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Meu filho (não) bebe Longe de casa, adolescentes bebem brindando à ingenuidade adulta e ao desrespeito à lei

Consequências podem ser observadas em postos de gasolina, clubes ou salões de festas de Porto Alegre

03/05/2014 | 15h03

Longe de casa, adolescentes bebem brindando à ingenuidade adulta e ao desrespeito à lei Carlos Macedo/Agencia RBS

Em frente a clubes, jovens passam mal. O motivo: o uso abusivo de álcool antes das festasFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS

É comum pais externarem uma certeza em relação aos filhos que saem para uma festa no final de semana: “Meu filho não bebe”, “Minha filha só toma um golinho”, “Ele sabe o limite”.



Longe de casa, os adolescentes brindam à ingenuidade dos adultos e ao desrespeito à lei que proíbe a venda de bebida para menores de idade: “Eles sabem que eu bebo, mas não imaginam o quanto”, “Roubei Jägermeister do meu pai”, “Ninguém pede carteira de identidade”. 



As consequências desse descompasso podem ser observadas em postos de gasolina, clubes ou salões de festas. Em pouco tempo, os jovens sucumbem ao alto teor alcóolico do que ingerem.



Nesta reportagem, ZH mostra um retrato dos exageros frequentes nas noites de Porto Alegre, a capital que lidera o consumo de bebida alcoólica por adolescentes no país.



Da festa para a enfermaria



A chuva não apressa meninos e meninas que desembarcam dos carros dos pais. Abrigam-se sob árvores, marquises e orelhões, retardando a entrada na Associação Israelita Hebraica, no bairro Bom Fim, na sexta-feira, 11 de abril, onde começa a festa Stop and Go, para adolescentes a partir de 14 anos. Compartilham garrafas de vodca, ingerida pura e em misturas com refrigerante de limão ou energético. 



Dentro do clube, está proibida a venda de álcool, e do lado de fora se intensifica o consumo para compensar a restrição. Isis* é um dos muitos jovens já trôpegos pouco depois da meia-noite. Encostada na grade de um prédio residencial próximo, está alheia à negociação travada a sua frente. Mantém-se de pé porque um dos três amigos que a acompanha a segura contra as barras de ferro. 



– Vamos, moça – insiste o segurança.



– Água – balbucia Isis, a saliva pingando do queixo.



Os jovens se apavoram com a possibilidade de a mãe de Isis ser alertada, em casa, sobre o estado da filha. Tentam demover o funcionário do clube da intenção de levá-la até a ambulância contratada pelos organizadores, estacionada perto dali. 



– Ela já vai melhorar. Eu vou falar com ela – pede uma menina, engrolando as palavras.



Irritado com o diálogo desconexo, o homem interrompe os apelos das vozes arrastadas, ergue Isis no colo e a leva para dentro da Hebraica. Outros seguranças circulam pelas calçadas recolhendo garrafas vazias e dispersando as aglomerações mais ruidosas. Um menino cambaleante provoca gargalhadas: procura se firmar apoiando a bochecha na parede enquanto abre a braguilha para urinar. Com as calças caindo, logo é enlaçado em um beijo por uma menina. Abraçam-se, desequilibram-se, trançam as pernas e quase caem.



– Vamos lá, casalzinho apaixonado – alerta um segurança. – É uma creche – reclama.



Cheiro de vômito na sala de entrada



No tráfego intenso da Rua General João Telles, motoristas ignoram a ciclovia e param junto ao meio-fio. Uma mulher não arranca enquanto não se certifica de que a filha passou pela portaria. Logo transfere o olhar para um menino de camiseta encharcada sentado no chão, indiferente ao piso molhado, a cabeça apoiada nas mãos. 



– É muito cedo. Já estão assim – lastima ela. 



Afirma conhecer o garoto de vista. Observa-o por alguns minutos, atônita. 



– Minha filha não bebe. Ela sabe que não pode beber – assegura, antes de partir.



Durante a semana, a Wazzap?!, produtora da festa, alertou no Facebook que não permitiria a entrada de menores de idade apresentando sinais de embriaguez. “Kkkkkkk”, desdenhou um adolescente em um dos posts, “rindo” na linguagem de internet. Muitos são admitidos apesar da bebedeira. 



Joel Fridman, presidente da Hebraica, afirma que foi combinado com a Wazzap?! que haveria um bafômetro na entrada para impedir o acesso de jovens alcoolizados. Adolescentes com sinais de embriaguez seriam encaminhados à enfermaria, onde aguardariam a chegada dos pais, em segurança. 



Gabriel Rodrigues de Freitas, sócio da Wazzap?!, alega que a empresa de segurança contratada não dispunha de bafômetro e que a produtora teve dúvidas quanto à viabilidade legal de impor o uso do aparelho a menores de idade.



– Temos entre 40 e 50 casos de embriaguez prévia por festa. Esta mos começando uma campanha para tentar diminuir o consumo.



Há uma enfermaria improvisada no térreo, de onde exala um fortíssimo cheiro de vômito. É o primeiro e último destino de quem não consegue subir a escadaria rumo à pista de dança – Isis é um dos pacientes em atendimento. Em um sofá em frente à porta guardada por um segurança, à vista de todos, dois rapazes dormem, encostados um no outro, caídos para a direita – um deles é o que, minutos antes, tentava fazer xixi na rua. Patrícia, representante do clube, não larga o celular, contatando familiares. 



– Estou aqui com a Luciana. Ela está passando muito mal – informa por volta da 1h. – Ela está alcoolizada – esclarece.



Despertados de súbito, alguns interlocutores, desnorteados, custam a entender. No susto, cogitam até ocorrências mais graves, como acidentes de trânsito e lesões sérias. É frequente a incredulidade.



– Minha filha não faz isso – reage uma mãe.



Equipe se esforça para contatar pais



Patrícia recepciona pais de passo acelerado que demandam explicações. Um menino se adianta e detém a contrariedade do pai com um abraço. 



– Desculpa – pede ele, recebendo um beijo. 



A equipe se esforça para localizar os responsáveis por dois que estão desacordados – um não conseguiu pronunciar o telefone de contato, o outro forneceu um número errado. Uma enfermeira segura um cesto de lixo diante do que está em pior estado, aparando o vômito. Massageia as costas e os braços para reanimá-lo. O segurança aborda os passantes pedindo ajuda:



– Ô, meu, não conhece esse magrão aí?



Na porta da enfermaria, a mãe de Isis se apresenta. Encontra a filha em uma poltrona, incapaz de levantar. Conta que a jovem não costuma tomar nem o champanha para o brinde de Ano-Novo. É orientada a levá-la direto para o Hospital de Pronto Socorro. Isis sai como entrou: inerte, carregada por um segurança. 



– E são recém 2h – lamenta Patrícia.



"Por favor, uma Natasha"



Com um litro de vodca Natasha e um copo de plástico vermelho revezando entre as mãos, as amigas Luana, 15 anos, e Paula, 17 anos, chegam de táxi ao Clube Farrapos no fim da noite de sexta-feira, 4 de abril. Como tradição, a festa começa na calçada. Antes de entrarem na festa, por volta da 1h, a garrafa comprada uma hora antes já está um terço consumida.



Com riso frouxo, as duas colegas contam como é fácil adquirir o álcool que em teoria seria proibido para sua faixa etária. Sequer precisaram de intermediários para fazer a compra, na loja de conveniência de um posto de combustível na Avenida Nilo Peçanha – conhecido point teen.



– A gente vai na cara dura mesmo – explica Paula.



– Tem que chegar segura de si e dizer: “Oi, por favor, uma Natasha”. Com atitude – conta Luana, que aparenta mais idade com figurino mulherão: blusa de oncinha, bota cano alto, microssaia preta. 



Ninguém pediu a identidade quando compraram a bebida. Se pedissem, estariam prevenidas. Laura leva na bolsa a carteira de motorista da irmã mais velha – que tirou uma nova via quando pensou ter perdido o documento. Paula usou o scanner e a impressora de casa, no bairro MontSerrat, para emitir um documento falso.



– Essa eu fiz hoje às sete da noite – mostra a estudante, entre risos. 



Aos 15, Luana bebe regularmente e já se sente experiente – como boa parte das colegas, seu primeiro porre foi aos 14 anos. Diz que seus pais sabem que bebe, mas não imaginam o quanto.  



– Acham que eu não fico bêbada, que só fico feliz – ri.



Os seguranças da Festa das Tintas, que reúne mais de mil jovens naquela noite, impedem a entrada de garrafas no clube. Mas isso não significa que os frequentadores deixem de beber. Com os documentos falsos, Luana e Paula ingressam com pulseirinha de “maior”. Paula paga R$ 15 por uma cerveja. 



– Dá pra ver que a identidade é falsa, mas eles deixam passar – diz.



O coronel Alcery Frota Pinto, vice-presidente administrativo do Clube Farrapos, diz que ficou “horrorizado” com o que assistiu naquela noite, com jovens caídos pelos cantos e um saldo de oito vidros quebrados no fim da noite:



– Não sabíamos que seria uma festa de jovens, alugamos o salão pensando que seria uma festa particular. Aqui dentro não pode beber, mas já chegam bêbados. Vi um pai que encostou o carro e desceram cinco jovens, já embriagados. Agora proibimos essas festas. Não vamos ser coniventes com esse tipo de coisa.



Mãe ajuda a comprar



Na casa de Paula, beber não é uma transgressão. Sua mãe não apenas sabe que ela bebe como chegou a acompanhar a filha na compra de destilados. O assunto veio à tona às vésperas de uma “noite” agendada pela turma da filha no condomínio onde moravam, no bairro MontSerrat, no ano passado. 



– Mãe, a gente tem que comprar as comidas e as bebidas – avisou a filha, aluna do segundo ano do Ensino Médio.



– Tá, mas comprar o quê? – questionou a empresária de 39 anos.



A mãe já sabia que a turma da filha andava bebendo. No ano anterior, no primeiro encontro no condomínio onde moram, se surpreendera ao encontrar garrafas de vodca e tequila vazias no final da festa.



Em vez de proibir o consumo, imaginando que o veto seria facilmente driblado, desta vez a mãe preferiu acompanhar a filha ao supermercado. Entre as compras do carrinho, incluíram garrafas de vodca, tequila e energéticos. 



– Eu não proíbo ela de beber, porque todo mundo um dia vai beber, mas converso para que respeite o limite dela própria. Na turma dela, a maioria acaba fazendo tudo escondido, o que é pior – justifica. 



A estratégia de Magda segue a linha da redução de danos. Ao acompanhar a filha no supermercado, orientou a garota a dar prioridade à compra dos salgadinhos que seriam servidos na noite. 



– Se deixar eles compram só a bebida – diz.



A mãe diz confiar na capacidade de discernimento de Paula. Mas já observou que nem sempre os adolescentes sabem respeitá-lo. Na terceira festa em sua casa, encontrou colegas da filha passando mal de tanto beber. E começou a repensar sua posição de fornecer álcool aos adolescentes.



– Agora já disse que chega, não quero essa responsabilidade. Vai que aconteça alguma coisa. Vão perguntar: quem comprou? – reflete.



Números



Porto Alegre é a capital brasileira campeã no consumo de álcool entre estudantes de 13 a 15 anos do 9º ano do Ensino Fundamental, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2013.



O estudo ouviu 1.455 alunos em 52 escolas.



36,7% dos entrevistados consumiram bebida alcoólica nos 30 dias anteriores.



81,9% das meninas já experimentaram álcool. Entre meninos, o percentual é de 75,3%



Em Florianópolis, a segunda colocada, o índice foi de 34,1%



Os menores percentuais foram encontrados em Belém (17,3%) e Fortaleza (17,4%).



A média brasileira foi de 26,1%



Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) do IBGE



A pressão pelo primeiro porre



Giovana sempre foi a certinha da escola. Enquanto os colegas aprontavam desde os 13 anos, levando doses de bebidas alcoólicas escondidas para festas em tubos de Cepacol, ela e suas amigas mais próximas se orgulhavam de não precisar beber para se divertir.



Mas, na medida em que o tempo passava, a curiosidade aumentava. Giovana queria entender que sensação era aquela, que fazia com que os colegas parecessem aproveitar bem mais a festa do que ela.



No final de 2013, aos 15 anos, decidiu que era hora de experimentar. A oportunidade surgiu numa formatura de oitava série. Como de costume, o pai de uma das amigas deu carona até a festa. Só que, em vez de entrarem no clube, ela e outras duas amigas se dirigiram a um posto nas redondezas. Chegando lá, compraram vodca. Quando saíam, um segurança da festa apareceu.



– Vocês tão bebendo, não vão entrar na festa – repreendeu.



As três meninas se olharam. Chegaram a hesitar. 



– Ah, mas eu já tô aqui, já fiz o que minha mãe disse para eu nunca fazer, que era sair da festa, então vou beber – raciocinou Giovana.



Ao experimentar a vodca diluída em energético, Giovana sentiu repulsa. Achou o gosto muito ruim.



– Não tem um jeito de fazer isso mais rápido? – perguntou aos colegas que as acompanhavam.



– Só se tu tomar pura.



Giovana não teve dúvidas. Virou um copo de vodca em “gute-gute”. 



Enquanto bebiam na calçada, uns conhecidos passaram por ela e zombaram.



– Ih, isso aí nem pega.



Sentindo-se desafiada, Giovana virou o segundo copo.



Enquanto voltavam para o clube, começou a sentir tonturas.



– Ah, não te faz – duvidaram as amigas, que haviam bebido o destilado com energético.



Ao chegar na festa, a tontura só piorou. Foi para um canto e encontrou um colega em estado parecido.



– Bá, vou vomitar – avisou ele.



Giovana vomitou junto, no canto do salão.



Ao perceberem seu estado, as amigas a carregaram para o banheiro. E foi ali que ela “morreu”, como dizem no jargão adolescente quando a pessoa passa muito mal. Foi levada para uma ambulância.



Horas depois, a mãe levou um choque quando a filha abriu a porta de casa, pedindo perdão. 



– A gente sempre acha que na casa da gente não vai acontecer. Mas a pressão do grupo é muito grande – constatou a mãe.



O choque de uma mãe



Janaína estava encarregada, naquela noite, de buscar a filha Mariana e a amiga Renata ao final de uma festa. O telefonema da mãe de Renata, por volta da 1h, obrigou-a a sair mais cedo de casa:



– Tô levando a minha filha e não sei cadê a tua. 



Renata nem chegou a entrar na festa – caiu bêbada do lado de fora, depois de comprar vodca em um posto de combustíveis. Janaína partiu imediatamente para localizar Mariana. Na frente de uma casa de eventos localizada no Jardim Europa, deparou com vans vendendo bebida e dezenas de adolescentes em atendimento junto a uma ambulância. Tentaram detê-la, transtornada, na entrada do evento. Pediram que se acalmasse. Quando conseguiu passar, a médica levou um susto ao abrir a porta: uma menina embriagada caiu por cima dela. O que viu a seguir a impactou profundamente.



– Era degradante, uma orgia. Jovens que pareciam em transe, meninos com a mão dentro das calcinhas das meninas no meio do salão, na frente de todos, quase cenas de sexo explícito. Estavam todos alcoolizados, os olhos arregalados, vários sendo carregados para fora. Não sou careta, babaca, moralista, mas fiquei apavorada. Estamos falando de pessoas de 13, 14 anos de idade – lembra.



Janaína demorou a localizar a filha, que estava um pouco alterada, “fora do prumo”. No dia seguinte, abalada, a mãe não conseguiu tocar no assunto, culpando-se pela demora em perceber o tipo de ambiente que a estudante começava a frequentar. Uma decisão foi tomada em seguida: Mariana estava proibida de frequentar eventos semelhantes, o que motiva frequentes confrontos entre ambas até hoje, quase um ano depois. As saídas noturnas não foram de todo suspensas.



Desde então, a jovem participou de comemorações de 15 anos, também marcadas por excessos – a gurizada é servida por barmen contratados pelos anfitriões, ficando à vontade para escolher quantas doses querem em cada drinque. Janaína determinou que Mariana não pode consumir qualquer quantidade de álcool.  



– Não tem negociação. Sei que ela vai transgredir em algum momento, mas agora ela é muito jovem, muito imatura. Algo precisa ser feito, este é um sintoma de adoecimento cultural e social de grandes proporções que estamos deixando passar batido, enquanto nos ocupamos em pagar escolas privadas de alto custo, atividades extraclasse, viagens, roupas, próteses de silicone – revolta-se.



Tentativa de reação



Desde 2012, um ônibus do Ministério Público estaciona diante das festas de formatura, para identificar casos de adolescentes embriagados e chamar os responsáveis. A atenção ao tema começou há cerca de cinco anos. Provocada por um grupo de pais preocupado com as festinhas regadas a álcool, a instituição atuou junto às produtoras para assegurar a proibição de venda de bebidas alcoólicas para adolescentes. A medida deu resultado, só que produziu um efeito inesperado: para driblar a proibição, os adolescentes começaram a beber na frente dos clubes. 



Para lidar com o problema, foi criado em 2011 o Fórum Permanente de Prevenção à Venda e ao Consumo de Bebidas Alcoólicas por Crianças e Adolescentes. Em reuniões mensais e abertas ao público, pais, professores, médicos, policiais, produtores de festas e representantes de instituições interessadas discutem como enfrentar o problema. Uma das propostas em estudo é a colocação de bafômetros na entrada das festas. Assim, adolescentes alcoolizados ficariam impedidos de entrar.



A vulnerabilidade a que os jovens ficam expostos quando bebem é uma das preocupações do fórum, coordenado pela procuradora Maria Regina Fay de Azambuja. Em um dos atendimentos, foi encontrada uma menina desacordada nas macegas, com vestidinho curto erguido e expondo as partes íntimas. 



Para intensificar suas ações e proibir festas em residências onde menores de idade consomem álcool, o MP pede o auxílio da população. Segundo Maria Regina, o maior empecilho é a escassez de denúncias – sem saber antecipadamente a data e o local dos eventos, o órgão não pode notificar os pais.



Outro obstáculo é a interpretação da lei: o artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê como crime a venda e o fornecimento de “produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica”, com previsão de até quatro anos de detenção. Para alguns, o álcool não estaria incluído entre esses produtos, leitura que acaba inviabilizando a aplicação das penalidades.



Riscos que se estendem além do porre



Engana-se quem pensa que os efeitos do álcool no organismo se esgotam quando acaba o porre.



Especialmente entre os adolescentes, o risco é maior porque nesta fase o cérebro está em um período crucial de formação – e o álcool pode comprometer esse desenvolvimento.



Uma das consequências associadas é o maior risco a se tornar alcoólatra. De acordo com o National Institute on Drug Abuse, dos Estados Unidos, 15,2% dos que começam a beber aos 14 anos tendem a desenvolver o alcoolismo, enquanto, entre os que esperam até os 21 anos ou mais, o índice é de 2,1%. 



A relação é química, explica o psiquiatra do Hospital de Clínicas Thiago Pianca, especialista em crianças e adolescentes. No cérebro adolescente, o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, ainda não está totalmente formado. Com o uso de álcool, pode nunca se desenvolver. Já o circuito de recompensa, associado ao prazer, está plenamente desenvolvido nesta idade.  



– O adolescente está pronto para o prazer, mas não tem o mecanismo de freio – alerta Pianca.



Sem autocontrole, a tendência de abuso de substâncias químicas é cada vez maior. Com o tempo, o usuário precisa de doses para ter o mesmo prazer.



Autora de uma tese de doutorado sobre o uso de álcool entre estudantes de Ensino Médio, a enfermeira Efigenia Aparecida Maciel de Freitas tem percebido o aumento de um hábito conhecido como binge drinking – a ingestão de grande quantidade de bebida em um curto período para acelerar a embriaguez. 



– Os jovens começam a ter essa cultura: “Quanto consigo consumir nesse tempo?” Querem ficar alterados logo para aproveitar melhor a festa – afirma Efigenia.



As consequências do consumo abusivo



Sem noção de limites, os adolescentes acabam expostos a riscos adicionais quando bebem demais.



E as consequências não se restringem a ver o mundo girar: não raramente, seus passos cambaleantes podem parar na delegacia, no hospital, em exposição íntima na internet.

Para Benício, o choque de realidade veio aos 16 anos, em uma noite no apartamento de um colega.



Nenhum dos 20 reunidos estranhou quando Jonatan bebeu demais e foi deitar num dos quartos quando não parava mais em pé. De tempo em tempo, Benício ia até o dormitório para ver como o amigo estava, até que, numa das aproximações, Jonatan agarrou seu pé e jogou seu calçado pela janela do segundo andar. 



– Por que tu fez isso, cara? Fica aí que eu vou lá embaixo buscar – reagiu.



Enquanto Benício procurava pelo pátio seu sapato, ouviu um grito de pavor. Olhou para o lado e viu uma mão esticada no chão. Desesperou-se ao perceber que era Jonatan estirado no concreto. Embriagado, havia caído do segundo andar. A festa acabou no Pronto Socorro. Felizmente, os ferimentos de Jonatan naquele dia se restringiram a uma lesão no tornozelo. 



Cristina, 16 anos, também exagerou na combinação de vodca e energético. Em um feriado prolongado recente, saiu à noite com uma amiga. A certa altura da festa, perderam-se uma da outra – Cristina não recorda de detalhe algum sobre o que fez até o amanhecer.



Despertou em uma casa distante, na companhia de dois jovens, ambos maiores de idade. Refazendo-se do susto resultante da imprudência, surpreendeu-se, semanas depois, ao saber que fotos íntimas suas estavam circulando na internet. Não teve coragem de olhá-las.

Mais números



O primeiro contato com álcool e cigarro costuma ocorrer aos 13 anos.



35,3% dos alunos afirmam terem experimentado bebida pela primeira vez na casa de amigos.



Para 28,7%, o gole inicial foi em casa, com pessoas do convívio diário.



O consumo abusivo é mais frequente entre os meninos:



70,2% deles relataram episódios de uso excessivo de bebida.



39,5% dos meninos e 33,2% das meninas praticaram o binge drinking (consumo de grande quantidade em curto espaço de tempo) no mês anterior à pesquisa.



47% dos pais nunca conversaram com os filhos, ou conversaram poucas vezes, sobre as consequências do uso de bebidas alcoólicas.



Fonte: Consumo de Bebidas Alcoólicas e Outras Substâncias Psicoativas entre Estudantes do Ensino Médio de Uberlândia-MG, tese de doutorado de Efigenia Aparecida Maciel de Freitas

 

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