Fernando Rodrigues

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Ex-senadora tem 21% no Datafolha, um grande patrimônio eleitoral…

…mas seu tempo de TV é exíguo e o financiamento não está garantido

Desejo de mudança dos eleitores tampouco é claro, pois PMDB é líder nos Estados

Eraldo Peres/AP - 4.out.2013

A ex-senadora Marina Silva é a grande novidade da pesquisa Datafolha divulgada hoje (18.ago.2014), aparecendo com 21% das intenções de voto. Ela está empatada tecnicamente com Aécio Neves (PSDB), que registra 20%. E Dilma Rousseff (PT) está com 36%.

Numa simulação de 2º turno, Marina Silva teria 47% contra 43% de Dilma Rousseff. Não há dúvida de que a ex-senadora é hoje o nome mais competitivo para tentar retirar o PT do Palácio do Planalto.

Mas o fato a ser considerado é que continua incerto o potencial eleitoral real de Marina Silva. Eis algumas dúvidas e observações que emergem a partir dos números da pesquisa Datafolha:

1) Momento emocional: nos últimos dias, Marina Silva foi citada como nunca no rádio e na TV (os veículos de comunicação tradicionais que atingem a maioria da população de maneira maciça durante uma eleição). A pesquisa Datafolha foi realizada em 14 e 15 de agosto, em seguida à trágica morte de Eduardo Campos, que era o cabeça de chapa do PSB na disputa presidencial, tendo Marina como candidata a vice-presidente.

É possível dizer que os eleitores pesquisados pelo Datafolha foram influenciados pelo clima transmitido na TV e no rádio? Essa é uma pergunta difícil de ser respondida com precisão. Mas com certeza é correto dizer que poucos brasileiros deixaram de tomar conhecimento da tragédia ocorrida com Eduardo Campos. A maioria também percebeu que Marina Silva era apontada por todos os analistas, na TV e no rádio, como a substituta natural de Campos.

Um argumento a ser considerado é que com 21% Marina teve menos intenção de votos agora do que os 27% que obteve em abril, quando não estava certo que a chapa do PSB seria encabeçada por Eduardo Campos. Esse percentual menor hoje seria um argumento para dizer: o momento emocional atual não teve influência nas respostas captadas pelo Datafolha.

Mas de maneira oposta também é lícito afirmar o seguinte: sem o clima de consternação transmitido na TV e no rádio, talvez a taxa de intenção de votos não chegasse aos 21% apurados pelo Datafolha.

 

2) Horário eleitoral: uma parte considerável dessas dúvidas sobre o potencial real de votos de Marina Silva será dirimida nos próximos 10 dias, depois que o impacto da tragédia tiver sido mais assimilado pelos brasileiros. Nesse período de 10 dias também já terá sido computada pelos eleitores a mensagem dos candidatos a presidente no horário eleitoral de rádio e de TV, que começa amanhã (19.ago.2014).

Nunca é demais lembrar que Marina Silva, uma vez confirmada candidata a presidente pelo PSB, terá um tempo exíguo para fazer a propaganda de rádio e de TV. Dilma tem 11min24seg. Aécio, 4min35seg. E Marina fica com apenas 2min03seg.

Uma análise do Datafolha indica que Marina vai bem em grandes centros. Nas simulações de 2º turno, “os moradores das capitais e regiões metropolitanas dão uma vantagem de 13 pontos à ambientalista. Separando-se apenas as cidades com mais de 500 mil habitantes, sua dianteira chega a 20 pontos. São os locais onde se concentram em maior proporção a insegurança, o pessimismo e o desencanto”.

Ou seja, para ampliar sua potencialidade eleitoral, Marina precisa descer para os municípios médios e pequenos. E aí só é possível chegar aparecendo no rádio e na TV, pois o Brasil tem cerca de 5.600 cidades e é impossível um candidato visitar a imensa maioria dessas localidades durante uma campanha.

 

3) Financiamento escasso: dinheiro é fundamental numa campanha presidencial no Brasil. Embora Marina tenha sido muito hábil para se aproximar de alguns setores do establishment nos últimos anos (banco Itaú e empresa Natura, entre outros), as finanças da chapa anterior, encabeçada por Eduardo Campos, não iam muito bem.

É possível reverter esse quadro agora, claro. Afinal, empresários e endinheirados gostam de apostar em quem está na frente.

Ocorre que é necessário também dar eficiência à doação de campanha. O dinheiro precisar ser recebido e tem de chegar na ponta, até os militantes que vão montar estruturas locais e defender o nome de Marina durante o processo. Não é uma operação simples, pois exige muita logística e o tempo até a eleição é curto.

 

4) Reação de Dilma e de Aécio: na política, assim como na física, cada ação produz uma reação. Seria ingênuo imaginar que Dilma Rousseff e Aécio Neves ficarão parados, inertes, vendo suas candidaturas ameaçadas indo para o ralo com o eventual avanço de Marina Silva.

Até a semana passada, a chapa Eduardo Campos-Marina Silva vinha sendo poupada tanto por Dilma como por Aécio. Ambos visavam a obter o apoio do PSB num eventual segundo turno. Agora, as coisas mudaram de figura. Não vai demorar para que Marina passe a ser criticada de maneira robusta pelo PT e pelo PSDB.

Vai funcionar? Não se sabe. Mas certamente drenará um pouco da energia vital do PSB e de Marina Silva, que terão de se defender –num momento em que precisam se concentrar em serem propositivos para avançar. Antes, Marina e Eduardo ficavam incólumes na campanha, apenas assistindo à troca de chumbo entre PT e PSDB. Agora, todos estarão na linha de tiro.

 

5) Popularidade presidencial em recuperação: nos últimos 30 dias, foi notório o esforço de Dilma Rousseff para reduzir sua taxa de rejeição. Os resultados foram captados na pesquisa Datafolha, embora a situação da petista não seja totalmente confortável.

Em 15 e 16 de julho, a taxa dos que consideravam o governo Dilma “ruim” ou “péssimo” era de 29%. Agora, na pesquisa dos dias 14 e 15 de agosto, passou a ser de 23%.

Esses 6 pontos percentuais de “ruim” e “péssimo” migraram (não de maneira automática, claro) para o grupo dos que consideram o governo Dilma “bom” e “ótimo'': a taxa subiu de 32% em julho para 38% em agosto.

Aqueles que classificam o governo dilmista como “regular” se mantiveram estáveis, em 38% –o percentual ficou idêntico em julho e agosto. Esse percentual é perto da taxa de intenção de votos da petista (36%).

Como se sabe, um governante que tenta a reeleição “pesca” votos entre os que consideram sua administração ótima, boa ou regular –no caso de Dilma, trata-se de um grupo com 76% dos eleitores do país.

 

6) PSB dividido: o pior que pode acontecer para um candidato numa eleição é ter o inimigo dormindo ao lado. Há inúmeros exemplos na política brasileira de candidatos que sofreram desse mal em disputas presidenciais.

Ulysses Guimarães (PMDB) foi boicotado por sua legenda em 1989. José Serra (PSDB) teve grandes dificuldades com os tucanos em 2002 e 2010.

Não é segredo que o PSB está sendo empurrado para escolher Marina Silva como sua candidata a presidente. O nome da ex-senadora não é resultado de um clamor consensual dentro do establishment pessebista. Trata-se apenas de uma legenda inorgânica (como a maioria) e fragilizada pela morte de seu líder. Para resumir, O PSB sendo compelido a fazer uma escolha de fora para dentro.

Em vários Estados, compromissos assumidos pelo PSB e por Eduardo Campos não têm como ser totalmente honrados por Marina Silva, sobretudo com setores ligados ao agronegócio. É evidente que nada disso será vocalizado em público. O discurso será de união pela vitória. Mas no subterrâneo do PSB muita gente vai se perguntar: “Por que vou ajudar Marina Silva se eleger presidente se ela, ao ganhar, pode perfeitamente tentar conduzir um expurgo dentro da legenda e me retirar todo o apoio político?”.

Em resumo, pacificar o PSB a seu favor é uma tarefa de alta complexidade para Marina Silva.

 

7) Desejo de mudanças, “ma non troppo”: todas as pesquisas desde 2013 apontam para um desejo difuso de mudanças na forma como os políticos governam o país. É um dado que ainda merecerá profundas análises e pesquisas de acadêmicos e estudiosos.

O desejo de mudanças é mais notado em áreas metropolitanas. Mas no Estado mais rico do país, os eleitores estão dizendo que não desejam nada alterado na política tradicional –pretende reeleger Geraldo Alckmin (PSDB) como governador, possivelmente no 1º turno. Aliás, quando se consideram todos os 26 Estados e o Distrito Federal, São Paulo é o único local do Brasil no qual o mesmo partido (o PSDB) vem vencendo todas as eleições desde 1994, há 20 anos.

Há outro dado interessante a respeito de como o desejo de mudanças na política é paradoxal entre os brasileiros. Nas 27 disputas para governador neste ano, o partido que mais tem candidatos competitivos, com chances de vitória, é o PMDB. Há hoje 9 peemedebistas despontando como favoritos nos Estados.

Esse é um número bem maior do que os 4 favoritos do PSDB e os 4 favoritos do PT nas disputas estaduais.

E quantos candidatos favoritos próprios tem o PSB, que é o partido de Marina Silva, nas 27 disputas de governadores? A resposta é: 0. Isso mesmo, zero. Para saber mais, leia detalhes na mais ampla página da internet com todas as pesquisas eleitorais desde o ano 2000, mantida pelo Blog.

 

CONCLUSÃO
Daqui a 10, 20 ou 30 dias Marina Silva poderá ter superado todas essas adversidades? Claro que sim. Até porque, se ela tiver um bom percentual na pesquisa Datafolha, tudo se arruma por decantação.

Imagine o que acontecerá se daqui a 15 ou 20 dias Marina aparecer já bem à frente de Aécio Neves e empatada com Dilma Rousseff? Cria-se uma onda quase incontrolável a favor da candidata do PSB.

Nesse cenário hipotético a seu favor, a ex-senadora poderá se eleger presidente, pois é uma política com muita habilidade, consegue incorporar (como nenhum outro de seus adversários) o anseio pelo “novo”.

Só que para ter sucesso, Marina terá resolver todas as pendências listadas neste post (e sabe-se quantas mais). Possível, é. Mas é também uma tarefa dificílima de ser cumprida até o dia 5 de outubro.

Uol