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No sempre vegetariano almoço da comunidade Campina – onde um grupo de gente que cansou da cidade vive em casinhas ou barracas no meio do mato, longe da internet e dos telefones –, chama a atenção uma espécie de bolo despedaçado que acompanha o feijão com arroz.



– Excelente o tempero, hein? O que é? – me dirijo ao cozinheiro do dia, um rapaz de cabelo rastafári pouco afeito a entrevistas.



Trata-se de uma massa ora macia, ora não; ora esverdeada, ora não; ora crocante, ora não; com um gosto salgado variando entre omelete e pizza. Nenhum dos sete que almoçam reconhece a identidade do acepipe, e o cozinheiro muito menos:



– Sei lá, sobrou da janta de ontem.



– Aqui a gente come de tudo, menos carne. Precisava ver a torta de sopa que rolou esses dias – sorri Matheus Tafuri, 26 anos, ex-psicólogo em Brasília hoje responsável pela horta da Campina, comunidade alternativa situada no interior de Caetê-Açu, uma vila no município de Palmeiras a 440 quilômetros de Salvador, na Bahia.



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No simpático povoado onde é proibido beber álcool, fumar tabaco e usar drogas (cigarro e maconha, só no fumódromo; Santo Daime não é droga), os 12 atuais moradores vivem numa busca constante de integração com a natureza e de renúncia aos bens materiais. Tudo o que envolve grana demais e lucro para poucos, a começar pela Copa do Mundo, não tem lá muita aprovação.



– É um circo armado por grandes empreendedores sem nenhum retorno para a sociedade – brada Luis Leone, 53 anos, professor paulista que em 1991 fundou a Campina após comprar 220 hectares na região.



– Não tenho interesse, não estou ansioso. Eu quero que a Copa se lasque – completa Cássio D’Ávila, 53, publicitário e artista plástico que morou na Finlândia, conheceu boa parte da Europa, escreveu um romance, era apaixonado por motos, se casou seis vezes e recentemente decidiu “esquecer a existência do dinheiro”.



Há três semanas na comunidade, Cássio vive no alojamento – uma construção de dois dormitórios com sete camas onde a Campina recebe quem se candidata a morador. Sente falta de churrasco e de tomar cerveja fumando, mas demonstra disposição para se adaptar.



– Viu que uma cobra verde entra e sai o tempo inteiro? – pergunta ele a um colega de quarto.



– Deve estar caçando o camundongo que tá sempre aí – responde o outro, para gargalhada da nossa equipe.



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Só depois de um ano na comunidade, com todos os moradores aprovando sua permanência, é que Cássio poderá se instalar em definitivo. Quem recém conquistou esse direito foi Helder Câmara Jr., 41 anos, webdesigner de Fortaleza que trocará a barraca na qual vive há 15 meses com o filho Ian, 12 anos, por uma miúda casa de 4,5m por 3,5m em construção na Campina.



Helder expõe sua visão sobre a Copa enquanto ergue uma parede com tijolos ecológicos – são feitos de barro e palha, assim como a argamassa para uni-los. Um casal de americanos que há três semanas acampa ali ajuda o novo amigo na obra.



– As pessoas direcionam suas vidas para o Mundial, mas a vida é bem maior do que isso – reflete Helder, para depois assumir que acompanhará alguns jogos porque vai visitar sua família entre junho e julho, os meses da Copa.



A vida na Campina exige meio turno de trabalho: alguns se dedicam à horta, outros à produção de sabonete, outros ao herbário de ervas medicinais, outros à elaboração de chás. O que não é consumido é vendido, e assim algum dinheiro gira por ali.



– É o dinheiro necessário. Não vejo sentido, por exemplo, em tanta grana rolando em torno da Copa – afirma Luis Leone. – Não vou dizer que não assistirei a nenhum jogo. Mas não alimento essa estrutura.



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