Em coletiva de imprensa, Instituto e sindicatos policiais apresentaram resultados da pesquisa de vitimização em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Fernanda Canofre

Um em cada quatro habitantes de Porto Alegre já teve um familiar assassinado. Um em cada cinco passou por algum tipo de discriminação na vida. Mais de 40 mil pessoas dizem já ter sido estupradas. Cerca de 500 mil, um terço da população, convivem com tiros nos bairros onde vivem. Aproximadamente 920 mil (77,1% da população) evitam sair de casa à noite, enquanto 864 mil (72,5%) não portam objetos de valor quando estão na rua. 170 mil pessoas (14,3%) já sofreram ameaça de morte e 229 mil (19,2%) de agressão física. Só no último ano, 95 mil pessoas teriam sofrido esse tipo de ameaça.

Esses são alguns dos números apontados na “1ª Pesquisa de Vitimização de Porto Alegre”, um estudo inédito, desenvolvido pelo Instituto Cidade Segura, pela Ugeirm (Sindicato dos Agentes da Polícia Civil) e pelos Sindicatos dos Policiais Federais e dos Policiais Rodoviários Federais do Rio Grande do Sul. Os dados foram coletados em outubro do ano passado, em mil entrevistas aleatórias, com 142 perguntas, realizadas em oito regiões da Capital, pelo Instituto de Opinião Pública (IPO).

Para ficar mais próxima à realidade atual da cidade, a pesquisa utilizou como parâmetro uma estimativa populacional da FEE (Fundação de Economia e Estatística), de 2016, que afirma que Porto Alegre teria uma população maior de 16 anos de 1.192.749 habitantes. O índice anterior, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com base no Censo de 2010, apontava 1.124.778 pessoas. A margem de erro é de 3% e tem índice de confiança de 95%.

O resultado da Pesquisa de Vitimização foi apresentado na manhã desta quinta-feira (1º). Quinze dias antes, a Secretaria Estadual de Segurança Pública havia divulgado os índices mais recentes de criminalidade no Rio Grande do Sul, comemorando uma queda em casos como roubo a usuários de transporte público e abigeato (roubo de gado).

Segundo o grupo, o foco em como sensação de insegurança e medo do crime, noções de justiça, tolerância, preconceito e confiança nas polícias impacta a vida dos moradores é uma forma de elaborar diagnósticos da segurança pública além dos números oficiais. Enquanto tem crescido o número de vítimas que opta por não registrar boletim de ocorrência (B.O.), os índices de criminalidade apresentados por governos, que tomam por base exclusivamente os números de registros policiais, vão caindo nas chamadas “cifras obscuras” (dark rates).

“Não sabemos se o crime está subindo ou diminuindo com os boletins de ocorrência. Eles não medem tendências criminais, medem só a atitude das vítimas diante do crime”, explica o jornalista Marcos Rolim, presidente do Cidade Segura. No relatório, ele explica que essas ocorrências, que não chegam ao conhecimento do Poder Público, só podem ser estimadas por pesquisas de vitimização. “Quanto menor a confiança [nas polícias], maiores as taxas de subnotificação”

Veja alguns dos principais pontos destacados na pesquisa:

Foto: Divulgação/Instituto Cidade Segura

Golpes , furtos e roubos

O levantamento aponta que 35% dos moradores de Porto Alegre já teve algum bem furtado, sem contar veículos automotores. Um percentual um pouco acima dos entrevistados que declaram ter sido vítimas de roubo: 32,5%. Cerca de 31,4% dos entrevistados sofreram furtos duas vezes na vida, enquanto 51% relata ter sido roubado ao menos uma vez. Enquanto furto é mais comum para vítimas de classe média e alta, roubo é mais comum para quem ganha entre um e dois salários mínimos.

No último ano, 170 mil pessoas teriam sido vítimas de furtos na capital – 46,2% delas não registraram ocorrência. Segundo os registros oficiais, entre outubro de 2016 e outubro de 2017 foram registradas 27.824 ocorrências de furto e 34.811 de roubo, na capital gaúcha. Em ambos os casos, o estudo aponta uma subnotificação maior do que a declarada.

Crimes como golpes dados pelo celular (falso sequestro de parente, prêmios ou negócios inexistentes) já atingiram 27,1% da população. Fraude em cartão de crédito (clonagem e compras não-autorizadas) atingiu 7,5% dos entrevistados e fraude pela internet, 5,1%.

Assédio, violência sexual e ameaças

Dos entrevistados na pesquisa, 13% dizem já ter sido assediados sexualmente ao longo da vida. 38,5% das vítimas tiveram uma experiência, 26,2% duas e 11,5% três. Estima-se que uma cifra aproximada de 28 mil pessoas teria sofrido assédio sexual só no último ano. 88,9% não registraram ocorrência. Em 79,3% dos casos, o assédio aconteceu dentro de ônibus, 17,1% em serviços de aplicativos e 5,9% em táxis.

A pesquisa aponta ainda que 3,7% das pessoas maiores de 16 anos, que vive em Porto Alegre, já foram estupradas. A maioria das vítimas são mulheres.

Já as cifras de ameaças de morte e agressão física são próximas: 14,3% e 12,1%, respectivamente. 45,5% dos entrevistados diz já ter sofrido ameaças uma vez na vida. Homens, entre 18 e 39 anos, são a maioria das vítimas. Das cerca de 77 mil que teriam sido ameaçadas só nos últimos 12 meses que precederam o estudo, 65% não registraram ocorrência. Nos casos de agressão, a cifra cai para 57,5%. Dos casos de agressão contra mulher, 48,6% das vezes são praticados por homens com quem elas mantinham um relacionamento. Para os homens, agressões por ex-companheiras correspondem a 3,1% dos casos.

Discriminação e preconceito

Os números da amostra da pesquisa indicam que 243 mil pessoas (20,4%) já sofreram algum tipo de discriminação ao longo da vida. Cerca de 140 mil teriam sofrido discriminação no último ano, em 94,9% dos casos não houve registro de ocorrência. A maior parte das vítimas são jovens, negros e pardos. O racismo corresponde a 44,1% dos casos; “ser pobre” a 24,5%, discriminação por gênero corresponde a 14,2% e homofobia a 7,8%. A pesquisa registra ainda casos de preconceito por “ser gordo” (11,3%), por idade (9,3%) e por religião (8,8%).

Violência das ruas

Segundo a pesquisa de vitimização, aproximadamente 279 mil moradores de Porto Alegre já tiveram um familiar assassinado em algum momento. O que representa 23,4% da população. Dos 256 casos relatados pelos entrevistados (nem todos ocorridos na capital), 90,2% tinham como vítimas homens e 9,8% mulheres. A maioria (30,4%) recebia entre um e dois salários mínimos, tinha entre 18 e 24 anos (34,5%) e eram negros ou pardos (75%).

A sensação de insegurança se reflete nos indicativos sobre hábitos e cotidiano. Dos entrevistados, 77,1% evitam sair de casa à noite, o que corresponderia a 920 mil habitantes. Outros 72,5% dizem não portar dinheiro ou objeto de valor na rua, enquanto 12,6% não andam de ônibus por medo de roubo. Para os pesquisadores, isso poderia ter colaborado para uma redução no número de passageiros de transportes coletivos.

Além disso, a pesquisa mostra que 42% dos entrevistados dizem ouvir “tiros na rua”, com frequência, no bairro onde vivem. Uma estimativa próxima de 500 mil moradores da Capital. Quase um quarto (24%) da população sofre com “pessoas fazendo arruaça, danificando patrimônio público” e 28,5% com “importunação do sossego”. A pesquisa estima ainda que 404 mil pessoas sofram de ansiedade diante de riscos, 395 mil tenham “pânico por riscos envolvendo familiares” e 83 mil sofram com “pesadelos com cenas de violência”.

“Tais alternativas chamam a atenção para algo quase nunca considerado como um ponto importante para a segurança pública e dá conta de um cotidiano de milhares de munícipes atormentados por atos de incivilidade urbana e que não encontram no Poder Público e nas polícias, como regra, qualquer resposta capaz de lhes assegurar sossego e paz”, diz o relatório.

Confiança nas polícias

Outro aspecto destacado na pesquisa, que reflete diretamente as chamadas cifras obscuras, é a confiança da população nas polícias: Militar e Civil. Em números gerais, o estudo aponta que os mais jovens tendem a ter menor confiança e que é grande a percepção de que as forças de segurança não estarão disponíveis, quando se precisa. O estudo separou as questões sobre as duas polícias.

Entre os entrevistados, 17,9% diz já ter sido abordado pela Brigada Militar. Mais da metade dos negros e pardos ouvidos (50,6%) diz já ter sido abordado. Entre pessoas de 18 a 24 anos, a porcentagem é de 32,4%, enquanto para aqueles acima de 59 é de 8%. Para 31,8% dos entrevistados a abordagem foi desrespeitosa, o que 50,1% dos entrevistados diz acreditar ser atitude comum da PM, mesmo em situações que não exigiriam “postura mais vigorosa”. Para 35,3%, no entanto, “os PMs não são violentos e que agem comumente de forma respeitosa com as pessoas, sendo que eventuais situações de abuso de autoridade são prontamente investigadas e seus autores punidos”. O estudo aponta ainda que brancos avaliam melhor sua experiência com a PM, com 77,1% de avaliações positivas. Enquanto negros e pardos são, respectivamente, 54,5% e 57,7%.

A pesquisa também revela que quase um quinto dos entrevistados (21,4%) procurou a Brigada entre outubro de 2016 e outubro de 2017. Entre pessoas com formação superior e renda entre 3 e 5 salários isso seria mais frequente. Um terço diz que suas perguntas não foram respondidas de forma satisfatória, 56,3% entendem que a instituição não tem realizado um bom trabalho com os residentes do seu bairro, enquanto 43,7% diz que está contente com o serviço. Entre entrevistados que foram vítimas de roubo ou agressão e aqueles que tiveram familiares assassinados, a avaliação sobre o trabalho da Brigada é levemente superior à média.

A Polícia Civil foi procurada por 17,7% dos entrevistados nos últimos doze meses, o que equivaleria a 210 mil habitantes da Capital. A maioria dos que recorrem à ela são pessoas que recebem entre 3 e 5 salários. 82,5% dos entrevistados diz ter sido tratado de forma equitativa, 74,6% declaram que os policiais responderam satisfatoriamente as suas perguntas, enquanto 25,4% dizem que não. 40,7% dos entrevistados se declara insatisfeito com trabalho da PC.

Mais da metade dos entrevistados (57,7%) acredita que a Polícia Civil gaúcha não tem conseguido “bons resultados, nem contribuído para a redução do crime”. Os outros 42,3% acreditam discordam. Proporção próxima (55,2%) aqueles que acreditam que os agentes são bem preparados para o trabalho.

Os mais jovens são os que indicam menos confiança no trabalho da corporação. Para 58,1% dos entrevistados, não há como esperar que a Polícia Civil esteja disponível quando se precisa. 61,9% acredita que a Civil não escuta moradores e não compreende problemas que afetam as comunidades. Ao contrário do que ocorre com a Brigada, entre vítimas de crimes e pessoas que tiveram familiares assassinados, a avaliação da Polícia Civil é mais negativa.

Editoria: Geralz_Areazero