Prevenção antes de tudo

Prevenir é melhor que remediar. Todo mundo conhece esse ditado, mas pouca gente o coloca em prática. A falta da prevenção pode nos causar sérios e irreversíveis problemas, abrir feridas que podem cicatrizar, mas as marcas não desaparecerem jamais. Depois da tragédia na boate Kiss que matou 242 jovens, as ações de fiscalização se deflagraram. Centenas de boates, casas de espetáculos, estabelecimentos em geral de diversões públicas, foram fechados. Mas, por fatores diversos que influenciam a cultura e a sociedade brasileira, temos pouca preocupação com a “prevenção”. Um desses fatores é termos fiscais competentes e honestos, que não façam o jogo de pedir propinas e de proprietários de estabelecimentos que ao invés de darem a propina corrijam as deficiências de seus estabelecimentos. E como tem estabelecimentos irregulares por aí!

 

Um pouco didático

A falta da prevenção na Kiss custou a vida de 242 jovens e enlutou centenas ou milhares de pessoas entre familiares e amigos das vítimas e, estampou as mazelas existentes nos órgãos públicos. Mas, cabe a nós cidadãos e cidadãs, aproveitar esse momento para refletir e chamar à razão nossos filhos e filhas, netos e netas sobre que atitude deve ter em relação a sua segurança. Ao entrar num ambiente fechado com número considerável de pessoas, observar onde estão as portas de emergência, perguntar ao gerente sobre equipamentos de combate ao fogo, perguntar sobre o material de revestimento usado para o controle acústico, saber se o show vai ser pirotécnico e, “não entrar se não tiver garantias”. Assim, os proprietários vão tratar de seguir as regras de segurança.

 

É nessa linha…

Ouve-se muito a pergunta: como uma casa noturna ou qualquer outro estabelecimento comercial, industrial ou de diversão funciona sem alvará? A resposta é dura, cruel, mas real: a fiscalização ou inexiste, ou é amiga e parceira do suborno, da “molhada de mão”, da propina. Mas há também, por vezes, a complacência e compensação política do prefeito pelo apoio recebido ou a receber. É nessa linha que as coisas funcionam e para tudo é dado um jeito. Temos que acabar de uma vez por todas com essa cultura do jeitinho.  Eu nunca entendi como alguns até têm orgulho do jeitinho. Ele causa problemas na política, saúde, segurança, na economia, na vida das pessoas. É um dos cancros brasileiros. Aliás, o jeitinho, é o desejo de realizar feitos que não são possíveis. E não tenhamos dúvidas de que a tragédia que ocorreu em Santa Maria foi consequência do jeitinho. Às vezes, por tão trivial e presente na sociedade, passa despercebido. Ele não só macula a moral, como pode extirpar o futuro das pessoas. É o fim! Pense nisso.

 

Se não houver o jeitinho…

Se não houver o jeitinho, e sim, seriedade, responsabilidade e profissionalismo por parte dos agentes públicos nas exigências legais, na fiscalização e na emissão de “alvarás” pelas prefeituras, teremos ambientes adequados e seguros. Além das exigências legais para emissão do alvará, a fiscalização deverá estar sempre atuante, não só em casas noturnas ou salões de festas, mas nos açougues, nos supermercados, nas indústrias de alimentos, para garantir também segurança à saúde das pessoas. E não me venham com essa de que a prefeitura só fornece o alvará de localização, e que nada tem a ver com a segurança do estabelecimento. Isso não é verdade. A prefeitura só pode fornecer o alvará depois de satisfeitas todas às exigências legais através dos laudos respectivos.

 

Paradigma educacional

A tradição, sabidamente, nos diz que as transformações têm que passar pela educação. Não se muda um país sem educar as pessoas. É preciso estender o paradigma educacional. Educador, hoje, não é só o professor. Quando se fala em educação temos que pensar no empresário, no médico, no sociólogo, no funcionário público, na polícia. Todas as profissões que trabalham com gente têm uma dimensão que antecede o seu específico profissional, que é a dimensão pedagógica. Analogamente, todo médico tem que saber que é um educador antes de ser médico, assim como o advogado, o juiz, o jornalista, só para citar alguns exemplos. São tipos de profissões exercidas, também, como poder sobre a sociedade, e exercer o poder é uma responsabilidade muito grande. Ele motiva o exercício do bem ou incita para o mal através de suas práticas.