STF /Divulgação
De acordo com as mensagens obtidas pela Polícia Federal, Moraes e Vorcaro usavam um método curioso para se comunicar.
Banco Master / Nelson Jr / STF /Divulgação

Imagine a cena:

Um banqueiro percebe que seu banco está implodindo. A liquidez evapora, a investigação sobre ele avança, a sua prisão começa a se desenhar no horizonte. Numa situação dessas, o que faria qualquer pessoa minimamente racional? Ligaria para o advogado.

Daniel Vorcaro, não. Ele fez algo diferente. No dia em que foi preso, em vez de passar o dia conversando com a advogada do Banco Master, Viviane Barci de Moraes, ele passou o dia conversando com o marido dela. No caso, o marido é o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

De acordo com as mensagens obtidas pela Polícia Federal, Moraes e Vorcaro usavam um método curioso para se comunicar. O expediente era quase artesanal: textos escritos no bloco de notas do celular, prints enviados em sequência, mensagens apagadas e horários que, quando cruzados com registros de WhatsApp, sugerem o fluxo da conversa.

Pouco depois, Vorcaro foi para a cadeia.

Claro, não se sabe exatamente a totalidade do que foi dito nas conversas. Não se sabe qual era o teor das mensagens apagadas. Não se sabe sequer se esse método – bloco de notas, print, envio – era mesmo o canal mais usado entre os dois.

O que se sabe é que existe um banqueiro investigado, um ministro do Supremo, e registros que sugerem algum tipo de comunicação entre eles na iminência de uma crise financeira e judicial gigantesca que levaria o banqueiro ao cárcere.

Em qualquer democracia minimamente saudável, isso já seria suficiente para gerar perguntas. No Brasil, aparentemente, é suficiente para gerar silêncio.

Talvez porque o enredo seja constrangedor demais. Talvez porque os personagens estejam nos lugares errados. Talvez porque certos escândalos brasileiros tenham a capacidade quase mágica de desaparecer dependendo de quem aparece no centro da história.

A questão central, claro, não é conjugal nem doméstica. É institucional.

Em democracias que funcionam – ou que pelo menos tentam funcionar – ministros de cortes supremas vivem sob um regime não escrito de autocontenção. Eles evitam encontros sociais com partes potencialmente interessadas em processos. Evitam conversas privadas que possam gerar dúvidas.

Instituições não são defendidas apenas com votos e discursos televisionados. Elas também dependem de algo mais simples: distância. Distância entre juiz e investigado. Quando essa distância desaparece, sobra apenas a imagem. E, neste caso, a imagem é a de um banqueiro à beira da prisão trocando mensagens discretas com um ministro do Supremo.

Não é exatamente a fotografia institucional que se espera de uma República.

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