Os 11 filhos de faxineira morta em 2002 são um retrato das falhas na rede de proteção a crianças e adolescentes

Atualizada em 25/07/2014 | 09h5725/07/2014 | 04h01

Irmãos enfrentaram anos de descaso do poder público após morte da mãe por bala perdida Tadeu Vilani/Agencia RBS

Morte da mãe ocorreu em 2002, quando os 11 irmãos ficaram órfãosFoto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

bala perdida que matou, em Passo Fundo, a faxineira Eliana do Prado dos Santos também atingiu o futuro de seus 11 filhos. Hoje, quase 12 anos depois do crime, um dos órfãos foi assassinado, três foram presos, duas estão desempregadas e o caçula abandonou os estudos. Dos que trabalham, apenas uma completou o Ensino Médio. 



A família, acompanhada durante um ano por Zero Hora, é um retrato das falhas na rede de proteção às crianças e aos adolescentes. Para os filhos de Eliana, os anos de descaso do poder público resultaram em histórias de abandono, crime e tristeza.



A faxineira enfrentou a morte do marido aos 31 anos. Ele foi baleado ao tentar separar uma briga entre dois vizinhos. A mulher ficou com nove filhos para criar e o décimo no ventre. Anos depois, quando conheceu o segundo marido, engravidou pela última vez. Passou a morar com o companheiro, os seis filhos mais novos e um neto.



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Aos 39 anos, no dia 17 de novembro de 2002, um crime a arrancou da família. O dia era um típico domingo de calor na vila Recreio, em Passo Fundo, no norte do Estado. Eliana estava contente em receber a visita dos filhos mais velhos no casebre de madeira onde morava. Por volta das 21h, quando todos assistiam à TV na sala, a faxineira levantou do sofá para preparar a mamadeira da neta de um ano. 



Ao se aproximar da pia da cozinha, tombou atingida por um tiro. A bala invadiu a janela aberta e a feriu no peito. Ela foi socorrida pela família, mas morreu a caminho do hospital, no carro de um genro. 



Do lado de fora, uma briga em uma festa de aniversário motivou o crime. Um vizinho discutiu com um convidado e o expulsou da comemoração a tiros. O pedreiro Everton Borges dos Santos, na época com 19 anos, confessou o crime à Polícia Civil na mesma semana e foi preso. No Presídio Regional de Passo Fundo, encontrou Cristiano, filho de Eliana que cumpria pena por homicídio.



— Ele me via e começava a chorar, arrependido, pedindo desculpas. Sei que ele não queria isso — relembra Cristiano.



O assassino também teve um destino trágico. Em setembro de 2003, ele foi executado com cinco tiros dentro de um ônibus, quando tinha 20 anos. 



Veja a reportagem feita por ZH em 2003, um ano após a morte de Eliana







Poder público falhou no auxílio à família



Ao deixar de dar assistência necessária à família, o Estado ampliou o abandono causado pela bala perdida. Quando Eliana morreu, seis dos filhos tinham menos de 18 anos e dependiam de seus cuidados. 



Para evitar que os irmãos fossem encaminhados a uma casa de acolhimento, Luciane, na época com 19 anos e dois filhos, assumiu a tutela de Daiane, 14 anos, Tatiane, 13 anos, Andriele, 10 anos, e do irmão caçula, de sete anos. Paulo, que perdeu a mãe aos 17 anos, trilhou seu caminho sozinho. Já o único filho de Eliana com o segundo marido, Ariel, na época com cinco anos, ficou com o pai.



Luciane não conseguiu cumprir com a responsabilidade judicial de cuidar dos irmãos. Um ano depois de ter assumido a tutela deles, ela ainda teve mais dois filhos, gêmeos, e mudou-se para Ernestina, a 35 quilômetros de Passo Fundo. 



Os órfãos foram distribuídos a parentes e amigos, e a maioria abandonou os estudos. Nos arquivos encontrados pelo Conselho Tutelar atualmente, só há fichas de acompanhamento dos dois últimos filhos de Eliana. E ambas com atendimentos a partir de 2005, três anos depois da morte da mãe. 



Os documentos revelam que os meninos não passaram por um atendimento psicológico regular, e a maioria dos procedimentos tem relação com a frequência escolar. Embora Daiane e Andriele também tenham abandonado a escola, ambas relataram que não receberam ajuda do órgão.



Um dos filhos de Eliana chegou a morar em 14 residências diferentes, incluindo duas casas de acolhimento. Hoje, ele está no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Passo Fundo. Viciado em crack, diz ter cometido um homicídio devido a uma dívida por drogas. 



— É muito difícil que um quadro de abandono não leve à violência — afirma Cleonice Aires, promotora da Infância e da Juventude do Ministério Público de Passo Fundo.



Para ela, isso não significa dizer que a pobreza determina a delinquência, mas que a ausência de uma organização familiar com a possibilidade de fornecer cuidados, afeto e limites é propulsora de um comportamento de violência, ainda mais quando desassistida pelo Estado. 


 



AS HISTÓRIAS DE ABANDONO



Clique nas fotos para ler as histórias dos órfãos quase 12 anos depois do crime:



TRÊS ÓRFÃOS FORAM PRESOS E UM FOI ASSASSINADO




 



DUAS ESTÃO DESEMPREGADAS E O CAÇULA LARGOU A ESCOLA





TRÊS ÓRFÃS TRABALHAM







LONGE DE CASA



Irmão não fala com a família há dez anos




Um dos órfãos, Alexandre do Prado dos Santos, mudou-se para o Paraná antes da morte da mãe e não tem contato com a família há mais de 10 anos. O órfão não foi localizado pela reportagem.

Zero Hora

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