Por Anne Dias
Lula chegando à sede da Superintendência da Polícia Federal em 7 de abril de 2018. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Sete de abril de 2018. Um domingo à noite em São Bernardo do Campo.
Quando o discurso termina, a ordem de prisão já havia expirado. Depois de mais de 24 horas de impasse, acompanhado ao vivo por todo o país, Lula deixa o sindicato, passa pelo túmulo de Marisa, sua parceira no amor e no crime, e se entrega à Polícia Federal. Vira o preso 5-08 da sede de Curitiba e transforma a cidade em uma República.
Dessa parte da história e do tempo que ele passou atrás das grades, todo mundo lembra. Mas por que ele foi preso mesmo? Essa também é uma história que merece ser lembrada.
Mas esse tríplex novinho em folha, registrado no nome da construtora OAS, tem algo estranho: está vazio há 5 anos. Um apartamento desses, parado, sem uso? Tem alguma coisa errada aí.
A resposta veio ao longo da investigação Lava Jato, numa conversa gravada entre dois funcionários da construtora. Nela, eles falam de quem comprou o apartamento: o “chefe” e a “madame”. Segundo eles, o projeto estava sendo executado sob medida, atendendo a todas as exigências do casal.
O “chefe” e a “madame” ganharam nome e sobrenome assim que o dono da construtora resolveu falar. Léo Pinheiro, que já estava preso por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, confessou: o apartamento era para Lula e sua amada.
Mas há quem diga que só a delação do dono da construtora não é prova suficiente. E teriam razão, se fosse só isso. Uma engenheira, durante uma visita técnica, confirmou que Marisa foi apresentada como dona do apartamento. Um gerente da OAS confirmou ter acompanhado o próprio Lula numa visita anterior. A empreiteira só personalizava a reforma depois de fechar a venda, mas ali a reforma começou antes, sem contrato nenhum. Mais documentos com o nome de Marisa ligados ao prédio foram encontrados. Prova, nesse caso, não é o que falta.
A essa altura, fica difícil duvidar do porquê de a OAS fazer isso, não é? O puro suco do Brasil: esquema, propina, corrupção.
A OAS era uma das empreiteiras do cartel que dividia entre si os maiores contratos da Petrobras, cada uma recebendo sua fatia em troca de manter o preço superfaturado e a boca fechada. O apartamento no Guarujá era parte dessa engrenagem: propina paga em tijolo, reforma e vista para o mar.
E, é claro, tem também o famoso sítio em Atibaia, onde Lula e a madame passavam as férias. A investigação revelou o mesmo esquema: o imóvel era registrado em outro nome, e a propina vinha na forma de reformas de luxo e melhorias estruturais, bancadas por três empreiteiras: Odebrecht, Schahin e, mais uma vez, a OAS.
Foi esse conjunto de fatos que levou às condenações. Aquele homem em cima do caminhão jurou que um ladrão não pediria provas. As provas vieram, e não foram poucas. Anos depois, o STF, com justificativas bem questionáveis, decidiu anular tudo; e Lula trocou a cela em Curitiba por mais um mandato de presidente em Brasília. Mas isso é assunto para outra coluna.
Da próxima vez que o assunto eleições vier à tona, lembre-se: a corrupção de Lula não começou agora
Lula chegando à sede da Superintendência da Polícia Federal em 7 de abril de 2018. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)