Gabriela Fujita
Do UOL, em São Paulo

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Fotógrafos passam 24h em sete cracolândias do Brasil24 fotos

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Mulher consome droga em bairro de Curitiba, Paraná. Fotógrafos da Reuters passaram 24 horas em sete cidades brasileiras para registrar a movimentação das cracolândias, áreas onde muitos usuários de crack se reúnem, na maioria das vezes durante à noite. Do centro de São Paulo às favelas do Rio de Janeiro, da capital amazônica Manaus ao pólo turístico colonial de Salvador, a droga se espalha pelo país Leia mais Reuters

O consumo de entorpecentes ilícitos provocou 183 mil mortes no mundo em 2012, de acordo com o recém-apresentado relatório mundial da ONU sobre drogas. Outras milhares de pessoas tiveram complicações devido ao uso de narcóticos.

Segundo a ONU, considerando os mortos e os usuários de drogas que enfrentam problemas de saúde, a população mundial que é dependente química deixou de viver 20 milhões de anos em 2010. 

A conta é complicada e se baseia na estimativa de quanto tempo um cidadão poderia viver a mais ou melhor se não usasse drogas. Para chegar ao impacto da droga no tempo de vida do dependente, os pesquisadores realizaram cruzamentos de dados com 12 variáveis.

Essa interferência aumentou nas duas últimas décadas. Entre 1990 e 2010, o salto foi de 53%: passou de 13,1 milhões de anos comprometidos para 20 milhões de anos, juntando o tempo perdido para overdoses, que provocam mortes prematuras, e o tempo a ser vivido pelos dependentes com qualidade prejudicada (afetada por doenças como HIV, hepatites B e C, complicações do fígado e distúrbios psiquiátricos, resultantes do consumo de entorpecentes).

Em 2012, cerca de 5% da população mundial entre 15 e 64 anos consumiu drogas ilícitas, o que corresponde a algo em torno de 243 milhões de pessoas.

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Campanha antidrogas mostra o 'antes e depois' de presos viciados14 fotos

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Uma das transformações mais chocantes mostradas pela campanha é a de Amy. Ela tinha 25 anos quando foi presa pela primeira vez. O site Rehabs.com pediu a 200 pessoas que adivinhassem quantos anos se passaram entre a primeira e a última foto. As pessoas disseram, em média, 21 anos. Na realidade, se passaram dez anos Leia mais Reprodução Site Rehabs.com/Arte UOL

Expansão do opio

As substâncias ligadas aos opiáceos são as mais letais, sendo responsáveis por 55% dos casos de mortes no mundo em 2010. O impacto na qualidade de vida também é alto: elas respondem por 44% dos anos vividos com complicações de saúde.

Maconha, anfetaminas e cocaína tiveram crescimento dos efeitos que geram na vida dos usuários, mas foi proporcional ao aumento da população entre 1990 e 2010.

Esse "equilíbrio" não se aplica aos opiáceos, cujo peso para os dependentes subiu 74% no intervalo de duas décadas. De acordo com a ONU, o aumento se acentuou globalmente, nos últimos cinco anos, devido ao mau uso de produtos à base de opiáceos com prescrição médica.

Em 2010, 43 mil mortes foram atribuídas à dependência de opioides. De acordo com os parâmetros da pesquisa, isso representou uma perda de 46 anos para cada uma das vítimas, considerando a expectativa média de vida.

No caso da maconha, o estudo indica que a carga para seus dependentes é maior do que a provocada pela cocaína. Embora o uso da cocaína represente maior perigo para a saúde, o número maior de dependentes de cannabis resulta em maior carga de doenças em geral.

De acordo com o estudo, o uso de drogas ilícitas foi a causa de 0,8% dos anos-deficientes vividos no mundo em 2010 (ficando na 19ª posição em um ranking de fatores de risco). Em comparação, o consumo de tabaco foi a causa para 6,3% do total de anos vividos com incapacidade, e o álcool determinou outros 3,9%.

Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e Austrália são alguns dos países com os índices mais altos de impacto das drogas nas vidas dos usuários (acima de 650 anos por 100 mil habitantes).

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Veja mitos e verdades sobre drogas24 fotos

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Crack é uma droga usada somente pelos pobres? MITO: o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp, explica que o crack, por ser realmente muito barato, é a única opção de consumo para a parcela mais pobre. Porém, ele garante que há entre os usuários do crack uma parcela que é de classe média e alta Leia mais Hélio Hilário/Folhapress

Pesquisa no Brasil

O estudo não tem indicadores específicos para o Brasil. De acordo com Francisco Inácio Bastos, 56, pesquisador-titular da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-integrante do comitê que, até 2012, assessorava o Unodc (escritório para crimes e drogas da ONU, na sigla em inglês) no país, pesquisas com foco na carga da dependência nunca foram feitas no Brasil.

O pesquisador, estudioso do tema há 30 anos, afirma que pode fazer diferença para o planejamento público conhecer, de maneira mais condizente com a realidade, o impacto que as drogas oferecem à população, considerando especialmente as mudanças sócio-econômicas pelas quais o Brasil vem passando. "Esse tipo de estudo é extremamente importante. O Brasil é um país que está vivendo claramente uma transição demográfica e epidemiológica", diz.

Bastos fez parte da equipe de pesquisa sobre o consumo de crack no Brasil, uma das mais recentes sobre drogas no país, apresentada em setembro de 2013. O estudo identificou que o crack tem 350 mil usuários nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal e que seu consumo representa 35% do total de drogas ilícitas consumidas nesses locais (com exceção da maconha).  

Segundo Bastos, a última pesquisa sobre drogas feita no Brasil de acordo com a metodologia seguida pela ONU foi realizada em 2005 pela Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas), ligada ao Ministério da Justiça, em municípios com mais de 200 mil habitantes.

A Fiocruz acaba de vencer o edital para realizar, em 2015, o Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. O trabalho será coordenado por Bastos e seguirá a metodologia da ONU. Dessa forma, o envio dos dados brasileiros à entidade, futuramente, poderá será mais eficiente e atualizado.

A previsão é que as equipes de recenseamento, já treinadas, comecem o trabalho de campo em janeiro de 2015. Os resultados devem ser divulgados até a metade do ano que vem.

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