Alaides Garcia dos Santos

 

Salve-se quem puder

As drogas se disseminaram de tal maneira que não existem mais segmentos sociais livres dela. Não que tenha começado agora, mas jamais houve tanto tráfico, consumo, prisões e tantas pessoas envolvidas com drogas de todos os tipos como vem ocorrendo ultimamente. As mortes violentas por arma de fogo, geralmente envolvem disputas por pontos de venda de drogas ou acertos de contas entre traficantes e consumidores com dívidas. É um círculo vicioso terrível, parece, sem fim. Salve-se quem puder!

 

Primor de impunidade

Com o alto valor das drogas e o que é pago para quem as transporta, torna-se fácil recrutar gente para se arriscar. Com muitos desocupados, a falta de estrutura familiar e de estudo, a tentação é muito grande para centenas ou mesmo milhares de pessoas. Além disso, a interpretação legal no Brasil é um primor de impunidade. Os subterfúgios adotados pelos traficantes, mesmo aqueles pegos com grande quantidade de droga, são eficientes para formar convencimento de julgadores a promoverem a absolvição.

 

Do samba ao crack

Da minha geração, em que a grande infração contra os mais velhos e os padrões sociais impostos era fumar cigarros e tomar um “samba” (aguardente com coca cola e gelo), pulamos para drogas como a maconha e, rapidamente, para a cocaína, e tantas outras. Hoje, há o terrível e avassalador crack. Fácil de ser obtido e muito barato para ser vendido. Além disso, o abuso no consumo de álcool no Brasil supera a média mundial e apresenta taxas superiores a dezenas de países. Dados da Organização Mundial da Saúde alertam que em média morre, no mundo, cerca de 3,3 milhões de pessoas por consumo excessivo do álcool, equivalente a 5,9% de todas as mortes.

 

Ignorando o problema

A cada dia que passa um número cada vez maior de jovens e até crianças estão tendo contato com algum tipo de substância entorpecente, tornando-se assim usuários de droga. O resultado disso reflete negativamente contra a sociedade, que por ignorar um problema que se mostra cada vez mais evidente, acaba se tornando alvo da sua própria atitude. Até porque, para sustentar o vício, o usuário pratica delitos contra a sociedade e contra a própria família. Começa praticando furto dentro de casa e, quando já não tem mais o que pegar, passa a furtar em residências e estabelecimentos comerciais, outros se prostituem em busca do dinheiro para adquirir a droga e, num gesto ainda mais extremado, passa a praticar roubos e crimes de consequências ainda mais graves, cujo final é sempre trágico, perdendo a sua ou tirando a vida de outros. 

 

Família ou família?

Mas, antes de pensarmos sobre as drogas é fundamental refletirmos sobre a família. Imagino que, diferentemente do passado, a família não é vista hoje apenas como aquele grupo constituído por pai, mãe e filhos. Até algum tempo atrás, não poderia ser considerada “família” aquela que estivesse fora deste padrão. Hoje tem-se que avaliar noutro contesto. Não há famílias “direitas” e famílias incompletas e sim diferentes possibilidades de organização familiar, formadas por mãe e filhos, pai e filhos, somente os irmãos, avós e netos, tia e sobrinhos e por aí vai. O mais importante não é de quais membros é composta e sim a qualidade das relações, pois a família é a referência com a qual as pessoas se identificam, mantêm relações afetivas e de cuidado, aprendem constantemente sobre a vida, vivem no mesmo espaço físico ou estão próximas. O olhar deve ser direcionado, portanto, para os laços de afeto e de cuidado. Pense nisso!

 

A propósito

Nos dias atuais ainda está presente a ideia de que famílias desestruturadas (fora do padrão) são a maior causa dos problemas com o uso de drogas. É comum se relacionar o uso de drogas a filhos de pais separados. São afirmativas preconceituosas. Não existe nenhuma comprovação de que este seja um facilitador do uso de entorpecentes.