As manifestações de junho ocorreram para que tudo se tornasse diferente. Lembro de um cartaz que uma menina carregava com orgulho sorridente:



“Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”.



Como se viu, o Brasil mudou. Tudo é diferente agora. Como tudo ficou diferente depois que Collor foi derrubado, depois que um intelectual de esquerda foi eleito presidente e, depois dele, um operário da indústria e, depois dele, uma mulher.



Está tudo diferente, não é? Depois de junho, criaram-se aí uns grupos que tocam fogo no McDonald’s. Eles preferem xis galinha.



Eu, que não sou muito de xis nem de McDonald’s, fico pensando em todos esses movimentos que fizeram o Brasil estremecer de civismo e suspirar de esperança. O que mudou mesmo? Há mais liberdades individuais e a democracia está consolidada. Importante. Mas… o que mudou no dia a dia, na vida real das pessoas?



Sempre estudei em colégios públicos. Ótimos colégios públicos. Minha faculdade, quitei-a de uma única vez, um ano e meio após a formatura. Era o antigo Crédito Educativo. Foi o governo militar quem instituiu aquele crédito educativo, mas não foi o governo militar quem financiou meus estudos; foi o Estado brasileiro.



Por coincidência, o Estado brasileiro, hoje, é gerido de forma muito parecida com a gestão do governo militar: é um Estado desenvolvimentista, que usa programas para atenuar os problemas sociais. Eu ganhei uma bolsa, as pessoas hoje ganham bolsas. Mas o programa que me beneficiou não existe mais. Aquele modelo de crédito educativo foi extinto. Essa é a fragilidade dos programas: com a facilidade com que são criados, são eliminados. Já o modelo desenvolvimentista serve para a prosperidade econômica, não exatamente para o bem-estar das pessoas. Se servisse, não haveria protestos, e os McDonald’s estariam a salvo com seus sanduíches.



O que dá uma pista a respeito das razões de o Brasil nunca se tornar, realmente, diferente: as mudanças não são estruturais. Aquelas escolas em que estudei, as escolas públicas de um passado nem tão remoto, hoje são nada mais do que uma porcaria. As instalações são precárias, os professores são semianalfabetos, os alunos são candidatos às sombras da ignorância eterna. Porque é mais fácil investir na Academia do que nos ensinos básico e fundamental. A Academia você resolve com dinheiro, tudo o que a Academia quer é dinheiro. Mas e as crianças? Como dar uma educação verdadeiramente sólida, plural e universal às crianças do Brasil? Como cuidar delas, dando-lhes atenção, prevenção, saúde, segurança? Educação básica e fundamental igualitária resolve quase tudo, até o problema da inclusão racial. Mas para isso é preciso projeto, inteligência e consciência. Para isso é preciso esforço. Busca de soluções, não de culpas. Para isso não basta distribuição de dinheiro.



O Brasil teve bons presidentes nos últimos vinte e tantos anos. Pessoas dignas e bem-intencionadas. Mas ter um bom presidente não é o suficiente para mudar. A política não é o suficiente para mudar. É preciso saber para onde se quer ir. Ou o Brasil vai continuar bramindo e rugindo sem jamais sair do lugar.  Por David Coimbra

Fonte: Zero Hora – 06.12.2013