Médico acusado pela morte do filho na região noroeste do Estado completa 39 anos nesta quinta-feira em uma cela de penitenciária de alta segurança

29/05/2014 | 05h01

Como é a rotina de Leandro Boldrini, preso em Charqueadas Reprodução Facebook/Arquivo pessoal

Denúncia contra Leandro Boldrini foi aceita pela Justiça em 16 de maioFoto: Reprodução Facebook / Arquivo pessoal

Antes, uma ampla casa colorida e decorada de 400 metros quadrados cercada por um extenso jardim com piscina e churrasqueira no centro de Três Passos, no noroeste gaúcho. Agora, uma cela de dois por três metros, mal pintada de branco, com cama, mesa e pia de concreto e um canto de pátio cercado de grades e macegas sem banco para sentar.

O médico Leandro Boldrini completa 39 anos nesta quinta-feira, em uma cela da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), sob suspeita de participação na morte do filho Bernardo, 11 anos. Assim como Boldrini, a mulher dele, Graciele Ugulini, madrasta de Bernardo, e a amiga dela Edelvânia Wirganovicz, também estão presas acusadas pelo mesmo crime. O irmão de Edelvânia, Evandro Wirganovicz, está detido, suspeito de ajudar a ocultar o corpo do menino.



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ZH não falou com Boldrini, mas buscou informações sobre como vive na Pasc. Ele está recolhido à triagem, para presos de mau comportamento ou que correm riscos nas galerias. Ocupa a cela número 1 de um total de 13, a mais próxima do posto de controle junto à entrada da cadeia. Passa a maior parte do tempo absorvido pela leitura de publicações sobre medicina e romances retirados na biblioteca ou levados pelo primo, o advogado Andrigo Rebelato.

Preso preventivamente desde 14 de abril, o médico foi transferido para a Pasc duas semanas depois. Ainda não recebeu visita de parentes mais próximos, moradores de Campo Novo, distante 414 quilômetros de Charqueadas.

– Estou querendo ir, mas ainda não foi possível. O pai e a mãe têm sofrido muito, o velho tem problemas de pressão alta, já foi hospitalizado duas vezes. Somos três filhos homens, e o Leandro é o nenê da casa. Ano passado, neste dia, fizemos uma churrascada de ovelha para ele. Imagino o que tem sentido – lamentou o irmão, Paulo.

Preso recebe as mesmas refeições dos guardas

Beirando 50 quilos, Boldrini tem consultado com psicólogas da Pasc e toma tranquilizantes tarja preta (já usava antes de ser preso). Dorme com quatro cobertores de tecido fino – pano duplo é proibido, pois poderia servir de esconderijo de objetos. No alto da parede sobre a cama, a única janela, de um metro quadrado, é fechada com venezianas de ferro e cheia de frestas.

Por questões de segurança, são servidas ao médico as mesmas refeições dos guardas da Pasc. A medida evita que apenados que preparam os alimentos para as galerias misturem veneno ou cacos de vidro na comida de Boldrini. Autores de crimes contra crianças despertam ódio entre apenados.

O cirurgião tem de estar de pé às 7h se quiser tomar o café da manhã, em uma caneca plástica, acompanhado de pão com manteiga. Quando o auxiliar da cozinha passa, ele tem de entregar o prato, também de plástico, que volta às 11h com o almoço. Em geral, arroz, feijão, salada e um pedaço de carne, quase sempre moída. O prato tem de estar limpo antes das 16h, quando vem a janta.

O rosto, a louça e a roupa são lavados na mesma pia. O vaso sanitário é um buraco no chão (chamado de boi), e o chuveiro, um cano. Na solitária da triagem, Boldrini não tem direito a TV ou rádio. Pode ir ao pátio de 20 metros quadrados para o banho de sol por até duas horas, sozinho.

Na terça-feira, o desembargador Nereu José Giacomolli, da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, negou habeas corpus em favor de Boldrini. Nestaquarta, o médico foi submetido ao detector de mentiras, com a presença de um profissional contratado pela defesa. O advogado de Boldrini, Jader Marques, deve receber até sexta-feira a análise sobre a veracidade da versão do cirurgião, que nega envolvimento no crime.

Do sumiço à morte

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu em 4 de abril. Nesse dia, o garoto saiu de Três Passos e foi a Frederico Westphalen, à tarde, acompanhado da madrasta, Graciele Ugulini, e da amiga dela, Edelvânia Wirganovicz.

A versão do pai e da madrasta era de que o menino voltou a Três Passos e passaria o fim de semana com um amigo.

No domingo, o pai registrou o sumiço na polícia. Cartazes foram espalhados na região.

O corpo do menino foi encontrado no dia 14, no interior de Frederico Westphalen, enterrado.

Investigação da Polícia Civil apontou que Bernardo foi dopado, ainda no dia 4, antes de ser morto.

O pai, a madrasta e a amiga dela foram presos no mesmo dia em que o corpo foi encontrado pela polícia.

No dia 10 de maio, um irmão de Edelvânia, Evandro Wirganovicz, foi preso temporariamente, suspeito de ter ajudado a ocultar o corpo.

Em 15 de maio, o Ministério Público denunciou Edelvânia Wirganovicz por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver, Evandro Wirganovicz (irmão de Edelvânia) por ocultação de cadáver, Graciele Ugulini por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver, e Leandro Boldrini por homicídio quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver e falsidade ideológica (por suposto registro falso de ocorrência policial).

Em 16 de maio, a Justiça aceitou a denúncia oferecida pelo MP.

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